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Weintraub e o Enem: o pior cego é aquele que não quer ver

Surdo a apelos de gestores, alunos e especialistas, que temem o aumento da desigualdade no acesso às universidades, ministro da Educação insiste em manter data do exame,  custe o que custar. E os custos certamente serão altos

Publicado em 11/05/2020 às 06h00
Atualizado em 11/05/2020 às 06h00
O ministro Abraham Weintraub
O ministro da Educação, Abraham Weintraub. Crédito: Wilson Dias/Agência Brasil

Na contramão do bom senso, o que não é nenhuma surpresa, o ministro da Educação tem feito campanha para que o Enem não seja adiado. Surdo a apelos de secretários de Educação, alunos, especialistas e parlamentares, que temem o recrudescimento da desigualdade no acesso às universidades, Abraham Weintraub bate o pé para que as provas sejam mantidas em novembro. “Aula a distância é aula normal”, disse o ministro, desconectado da realidade.

Em propaganda divulgada nesta semana, o MEC depositou todo o ônus da preparação para o exame nos ombros dos estudantes, sob a alegação de que “o Brasil não pode parar”. Em tom meritocrático, o texto diz para o secundarista “ir à luta, se reinventar” e que estude de “qualquer lugar”. O discurso é tão absurdo que se tornou alvo de justa pilhéria nas redes sociais.

Antes da pandemia, já havia um abismo entre as redes pública e privada de ensino. À guisa de exemplo, o resultado das escolas particulares de elite do país no Pisa colocaria o Brasil na 5ª posição do ranking mundial de leitura. Já as notas das escolas públicas encaixariam-se na 65ª posição, na lista dos 79 países avaliados pela OCDE. E o que era péssimo tornou-se ainda mais cruel.

Enquanto escolas particulares conseguem ministrar conteúdos por plataformas digitais, na rede pública alguns Estados nem sequer adotaram aulas remotas. Naqueles que adotaram, os modelos não estão nem perto de substituir aulas presenciais. No Espírito Santo, o Programa EscoLar disponibiliza aulas pela TV e um app para interação entre professores e alunos, mas os relatos vão da impossibilidade de sintonizar o canal até falta de acesso à internet. Isso para ater-se a critérios técnicos, sem entrar no mérito da qualidade do conteúdo.

São esses obstáculos que o Ministério da Educação recusa-se a ver, mesmo que dados que os comprovem sejam do próprio governo federal. No Brasil, apenas 36% dos alunos da rede pública têm computador em casa, contra 75% dos estudantes da rede privada, segundo o IBGE. Seis a cada dez lares brasileiros das classes D e E não têm nem computador, nem internet.

Weintraub, no entanto, minimizou as reclamações de que a manutenção da data do exame significaria a ampliação de disparidades. Para ele, “o Enem não foi feito para corrigir injustiças”. Choca que o inquilino do MEC desconheça algo óbvio à pasta: o poder da educação de qualidade para o desenvolvimento pessoal e do país. Como principal porta de entrada às universidades brasileiras, o Enem não pode ser o catalisador de desigualdades ainda mais profundas.

Embora nos bastidores o Inep, que organiza o Enem, admita a possibilidade de mudança, em público o discurso é de manutenção do calendário, custe o que custar - e os custos certamente serão altos. Weintraub pediu que parlamentares não endossem projetos que pedem o adiamento, porque acredita que a crise não seguirá até a época das provas. Além de ser um exercício de futurologia, desconsidera que os alunos da rede pública já foram prejudicados. Sobre o que fazer para atenuar os danos à educação desses quase 40 milhões de brasileiros, o boquirroto ministro só oferece o silêncio.

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