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Capixaba Cesar MC lança 1° álbum trazendo reflexão social e luta contra o racismo

Trazendo sete faixas, "Dai a Cesar o que é de Cesar" está disponível para download nas plataformas digitais

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 16/09/2021 às 15h50
Cesar MC
Cesar MC lança do disco pela gravadora Pineapple. Crédito: Marcelo Martins/Divulgação

Após lançar um single em agosto, com o sucesso do autobiográfico "Eu precisava voltar com a Folhinha", o esperado primeiro álbum de carreira de César MC, do qual "Folhinha" é um dos integrantes", finalmente saiu do forno pela gravadora Pineapple.

Com sete faixas, e trazendo participações de nomes de peso, como Djonga e Emicida, consagrados no cenário do rap nacional, o disco "Dai a Cesar o que é de Cesar" - disponível nas plataformas digitais - cumpre o que promete, ao ressaltar o talento do rapper capixaba para compor músicas que são um reflexo do Brasil atual, um país marcado pela desigualdade social, racismo estrutural, fome, miséria e desesperança em relação ao seu futuro.

Ao ouvir o pulsante e irrequieto álbum, fica cada vez mais claro que Cesar quer usar sua voz para promover um pedido de socorro dos milhares de esquecidos sociais aos "olhos" de um país governado pela extrema-direita.

Com sua música, o cantor declara que o povo preto da favela (o rapper é do Morro do Quadro, em Vitória) merece oportunidade, dignidade, respeito e tem, sim, o direito à vida, sem bala perdida e violência policial. Essa dor e opressão está explícita em cada uma das vibrantes composições do disco.

Não à toa, a música de trabalho "Dai a Cesar o que é de Cesar" coloca o morro dentro de um coliseu romano, onde a batalha pela sobrevivência é o principal objetivo. Criado em uma família evangélica, Cesar usa passagens bíblicas para contextualizar sua eterna luta. A canção traz versículos do evangelho de Mateus, como "Mas bem aventurados os que tem fome e sede de justiça, pois eles serão saciados”, em uma clara batalha contra as desigualdades.

"'Dai a Cesar...' traz um pouco da minha reflexão sobre religiosidade. Fui criado na Igreja Batista, onde sempre encontrei amor, força e esperança, o meu fundamento de vida. Hoje, porém, vejo a religião sendo usada como uma falsa 'vitrine gospel', cada vez mais afastada dos ensinamentos de Cristo e desvinculada da nossa fé", apontou o cantor, em entrevista ao "Divirta-se".

Segundo o rapper, "Dai a Cesar o que é de Cesar" faz uma analogia à crise social e política dos dias atuais. "Nos versículos da Bíblia que dizem respeito a essa citação, vemos Jesus encurralado, mas, com sua bondade, sempre defendendo os oprimidos. Agora vemos uma religiosidade aliada a questões políticas, em um governo que usa a religião para defender seus valores. A Bíblia não pode ser usada como um projeto de poder e nem em formato de um moralismo impositivo", critica o artista, sempre muito consciente de suas palavras.

Cesar MC

cantor capixaba

"Vemos uma religiosidade aliada a questões políticas, em um governo que usa a religião para defender seus valores"

Em trechos fortes de "Dai a César...", ouvimos passagens como "O cidadão de bem/ Com sua arma do bem/ Dá um tiro do bem/ No suspeito do mal/ Que não matou ninguém", em uma clara reflexão à violência e ao racismo contra o morador da periferia. "Uma parcela considerável da população se autodenominou com esse adjetivo. São hipócritas, com atitudes reprováveis. Não dialogam. Só promovem a censura com violência e discurso de ódio".

Em outra faixa potente, "Antes Que A Bala Perdida Me Ache", que conta com participação de Emicida e Jaddy, Cesar faz outra bem-vinda reflexão, desta vez à barbárie que assola os bairros localizados em área de risco social das grandes cidades.

"É uma música muito forte. Relata o sofrimento diário do povo da favela. São incontáveis os casos de extermínio de negros no país. A forma como a segurança pública é pensada não consegue resolver esse problema. O tom punitivo não é a solução, mas acredito que isso nunca vai mudar, sabe?", responde, parando para refletir. "Se mudarem o que consideram a raiz do problema (a insegurança nos bairros periféricos) vão tirar muitos privilégios da parte privilegiada da sociedade".

Cesar MC

Cantor capixaba

"São incontáveis os casos de extermínio de negros no país. A forma como a segurança pública é pensada não consegue resolver esse problema. O tom punitivo não é a solução "

CENSURA

Recentemente, uma das faixas do novo disco "Neguin", com participação de Djonga, sofreu uma restrição por parte do YouTube. O capixaba foi notificado pelo streaming, dizendo que a música "violava alguns direitos da plataforma", mas sem explicar o real motivo do bloqueio. César tratou a atitude como censura em relação à sua arte e fez questão de desabafar nas redes sociais. 

"Até hoje eles não explicaram que regra foi infringida e nem o motivo da restrição", desabafa. "Mudamos o formato de escrever e passamos a grafar 'N*GUIN'. Acredito que o algoritmo do Google pode ter visto como racismo. Mas, se for isso, enxergaram de forma errada. Enfraqueceram o nosso discurso. Na plataforma, temos pessoas brancas com liberdade de explorar qualquer conteúdo. Será que a nossa voz não é bem-vinda?", questiona, em tom de ironia, explicando o conceito de "Neguin".  

"Foi uma tentativa de ressignificar a palavra 'Neguin' à minha maneira. Minha vida inteira achei que era ofensa ser chamado assim. Tentamos mostrar de uma forma positiva, fugir desse tom pejorativo. Isso me faz lembrar uma passagem que aconteceu comigo, em Vitória", relembra, hoje tratando o assunto com menos dor.

César MC

Cantor capixaba

"Em 2015, fui expulso de um shopping de Vitória, sem nenhum motivo aparente. Vejo que foi uma forma clara de racismo... do velho racismo, sabe? "

"Em 2015, fui expulso de um shopping, sem nenhum motivo aparente. Vejo que foi uma forma clara de racismo... Do velho racismo, sabe? Errado ou não, penso que fui expulso porque era 'só mais um neguinho'", explica, sem entrar mais em detalhes sobre o assunto.

Cesar Mc é consciente e sabe que hoje tem poder de voz no mercado fonográfico. Ele quer usar essa força para quebrar paradigmas. "O papel da minha música é provocar, levar à reflexão. Vivemos em um momento político em que  tudo está dando errado no Brasil. O rap é capaz de trazer essa reflexão, essa conscientização do nosso lugar na sociedade. Aliás, vivo dizendo que a música é a nossa forma de contar a própria história", complementa, sem medo de dizer verdades. 

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