Os anúncios de investimento costumam ser celebrados por seus números: valor aportado, empregos prometidos, arrecadação futura. É natural que seja assim. Mas há uma pergunta anterior, muitas vezes esquecida: onde, e em que condições, esse investimento vai acontecer?
Toda atividade econômica ocupa território. Uma indústria precisa de acesso, energia, água, trabalhadores e fornecedores. Um empreendimento logístico depende de conexões que não estrangulem a cidade. Uma nova área residencial exige transporte, saneamento, escolas, serviços e proteção contra riscos conhecidos. Quando essas condições são ignoradas, o investimento pode até começar bem, mas seus custos reaparecem mais adiante, diluídos em congestionamentos, alagamentos, fretes elevados, perdas patrimoniais, pressão sobre os serviços públicos e incerteza para novos projetos.
Por isso, planejamento territorial não é assunto secundário, restrito a mapas, licenças e audiências públicas. É política econômica. Ele define parte relevante do custo de produzir, morar, circular e investir. Também ajuda a decidir se o crescimento de hoje produzirá prosperidade duradoura ou apenas problemas mais caros amanhã.
Planejar não significa impedir o desenvolvimento nem transformar o território em uma lista de proibições. Significa escolher melhor. É antecipar efeitos, compatibilizar vocações produtivas com a capacidade urbana e ambiental e dar previsibilidade a quem trabalha, empreende e investe. O bom planejamento reduz conflitos porque torna mais claras as regras, os limites e as responsabilidades de cada decisão.
No Espírito Santo, essa discussão é especialmente importante. Em um espaço geográfico relativamente pequeno, convivem áreas urbanas densas, litoral, portos, indústrias, logística, agricultura, turismo, extração mineral, petróleo e gás.
Essa diversidade é uma vantagem competitiva. Mas também torna mais altos os custos de decisões desconectadas. Um projeto pode parecer adequado quando analisado isoladamente e, ainda assim, ampliar congestionamentos, pressionar o solo urbano, comprometer a drenagem ou gerar disputas pelo uso da água e da infraestrutura quando somado a outros empreendimentos.
O desafio, portanto, não é escolher entre desenvolvimento e preservação. Essa oposição simplifica um problema que é mais complexo. Desenvolvimento sem território organizado tende a ser caro, desigual e vulnerável. Não há logística eficiente quando o transporte de cargas disputa espaço com uma cidade sem mobilidade adequada. Não há ambiente de negócios sólido onde regras mudam a cada conflito. E não há qualidade de vida sustentável quando famílias são empurradas para longe do emprego, dos serviços e da segurança.
O custo da desordem territorial raramente aparece em uma única planilha. Ele se espalha. Está no tempo perdido pelo trabalhador no deslocamento, no gasto das empresas com atrasos, no orçamento público destinado a corrigir emergências e na valorização desigual da terra. Está também nas oportunidades que deixam de chegar porque a infraestrutura necessária não foi planejada com antecedência. Corrigir depois quase sempre custa mais do que orientar antes.
Ainda predomina uma lógica reativa. Primeiro, ocorre a ocupação; depois, chega o congestionamento. Primeiro se permite a expansão, depois se discute a drenagem. Primeiro os serviços públicos são sobrecarregados, depois se tenta resolver o problema com recursos escassos. Esse método é injusto e antieconômico. Ele privatiza ganhos imediatos e socializa custos que recaem sobre toda a população.
A política territorial precisa deixar de ser periférica. Planos diretores, zoneamentos, mapas de risco, dados georreferenciados, planejamento costeiro, licenciamento e investimentos em mobilidade não podem funcionar como peças separadas. Precisam conversar entre si, atravessar mandatos e orientar uma estratégia de desenvolvimento regional. Municípios não devem disputar investimentos apenas por incentivos. Precisam cooperar para que o benefício de um projeto não seja anulado pelo custo imposto ao vizinho.
Isso exige capacidade técnica, dados confiáveis e visão de longo prazo. Exige também participação social qualificada, porque cada escolha territorial distribui oportunidades e riscos. Decidir onde se pode construir, produzir, circular ou conservar é definir quem terá acesso a emprego, serviços e qualidade de vida nas próximas décadas.
Planejar o território, afinal, não é desenhar limites para a economia. É criar as condições para que ela cresça com produtividade, segurança e permanência. Em vez de perguntar apenas quanto um novo projeto adiciona hoje, o Espírito Santo precisa perguntar se seu território estará preparado para sustentar esse impacto amanhã.