Durante todo o ano de 2025, o fluxo do investidor estrangeiro na B3 sustentou o movimento positivo verificado no nosso mercado acionário. Neste início de 2026, isso se intensificou, resultando em um movimento forte e consistente da Bolsa brasileira, algo que naturalmente chama a atenção do investidor comum. O Ibovespa avança com intensidade, muitas ações renovam máximas e o sentimento geral é de otimismo. No entanto, para entender o que está acontecendo, é preciso olhar menos para os fundamentos individuais das empresas — ou mesmo da nossa economia — e mais para o comportamento do capital.
Conforme já dito, o grande motor desse movimento tem sido o fluxo estrangeiro. E não se trata, em sua maior parte, de um investidor escolhendo ações específicas com base em análises detalhadas. O que vemos é a entrada de capital de forma passiva, através de fundos indexados, ETFs e estratégias que simplesmente replicam algum índice.
Quando esse dinheiro entra, ele não faz distinções finas; compra o mercado como um todo. E é justamente aí que está a explicação para o comportamento das ações. As empresas mais líquidas e com maior peso no Ibovespa acabam sendo as mais beneficiadas — não necessariamente porque estariam mais baratas ou melhores, mas porque são elas que representam o mercado acionário local neste cenário.
Veja que isso cria uma dinâmica particular. O investidor olha para a alta da Bolsa e tenta encontrar uma justificativa objetiva, um fato novo ou um evento específico, mas, em alguns casos, essa explicação não existe. O preço sobe porque o dinheiro entra. Simples assim. O mercado, nesse momento, deixa de ser um exercício de precificação precisa e passa a ser um canal de fluxo. É o que vivemos hoje no Brasil. A Bolsa definitivamente não está mais “barata”, mas nada impede que ela continue a se valorizar.
Outro ponto importante é entender que movimentos dessa natureza são imprevisíveis. Ninguém sabe exatamente quando começam, pois não dependem de um único gatilho, e tampouco é possível prever como ou quando terminam. Eles podem durar meses, alimentados por realocações globais graduais, ou se encerrar rapidamente diante de uma mudança no cenário externo.
É justamente por isso que tentar cronometrar esse tipo de movimento costuma ser um erro. Quem espera uma confirmação perfeita para entrar, geralmente chega atrasado. Quem tenta sair no ponto exato, quase sempre se antecipa demais. O fluxo não avisa quando vai mudar de direção.
Isso não significa que fundamentos não importem. Eles seguem sendo determinantes no longo prazo. Mas, no curto e médio prazos, ignorar o peso do capital estrangeiro é ignorar a principal força por trás da alta atual da Bolsa brasileira.
Assim o momento é de cautela e monitoramento. A perda de força do dólar no mundo é um fenômeno que parece ter fôlego para durar alguns meses ainda; isso redistribui o fluxo no mundo e uma parcela dele vem parar aqui no Brasil. Assim, as ações continuam avançando, mesmo, muitas vezes, com preços já pouco atrativos. No fim, todo preço — e o das ações não é diferente — é controlado por oferta e demanda; enquanto a demanda se mantiver crescente, teremos preços para cima. Até quando? Ninguém hoje pode pensar em prever.
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