Formado em engenharia civil pela Ufes, pós-graduado em Finanças pelo IBMEC-MG e com mestrado em Administração pela Fucape, geriu o clube de investimentos Investvix entre 2011 e 2015. É assessor de Investimentos na Valor Investimentos desde 2016

Como o ChatGPT investiria R$ 100 mil em 2026

Teste prático com inteligência artificial revela uma carteira equilibrada, correta no conceito, mas ainda superficial para quem busca decisões mais estratégicas em 2026; pensar em investimentos ainda é tarefa humana

Publicado em 05/01/2026 às 08h32

Um feliz 2026 para todos que acompanham a coluna. Começamos o ano olhando para frente e abordando um tema que, sem dúvida, será recorrente ao longo de 2026: o uso da inteligência artificial como apoio à tomada de decisões de investimento.

Para iniciar essa discussão de forma prática, resolvi fazer um exercício simples. Pedi ao ChatGPT, para gerar uma carteira utilizando o seguinte prompt:

“Hoje são 03/01/2026, tenho R$ 100.000 para aplicar e gostaria que vc montasse uma carteira de investimentos para mim. Sou um investidor comum, que quer obter retornos acima da renda fixa, porém que sofre com aversão a perdas e não tolera muita volatilidade. O que você me recomendaria?”

Carteira sugerida por inteligência artificial cumpre o básico. Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT
Carteira sugerida por inteligência artificial cumpre o básico. Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT

A resposta veio rápida e, à primeira vista, bastante razoável. O modelo propôs uma carteira equilibrada, com foco na preservação de capital e na obtenção de ganho real no médio prazo. A premissa central foi clara: não seria necessário assumir riscos extremos para superar a renda fixa tradicional. O caminho estaria na diversificação entre classes de ativos, combinando previsibilidade, geração de renda e crescimento gradual.

Para um capital de R$ 100 mil, a distribuição sugerida foi bastante clássica. A renda fixa, com 60% da carteira, aparece como o principal pilar. Essa parcela seria dividida entre títulos públicos atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+ com vencimentos intermediários; produtos bancários de boa qualidade, como CDBs, LCIs e LCAs com rentabilidade próxima ou superior a 100% do CDI; e uma fração em Tesouro Selic ou fundos DI, garantindo liquidez e estabilidade em momentos de maior estresse do mercado.

Os fundos imobiliários, com 20%, ocupam o segundo maior espaço. A justificativa é conhecida: renda mensal e volatilidade menor quando comparados às ações. A preferência recai sobre FIIs considerados mais defensivos, como fundos de logística, lajes corporativas bem localizadas e fundos de recebíveis imobiliários, que tendem a apresentar fluxo de caixa mais previsível.

A renda variável, limitada a 15%, também segue uma abordagem conservadora. A sugestão foi utilizar ETFs que acompanhem índices amplos da Bolsa brasileira, reduzindo riscos específicos, e complementar com uma pequena exposição a ETFs internacionais, ampliando a diversificação geográfica e reduzindo a dependência do cenário doméstico.

Os 5% restantes ficariam em caixa estratégico ou fundos multimercados conservadores, com função tática: amortecer oscilações e permitir ajustes ao longo do ano.

Apesar de adequada ao perfil descrito, a carteira proposta não me agradou. Ela é excessivamente simplória e se limita ao básico do básico. Não há uma leitura mais aprofundada do ciclo econômico, nenhuma análise sobre momento de mercado, tampouco um detalhamento mais específico dos produtos financeiros sugeridos.

O exercício, no entanto, é extremamente válido. Ele deixa claro que modelos de inteligência artificial como o ChatGPT são ferramentas poderosas, mas ainda dependem, e muito, de quem está do outro lado da tela. Sem perguntas bem formuladas, sem aprofundamento e sem senso crítico, a resposta tende a ser correta, porém superficial. E, no mundo dos investimentos, superficialidade é o caminho para se perder boas oportunidades.

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