Feminicídio não pode virar parte da paisagem no Brasil

Apesar da redução de casos no Espírito Santo, houve crescimento nas tentativas de feminicídio. E no país houve mais um recorde seguido de mortes de mulheres a se lamentar e, sobretudo, a se combater

Publicado em 26/01/2026 às 01h00
Violência contra a mulher, feminicídio
Violência contra a mulher. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Estamos diante de uma pintura incômoda diariamente, mas não podemos fechar os olhos para ela. Tampouco podemos nos acostumar, diante dos casos que se atropelam, como uma forma de escapar do problema. O Brasil acaba de bater mais um recorde de feminicídios em 2025, com 1.470 registros, superando os 1.464 registros de 2024, também a maior marca na série histórica. É simplesmente inaceitável seguir nessa rota de crescimento, com crimes cada vez mais bárbaros e cruéis, sem algum tipo de reação.

No Espírito Santo, as notícias são melhores: em 2025, houve uma queda no número de casos na comparação com 2024. Com 34 mulheres vítimas dessa violência de gênero, foram cinco casos a menos que no ano anterior. Mas... foi por muito pouco esse respiro. No mesmo período, houve um aumento nos casos de tentativas de feminicídio, com 66 ocorrências em 2025, seis a mais do que em 2024. A violência, portanto, persistiu. Foi a sorte que impediu que mais mulheres fossem assassinadas.

O caso é que as mulheres não podem continuar contando somente com a sorte para escaparem com vida. Esse cenário, no qual a violência doméstica segue se instalando na vida de tantas mulheres, aponta para a necessidade de atingir aquelas que ainda não buscam ajuda. O aumento do número de tentativas mostram que as redes de proteção do poder público estão falhando, com um número tão considerável de mulheres próximas da morte. 

E tão importante quanto estimular as denúncias, algo que parecia mais forte no debate público alguns anos atrás, é garantir o amparo jurídico a essas mulheres e fortalecer as políticas públicas de empoderamento para que elas consigam a autonomia necessária, sobretudo a financeira, para saírem de relacionamentos abusivos. Não é um trabalho simples, mas não pode haver recuos. O maior risco que corremos, como sociedade, é deixar a violência doméstica voltar a ser algo comum, banalizado.

É inegável o avanço da legislação, a Lei Maria da Penha completa duas décadas neste ano, há mais esforço punitivo e mais esclarecimento, mas o endurecimento das leis ainda não impede que homens busquem a violência para decidir o destino de tantas mulheres.

Educação é a base de tudo, mas no Brasil ela ainda é falha e insuficiente para mudar essa realidade. E é justamente nesse sentido que tanta violência não pode se transformar em papel de parede, uma parte feia da decoração que incomoda, mas nem tanto. É preciso encontrar caminhos, como sociedade, para impedir que tantas mulheres continuem sendo mortas simplesmente por serem mulheres.

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