Hoje candidata a vice-prefeita de Vitória na chapa de João Coser (PT), a presidente estadual do PT, Jackeline Rocha, deu uma entrevista à coluna, publicada no dia 3 de janeiro, sobre os planos eleitorais para reerguer no Estado o partido, que acumula resultados bem ruins nas última eleições e perdeu muito espaço político nos últimos anos no Espírito Santo. Na oportunidade, instada a fixar uma meta, a dirigente foi longe: falou em eleger cerca de 20 prefeitos nesta eleição municipal e de um a dois vereadores por cidade. Como o Estado tem 78 municípios, o PT, para cumprir a meta, precisará eleger de 78 a 156 vereadores espalhados pelo mapa capixaba.
“Acreditamos que é possível chegar ao número de 20. Queremos eleger pelo menos 20 prefeituras em nível municipal. Meta é meta.” Jackeline também assegurou que o PT lançaria candidato próprio a prefeito nas cinco cidades da Grande Vitória e nas principais cidades-polos do interior (Cachoeiro, Colatina e Linhares) e em outros municípios já administrados pelo partido, como Ecoporanga, além de reeleger o prefeito de Barra de São Francisco.
“A projeção é lançar candidatura própria em todos os municípios nesse recorte [com mais de 100 mil eleitores]. Vamos recuperar o nosso protagonismo”, profetizou ela, àquela altura.
Na ocasião, quando a dirigente cravou esses números, as metas já haviam soado por demais ambiciosas – para não dizer inverossímeis, irreais mesmo. Dias depois, o PT perdeu o seu único prefeito no Espírito Santo, o de Barra de São Francisco, Alencar Marim, eleito pelo partido em 2016, mas desfiliado no início de janeiro deste ano. Assim, cumprir a meta seria passar de 0 a 20 prefeitos, sem escalas, neste pleito.
Mas a realidade se impôs e, antes mesmo da largada oficial da campanha, um fato matemático confirma: ela não será cumprida.
Conforme o colunista Leonel Ximenes informou no último domingo (11), o PT só lançou candidato próprio a prefeito em 16 cidades capixabas. Assim, mesmo que hipoteticamente consiga eleger todos os seus candidatos nos municípios onde concorre, a meta já nasce inatingível. E essa hipótese de 100% de aproveitamento é remota para qualquer sigla.
Além disso, como também registrou o colega Ximenes, o PT na verdade não lançou nem sequer um candidato a vereador em 41 dos 78 municípios capixabas, o que torna ainda menos factível a meta de fazer “de um a dois vereadores por cidade”.
Se concentrarmos a nossa análise nos municípios da Grande Vitória e nos três maiores do interior (os que mais importam no quesito “força política”), o quadro de lançamento de candidaturas majoritárias do PT não é dos mais alentadores para quem porventura pensasse em usar 2020 como tábua de reimpulso político no Espírito Santo.
Em Cachoeiro, Colatina e Linhares, PT lançou, respectivamente, as candidaturas de Joana D’Arck, Genivaldo Lievore e o Professor Antonio de Freitas. Com todo o respeito aos quadros, mas com razoável dose de realismo, os três têm chances pequenas de êxito, quando se coteja a relação de respectivos adversários. Podem crescer no processo, mas, em qualquer um dos casos, uma vitória eleitoral seria um triunfo histórico e inesperado.
Já na Grande Vitória, o PT na verdade só lançou candidato a prefeito em dois municípios: Cariacica, com a educadora Célia Tavares, e Vitória, com o ex-prefeito João Coser. Em Cariacica, Tavares conta com o apoio do ainda popular ex-prefeito Helder Salomão, o que pode ajudá-la a turbinar sua candidatura.
Desde 2018, Helder é o único deputado federal do PT-ES e ocupante do mandato eletivo mais importante entre os petistas capixabas. É, ao lado de Coser, o principal líder estadual do partido. Num quadro de pulverização dos votos como o de Cariacica, as chances da sua candidata não são desprezíveis.
Na pesquisa Ibope/Rede Gazeta publicada no último sábado (17), ela aparece com 7% das intenções estimuladas de voto, tecnicamente empatada, no limite da margem de erro, com o líder, Euclério Sampaio (DEM), que desponta com 13%. Hoje, porém, Tavares não é vista como favorita para ir ao 2º turno.
ENQUANTO ISSO, EM VITÓRIA...
Em Vitória, João Coser se mostra bem competitivo e chega a cerca de um mês para o 1º turno, na primeira pesquisa Ibope/Rede Gazeta, como líder da corrida eleitoral, ao lado de Fabrício Gandini (Cidadania), ambos com 22% na intenção estimulada de voto.
Nesse cenário, fica muito evidente o seguinte: realisticamente, para poder de fato aspirar a um projeto de princípio de retomada de espaço político relevante no Espírito Santo, o PT precisa depositar todas as suas fichas e esperanças em um único nome: João Coser. Para poder começar a colocar em prática essa retomada, o partido precisa mais que nunca conseguir eleger em Vitória seu principal líder estadual.
Sem exagero, parece-me plausível afirmar que o futuro do PT no Espírito Santo nos próximos anos depende diretamente do sucesso eleitoral de Coser, que de cara desponta, considerando todas as maiores cidades capixabas, como único candidato petista com chances reais e factíveis de vitória, malgrado a sua rejeição na casa de 35% (de acordo com a pesquisa Ibope).
Se fizer o prefeito logo da Capital, a principal vitrine política entre os 78 municípios capixabas, o PT leva o grande prêmio em disputa e, mesmo que perca em todas as outras18 cidades onde concorre, recoloca-se em boa posição no jogo político-eleitoral no Espírito Santo, até pensando em 2022, após os anos muito difíceis vividos desde 2016.
Um exemplo do peso muito acima da média que tem uma cidade da Grande Vitória e, destacadamente, a Capital: desde 2013 (afora os últimos meses, quando filiou muitos prefeitos), o Cidadania só governa duas cidades capixabas. É pouco, não? Mas vejamos quais são elas: Cariacica e Vitória. E veja o lugar ocupado pelo partido de Luciano Rezende hoje em dia na conjuntura estadual: sigla pequena nacionalmente, tornou-se uma das mais relevantes na geopolítica capixaba.
Posto tudo isso na balança, um princípio de ressurreição do PT no Espírito Santo depende exclusivamente do sucesso de um nome nestas eleições municipais: João Coser. Do contrário, mesmo que faça alguns prefeitos em cidades pequenas do interior, pouco deve se alterar a realidade no Estado para o PT, que pode continuar no limbo, com mais alguns anos ainda mais difíceis pela frente.