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'Faraó dos bitcoins' acumulou mais de 67 mil clientes, aponta denúncia

Entre os clientes, segundo relatório da Polícia Federal, estão traficantes e milicianos que atuam no Rio de Janeiro

Publicado em 07/10/2021 às 12h19
Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como
Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como "faraó dos bitcoins", suspeito de criar esquema de pirâmide. Crédito: Reprodução

A estrutura financeira de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como "faraó dos bitcoins", acumulou mais de 67 mil clientes em quase cinco anos de operação, segundo documento obtido pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro.

A informação consta na denúncia oferecida contra o empresário e outras 16 pessoas pelo MPF sob acusação de operação de instituição financeira sem autorização, gestão fraudulenta, negociação irregular de valores imobiliários e organização criminosa.

A acusação foi aceita pelo juiz Vitor Valpuesta, da 3ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, na última sexta-feira (1º).

A denúncia não atribuiu a Glaidson e aos demais envolvidos o crime contra economia popular, como costuma ser enquadrado os esquemas de "pirâmide financeira". A Procuradoria, porém, afirma que segue investigando outros fatos e pessoas envolvidas no caso.

Glaidson está preso preventivamente desde agosto em razão das investigações que culminaram na Operação Kryptos. Ele prometia um retorno de 10% mensais sobre os valores aportados por investidores a partir de investimentos em criptomoedas.

A suspeita é de que se tratava de uma "pirâmide financeira", na qual os novos clientes garantiriam o pagamento dos antigos. O esquema gera prejuízos aos clientes quando a entrada de recursos não atende mais às necessidades de saídas.

Em nota, a empresa afirma que a defesa de Glaidson "possui sólidos argumentos jurídicos para refutar as acusações formuladas". Declarou também que a investigação, "conduzida de maneira drástica", impediu o pagamento regular de seus investidores.

Uma planilha localizada a partir da quebra de sigilo telemático dos investigados mostrou que 67.598 clientes foram atraídos até novembro de 2020 pela promessa de retorno alto e seguro para seus investimentos.

Até março deste ano, os investidores da GAS Consultoria aportaram um total de R$ 5 bilhões, de acordo com outra planilha obtida nas investigações.

Entre os clientes, segundo relatório da Polícia Federal, estão traficantes e milicianos que atuam no Rio de Janeiro.

Também consta como cliente da GAS Consultoria o ex-superintendente do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro, Jonas Roza. Ele fez 143 depósitos que somam R$ 1,9 milhão, segundo relatório do Coaf enviado à CPI da Covid. Ele afirmou que os valores estão errados, mas que só responderia sobre o caso à Justiça.

As planilhas em poder do MPF apontam que Glaidson tinha outras 48 pessoas envolvidas na captação de clientes. Por meio desses intermediários, segundo a Procuradoria, a empresa fundada em Cabo Frio (RJ) alcançou investidores em 13 estados do país e até no exterior.

Segundo o MPF, a atuação de Glaidson ocorria sem qualquer autorização do Banco Central e da CVM (Comissão de Valores Imobiliários).

Dados da investigação indicam que o empresário foi alertado sobre a necessidade de regularização de sua atuação. A Procuradoria mostra e-mails e mensagens de advogados e contadores consultados pela GAS Consultoria informando sobre a fragilidade do negócio, quando ele começou a crescer.

Um contador afirmou em áudio para o grupo que a estrutura legal do negócio era "extremamente frágil", "exposto" e com "erro absurdo" até na descrição das atividades da empresa na Receita Federal.

"Na certidão de nascimento [referência ao CNPJ] de vocês já existe um erro absurdo, só ali já é possível fechar vocês. Vocês estão executando uma atividade diferente da existente na certidão de nascimento, que vai replicar nas outras atividades da CVM. Para finalizar, o projeto é lindo, mas a qualquer momento, se a CVM bater, ela manda fechar", afirmou o contador em áudio.

Em áudio, Glaidson respondeu aos comentários do especialista consultado com um outro interlocutor, não identificado.

"São coisas que são impossíveis de se ter. Isso que a gente tá conversando aqui por esses áudios [é] para se chegar no melhor cenário. Se a gente for conversar com mais 3 ou 4 pessoas, aí deve-se pedir a identidade de Pedro Álvares Cabral, ou, pelo menos, a do Satoshi Nakamoto [pseudômino da pessoa ou grupo que criou o bitcoin]", afirmou Glaidson.

De acordo com o MPF, o dinheiro dos clientes não era todo investido em criptomoedas conforme o combinado. Parte dos valores circulava nas contas do próprio Glaidson, bem como de outros parceiros do negócio.

O vai-vem do dinheiro somou uma movimentação de R$ 38,2 bilhões, segundo relatório do Coaf, envolvendo 6.249 pessoas físicas e 2.727 jurídicas.

A maior parte dessa movimentação se deu entre 2020 e 2021, quando Glaidson e a GAS Consultoria começaram a ter suas contas bancárias fechadas por bancos em razão das movimentações suspeitas.

As dificuldades com os bancos levaram, segundo o MPF, ao aumento da circulação de dinheiro vivo entre os envolvidos na instituição financeira ilegal. A PF apreendeu R$ 14 milhões de recursos em espécie e R$ 150 milhões em bitcoins no dia da prisão do empresário.

A GAS Consultoria negou, em nota, as irregularidades apontadas pelo MPF. A empresa afirma que "possui sólidos argumentos jurídicos para refutar as acusações formuladas, aptos a evidenciar a absoluta licitude e regularidade de suas atividades, e a inexistência de lesão a quem quer que seja".

A firma declarou que a denúncia é um "fato positivo" porque permite a manifestação da defesa sobre as acusações imputadas.

"Importante esclarecer que denúncia oferecida pelo MPF não imputa a nenhum dos acusados lesão financeira a qualquer pessoa. Não existe sequer acusação da prática de pirâmide financeira", diz a nota da empresa.

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