Na coluna da semana passada, utilizei um exercício simples para avaliar como a inteligência artificial pode auxiliar o investidor comum na montagem de uma carteira. O resultado foi uma alocação equilibrada, conservadora e tecnicamente correta, mas excessivamente genérica. A conclusão foi clara: a ferramenta sozinha funciona bem como ponto de partida, mas não substitui análise, contexto e senso crítico.
Seguindo essa mesma linha, resolvi avançar um passo. Desta vez, restringi o desafio à renda variável. Pedi ao ChatGPT que indicasse ações brasileiras com boa relação risco x retorno, capazes de superar a renda fixa em 2026, além de sugerir alguns papéis “fora do radar”, para quem busca oportunidades menos óbvias.
Mais uma vez, a resposta veio rápida e previsível.
Entre as ações consideradas mais “seguras”, surgiram nomes bastante conhecidos do investidor brasileiro: Vale, Itaú, Petrobras, Engie Brasil e Localiza. Empresas líderes, com geração de caixa robusta, presença constante em relatórios de corretoras e amplo consenso entre analistas. A justificativa seguiu o roteiro clássico: fundamentos sólidos, exposição a setores estruturais da economia, histórico de dividendos e recomendações recorrentes do mercado.
Nada disso está errado. São companhias relevantes, que fazem sentido em muitas carteiras. O ponto é que, novamente, a inteligência artificial se limita a organizar o consenso. Não há leitura de ciclo, não há discussão de preço, tampouco uma reflexão mais profunda sobre risco. Fala-se em “boa relação risco x retorno”, mas não se debate quanto desse retorno já está embutido nas cotações atuais, nem quais eventos poderiam frustrar as expectativas.
Investir em ações não é apenas escolher boas empresas, é decidir quanto pagar por elas em função do risco que cada uma apresenta. Sem valuation, a análise fica incompleta. E sem cenário, ela fica confortável demais.
Quando o pedido migra para as chamadas “ações fora do radar”, o padrão não mudou muito. As indicações ficaram mais interessantes, apareceram companhias como Irani, Marcopolo, Banrisul, PetroRecôncavo e Banco BMG. Papéis menos populares entre investidores iniciantes, mas conhecidos de quem acompanha o mercado. O problema maior aqui, na minha opinião, foi a superficialidade, mais uma vez ficou a impressão de que ele fez apenas uma agregação de opiniões que colheu em matérias diversas nos sites de finanças.
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Mais uma vez, os argumentos foram corretos, porém superficiais. O fato de uma ação estar barata não a torna automaticamente uma boa oportunidade. Muitas estão baratas por bons motivos. O que faz diferença é entender se o mercado está exagerando nos riscos ou se há, de fato, um problema estrutural no negócio. Essa distinção, essencial para o investidor, não aparece nas respostas.
Fica claro que a inteligência artificial evita tomar partido. Ela não constrói teses, não assume cenários e não trabalha com desconforto. Sua função é agregar informações, não questioná-las. O resultado é uma lista bem escrita, tecnicamente defensável, mas sem convicção.
Esse comportamento ajuda a explicar por que as respostas soam sempre equilibradas, moderadas e pouco ousadas. A IA entrega aquilo que o mercado já sabe, da forma mais organizada possível. E isso tem valor. Mas é um valor limitado.
Assim como na carteira sugerida na semana anterior, o exercício reforça a mesma conclusão: a inteligência artificial é uma excelente ferramenta de apoio, mas um péssimo substituto para o pensamento crítico. Ela ajuda a estruturar ideias, mapear alternativas e evitar erros básicos. Porém, a decisão final, aquela que realmente faz diferença no resultado, continua sendo humana.
Pensando nisso resolvi promover uma palestra, que vai acontecer aqui nos escritórios da Valor Investimentos, na noite do próximo dia 27. No evento gratuito, como eu uso Inteligência Artificial para avaliar ações e fundos imobiliários.
As inscrições podem ser feitas clicando aqui.
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