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Eleições 2026

O tema que ficou sem resposta no debate presidencial

Apesar de propostas para inovação, tecnologia e qualificação profissional, Lula e Flávio não apresentaram uma estratégia clara para elevar a produtividade e sustentar o crescimento da renda no Brasil

Publicado em 21 de Outubro de 2026 às 08:11

Públicado em 

21 out 2026 às 08:11
Felipe Storch

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Felipe Storch Felipe Storch

O Brasil precisa discutir menos apenas como distribuir a riqueza e mais como ampliar sua capacidade de produzi-la. O debate presidencial do último domingo (18) ofereceu um momento particularmente importante para discutir o futuro da economia brasileira. Questionados diretamente sobre como aumentar a produtividade do país, os dois candidatos apresentaram iniciativas relacionadas à inovação, à tecnologia, à capacitação e ao empreendedorismo. Entretanto, faltou algo essencial: uma estratégia clara para enfrentar um dos principais obstáculos ao crescimento sustentado da renda no Brasil.


Lula mencionou a Nova Indústria Brasil, a atração de data centers, a economia verde e criativa e a formação de profissionais em áreas tecnológicas. Flávio Bolsonaro destacou a expansão da conectividade, a aproximação entre trabalhadores e empresas, a qualificação profissional e o acesso ao crédito para pequenos empreendedores. São propostas que podem contribuir para o desenvolvimento econômico, mas a pergunta fundamental permaneceu sem uma resposta suficientemente concreta: como transformar essas iniciativas em ganhos persistentes de produtividade para o conjunto da economia?


Essa ausência é especialmente preocupante porque a produtividade deveria ocupar posição central em qualquer projeto nacional de desenvolvimento. Afinal, não basta discutir como distribuir a riqueza produzida. Precisamos discutir, com a mesma intensidade, como ampliar nossa capacidade de gerá-la.

Investimentos em tecnologia e qualificação profissional são essenciais para ampliar a produtividade e a competitividade da economia brasileira
Investimentos em tecnologia e qualificação profissional são essenciais para ampliar a produtividade e a competitividade da economia brasileira Magnific

Produtividade não significa trabalhar mais horas ou exigir maior esforço dos funcionários. Significa produzir mais valor com os recursos disponíveis, por meio de melhores tecnologias, qualificação profissional, organização produtiva, infraestrutura e eficiência institucional. É esse processo que permite sustentar salários mais elevados, ampliar a competitividade das empresas e melhorar o padrão de vida da população.


O desempenho brasileiro revela a dimensão do desafio. Segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da Fundação Getulio Vargas, a produtividade agregada do trabalho cresceu apenas 0,4% em 2025. Mesmo com avanços expressivos em segmentos como a agropecuária, o país continua enfrentando dificuldades para disseminar ganhos de eficiência pelo conjunto da economia.


O problema não é apenas tecnológico. Uma empresa pode investir em equipamentos modernos e continuar pouco competitiva se enfrentar infraestrutura deficiente, insegurança jurídica, complexidade tributária, escassez de profissionais qualificados e custos elevados para cumprir exigências regulatórias. A produtividade de uma economia depende tanto da eficiência interna das empresas quanto da qualidade do ambiente em que operam.


Por isso, uma agenda consistente precisa combinar diferentes frentes. A educação básica deve melhorar a formação dos futuros trabalhadores, enquanto a qualificação profissional precisa responder às transformações do mercado. A infraestrutura deve reduzir custos de transporte, energia e comunicação. O ambiente regulatório precisa estimular investimentos, concorrência e inovação. E as políticas de financiamento devem favorecer projetos capazes de ampliar efetivamente a capacidade produtiva.


Existe ainda uma dimensão frequentemente negligenciada: a produtividade das pequenas e médias empresas. Grande parte dos ganhos potenciais não depende necessariamente de tecnologias revolucionárias, mas da disseminação de ferramentas de gestão, digitalização, automação e melhores processos produtivos. Muitas soluções já estão disponíveis, mas ainda não alcançaram uma parcela significativa dos negócios brasileiros.


Também precisamos superar a ideia de que políticas industriais, por si só, garantem maior produtividade. Incentivos públicos podem desempenhar papel relevante, especialmente diante de falhas de mercado, mas precisam estar associados a metas verificáveis, avaliação de resultados e mecanismos de correção. Financiar investimentos é diferente de assegurar que eles produzirão ganhos de eficiência. O mesmo raciocínio vale para o crédito, a conectividade e o empreendedorismo. São instrumentos importantes, mas seus efeitos dependem de como são implementados, de quem conseguem alcançar e dos incentivos que estabelecem.

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Talvez exista uma explicação política para a dificuldade de aprofundar esse debate. Os resultados de uma agenda de produtividade costumam aparecer gradualmente, muitas vezes ultrapassando o horizonte de um mandato presidencial. Seus benefícios são amplos, mas nem sempre imediatamente perceptíveis. Já medidas de transferência de renda, ampliação de crédito e concessão de benefícios produzem efeitos mais visíveis no curto prazo. Isso não significa que essas políticas sejam desnecessárias. Significa reconhecer que elas não substituem a construção das condições para ampliar permanentemente a renda nacional.


O Brasil precisa abandonar a falsa oposição entre crescimento e distribuição. Uma economia mais produtiva amplia as possibilidades de elevar salários, financiar serviços públicos, sustentar políticas sociais e melhorar as condições de vida. Sem ganhos consistentes de eficiência, essas demandas passam a disputar recursos de uma economia que cresce lentamente.


O debate de domingo poderia ter avançado justamente nessa direção. Mais do que anunciar programas, seria importante conhecer prioridades, instrumentos, metas e compromissos de avaliação. Quanto se pretende elevar a produtividade brasileira? Quais obstáculos serão enfrentados primeiro? Como medir os resultados? E como garantir continuidade às políticas que dependem de muitos anos para produzir efeitos?


O próximo presidente encontrará um país que precisa crescer mais, mas, sobretudo, crescer melhor. Isso exige transformar produtividade em prioridade permanente de política econômica, e não apenas em uma expressão mencionada durante campanhas eleitorais. A pergunta feita pelos mediadores merece continuar sendo repetida. Não porque faltem iniciativas relacionadas ao tema, mas porque ainda precisamos de respostas capazes de conectar essas iniciativas a uma estratégia nacional de desenvolvimento. Enquanto não colocarmos a produtividade no centro das decisões econômicas, continuaremos discutindo intensamente como dividir a riqueza, sem enfrentar com a mesma determinação o desafio de aumentá-la.

Leia mais na coluna de Felipe Storch

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Felipe Storch

Felipe Storch Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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