Publicado em 25 de julho de 2021 às 14:42
Nem o feijão com arroz escapou da alta da inflação e do desemprego. A combinação de aceleração de preços e renda em queda mudou o cardápio dos brasileiros mais pobres, que se veem obrigados a optar por produtos mais baratos. >
Saem óleo de soja, feijão e carne; entram banha de porco, lentilha e ovo. Até o preparo da alimentação foi afetado. Com o botijão de gás a mais de R$ 100 em algumas cidades, muitas famílias trocaram o fogão por lenha e carvão. >
Enquanto numa ponta os preços sobem, na outra a renda cai. Além da redução do valor do auxílio emergencial, a taxa de desemprego atingiu o patamar recorde de 14,7% no trimestre encerrado em abril.>
Solange Ferreira, dona de um mercadinho no bairro Jardim Éster Yolanda, zona oeste de São Paulo, afirma que a situação dói na alma. "Alguns (consumidores) vêm com dinheiro contado para comprar três tomates. Chega na hora de pagar e têm de tirar um." >
>
Reflexo desse cenário, aumentou a oferta de arroz quebrado e bandinha (o meio feijão), substitutos mais baratos para o produto padrão. Cestas básicas também têm contado com uma mistura maior desses produtos com os tradicionais. >
Bárbara da Silva, 19, de Heliópolis, favela na zona sul da capital paulista, é uma das que têm dependido de doações. Mãe de um menino de dois anos, ela está sem emprego, e o marido, que trabalha como marceneiro, não tem encontrado muitos serviços. Assim, a família riscou frutas, verduras e iogurtes da lista. >
De acordo com Ana Maria Segall, coordenadora de relações internacionais da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), frutas e verduras são os primeiros alimentos que as pessoas retiram do cardápio em uma situação de insegurança alimentar - quando não há acesso pleno e seguro a alimentos de qualidade conforme a dieta de uma população. Em seguida, são retirados a carne e os derivados de leite. >
A troca de produtos por substitutos mais baratos, como de um arroz mais nobre pelo quebrado, é reflexo dessa situação. O produto costuma ser exportado para a África, mas, com o aumento de 5% da safra do cereal e os preços domésticos subindo, parte maior da produção ficou no mercado interno. >
Uma foto de um saco do produto da marca Rampinelli viralizou na última semana acompanhada por um questionamento da qualidade do alimento. No entanto, afora a aparência, não há diferença em termos nutricionais para outros tipos de arroz. O produto costuma ser usado em sopas, canjas e ração animal. >
No caso do feijão, a indústria - afetada por um ano mais seco e de geada - apostou no bandinha, que sai por valores inferiores a R$ 5 por quilo, enquanto o produto padrão se aproxima de R$ 7. >
Outro produto cujo consumo despencou foi a carne bovina, paralelamente à redução do auxílio emergencial. >
"A queda nas vendas beira 40% nos últimos meses, enquanto a de frango dobrou - e olha que aqui o povo come carne de boi", diz Ildeu Afonso, que tem um açougue na periferia de Cuiabá (MT). >
Na cidade, há registro de filas para doações de restos de ossos de boi durante a pandemia. >
Em 2020, o consumo de suínos, aves e ovos cresceu 5,5%, 6,5% e 9,1%, respectivamente- valores que se mantiveram estáveis no primeiro trimestre deste ano, de acordo com a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal). Enquanto isso, o consumo de carne bovina caiu 7%. >
A cesta dos mais pobres também passou a ter mais apresuntado, empanado e pão industrializado. Segundo a consultoria Kantar, o consumo desses itens na classe D/E cresceu 14,8 e 11 pontos percentuais, respectivamente, entre março de 2020 e de 2021. >
O cenário contrasta com o vivido por essas classes nas duas últimas décadas. De 2004 a 2013, famílias viram a renda média crescer junto a uma maior distribuição de renda, o que permitiu uma melhora do padrão de consumo. >
Desde 2015, porém, há uma reversão desse quadro, agravada pela pandemia. >
"A partir do segundo trimestre de 2020, esse processo se radicalizou. Todos perdem, mas quem está na base perde proporcionalmente mais", diz André Salata, professor do programa de pós-graduação em ciências sociais da PUC/RS. >
Para ele, é preciso manter o auxílio emergencial a curto prazo e recuperar o mercado de trabalho a longo. >
Embora a alta de preços ocorra para todas as faixas de renda, ela é mais sentida pelos mais pobres, cuja cesta de consumo é composta principalmente por alimentação, transporte e energia - os vilões da inflação nos últimos meses. >
Dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que os mais pobres sentem mais a escalada de preços na pandemia. Segundo o instituto, a faixa da população com renda considerada muito baixa (inferior a R$ 1.650,50 por mês) registrou inflação de 9,24% no acumulado de 12 meses até junho. É a maior variação entre os seis grupos pesquisados. >
Além dos alimentos, pressionam o orçamento dos mais pobres o gás de botijão, que acumula alta de 24,25% em 12 meses até junho, e a conta de luz, que subiu em meio à crise hídrica. Segundo o IBGE, as tarifas de energia residencial acumularam alta de 14,2% em 12 meses até junho. >
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta