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Negros e jovens: perfil de vítimas de assassinatos é retrato da desigualdade

O perfil predominantemente negro dos assassinados no ES aponta para a necessidade de políticas públicas mais eficientes e agregadoras, assim como o combate ao caráter estrutural do racismo

Publicado em 08/09/2021 às 02h00
Balas
Homem mostra cápsulas encontradas em local de assassinato em Inhanguetá, em Vitória. Crédito: Kaique Dias/TV Gazeta/Arquivo

De 2009 a 2019, o homem jovem e negro foi a vítima majoritária de homicídios no Espírito Santo, perfil traçado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública no Atlas da Violência 2021. Em números, dos 16.796 assassinatos registrados no período, 8.962 das mortes foram de homens de 15 a 29 anos, o equivalente a 53,35% dos casos. Já os negros foram vítimas de 13.089 assassinatos, quase 78% dos crimes. Não houve recorte de faixa etária nessa estatística.

É preciso olhar para esses dados, que não causam surpresa ao confirmar o senso comum, como um reflexo da realidade brasileira e, no caso específico, da capixaba, que dela pouco se distingue. No Brasil, de acordo com o mesmo levantamento, um negro tem 2,6 vezes mais risco de ser assassinado do que um não negro, e o que está por trás dessa afirmação está no cerne da questão da violência: a relação entre a cor e as desigualdades sociais precisam ser tratadas com mais honestidade, com uma abordagem do racismo que deixe de lado as exceções e se aprofundem no que é infelizmente ainda é a regra.

No Espírito Santo, o recorte temporal do Atlas da Violência, de 2009 e 2019, retrata um período de franca queda, ano a ano, no número de homicídios. Vale lembrar que em 2019 o Estado conseguiu descer a menos de mil mortes violentas, o que não ocorria desde 1993. Mas, desde então, essa tendência não se manteve. O último mês de agosto foi o mais violento de 2021, com 108 mortes.

Os números de homicídios crescem à medida que a guerra do tráfico se torna mais sangrenta e explícita. No Espírito Santo, sobretudo, essa relação é sensível. Os conflitos entre gangues rivais têm alcance que extrapola os limites dos bairros, com  tiroteios  ao sabor das movimentações que ocorrem por disputa de mercados e poder. E até por meras provocações, que assustam os moradores.

Guerra que ocorre nas partes mais pobres da Grande Vitória, regiões mais desassistidas pelo poder público, formadas por uma população em grande parte negra, nela incluídos pretos e pardos, refém da criminalidade. E, no caso dos mais jovens, muitas vezes seduzidos por ela.

Em 2020 e 2021, o perfil das vítimas certamente não mudou. A compreensão da dinâmica social é fundamental para desestabilizar o tráfico onde ele é mais eficiente: no aliciamento dos mais jovens. Para isso, a escola e as oportunidades profissionais precisam concorrer com eles de igual para igual, o que se torna mais difícil em um país cada vez mais empobrecido e sem capacidade de reação. Faltam empregos, faltam sonhos.

A presença do poder público na vida dessas pessoas, prestando assistências básicas e garantindo a segurança, é o que sustenta a dignidade que mantém o jovem afastado do crime. O país, amparando as ações de Estados e municípios, precisa lutar por isso.

O perfil predominantemente negro dos assassinados aponta para a necessidade de políticas públicas mais eficientes e agregadoras, assim como o combate ao caráter estrutural do racismo.

Negros morrem mais por estarem em situação mais vulnerável, mais expostos à violência e alijados das oportunidades. Não se pode olhar com naturalidade tantos homicídios, ano a ano, e tampouco que tantos mortos sejam negros. Na base de qualquer transformação está sempre ela, a educação, capaz das mudanças culturais necessárias para alicerçar uma sociedade com mais justiça racial e social.

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