Renato Casagrande fez toda a sua carreira política de sucessivos mandatos eletivos pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), fundado logo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), naquele contexto da Guerra Fria e da disputa pela hegemonia global entre os bloco americano capitalista e o soviético socialista. Assumiu seu primeiro mandato, de deputado estadual, em 1991 – sintomaticamente, o ano em que o bloco soviético desmoronou. Logo depois, foi vice-governador de Vitor Buaiz, do PT, entre 1995 e 1998.
Antes, lá na origem, teve uma breve passagem pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), entre 1980 e 1982, ainda como militante estudantil. Casagrande, sem dúvida alguma, nasceu politicamente na extrema esquerda. De lá para cá, o mundo mudou muito. O Brasil também. E Casagrande também.
A tese que propomos aqui hoje é a seguinte: o Casagrande em sua versão 2019 está longe, muito longe, de ser um político e um governador de extrema esquerda. Em alguns aspectos, é muito difícil classificá-lo hoje, de maneira honesta, até mesmo como um “político de esquerda”.
Mesmo sendo um dos maiores líderes nacionais do PSB, o ex-comunista está muito mais ao centro do que o seu próprio partido hoje em dia, principalmente no que se refere a matérias econômicas. Seu discurso econômico, atualmente, soa mais liberal que o de alguns liberais. No atual mandato, Casagrande poderia tranquilamente estar filiado, digamos, ao PSDB, hoje mais posicionado no campo de centro-direita, e não soaria absurdo ou incompatível com algumas de suas posições.
Feliz foi o deputado federal Felipe Rigoni, de saída do PSB, em recente entrevista à coluna, em sua definição: “Casagrande não é um socialista raiz”. E não é mesmo. Para Rigoni, muito ligado a Casagrande (e ao filho dele, Victor), o governador capixaba está muito mais alinhado com o rumo que o maior líder do PSB neste século, Eduardo Campos – morto em acidente aéreo em 2014 –, queria dar ao partido.
Após romper com o PT e fazer um governo focado em resultados e simpático ao mercado em Pernambuco, Campos apresentou-se aos eleitores brasileiros como uma solução de centro, entre PT e PSDB, no início da campanha presidencial de 2014.
Desde então, a polarização ideológica que se apoderou da política nacional também se faz sentir no Espírito Santo. Seus ecos foram ouvidos na eleição ao governo estadual em 2018 e, agora, nos discursos de parte da oposição ao governo de Casagrande. Críticos do governador posicionados no polo de direita, ou de extrema direita, rotulam a todo instante Casagrande e seu governo como “extrema esquerda”, “vermelho”, “comunista” e classificações do tipo.
Expressões como essa voltaram a ser usadas, por exemplo, por deputados da oposição, na sessão da última quarta-feira (16) da Assembleia Legislativa, em meio a uma discussão inócua sobre “ideologia de gênero”. Para além de definições superficiais e binárias e do maniqueísmo que só enxerga A ou Z, é preciso considerar que, entre os dois extremos, há um enorme centro político-ideológico, repleto de nuances. Quando paramos para analisar essas nuances, sobretudo as econômicas, concluímos que, no mundo real (o das medidas concretas), chamar Casagrande de “vermelho”, hoje, é uma forçação de barra.
“AMIGÃO DO MERCADO” (COMO HARTUNG)
Comecemos pelo fator mais evidente: Casagrande, desde o seu primeiro governo, mantém excelente relação com o empresariado capixaba (os “detentores do capital”) e realiza um governo notoriamente “amigo do mercado”, ao contrário do que faria qualquer “extremista de esquerda” ou “socialista” naqueles moldes clássicos de um carcomido marxismo anticapitalista.
O governador passa longe de pregar a “superação do capitalismo”, a “estatização dos meios de produção”, a "revolução operária", a "ditadura do proletariado", a "luta de casses", a "construção de uma sociedade comunista" ou medidas radicais do gênero… Sua boa relação com o alto empresariado capixaba se materializa, por exemplo, na relação muito amigável nutrida com o movimento Espírito Santo em Ação.
Nesse aspecto, o atual governador assemelha-se muito a Paulo Hartung – um social-democrata e liberal na economia, que aliás já pertenceu ao PSB e, assim como Casagrande, também caberia muito bem no PSDB. Para muitos, o primeiro governo do “socialista”, de 2011 a 2014, foi praticamente uma continuidade dos dois primeiros governos daquele que viria a se tornar o seu maior adversário político.
Neste segundo governo, até agora, a administração de Casagrande foi marcada por medidas que podem ser consideradas altamente liberais e amigas do mercado, no sentido de facilitar a vida do empreendedor, criar um melhor ambiente de negócios e buscar uma participação maior da iniciativa privada na gestão de equipamentos e serviços públicos – direcionamento que, sem dúvida alguma, ganharia a aprovação do atual ministro da Economia, o ultraliberal Paulo Guedes.
PARCERIAS COM EMPRESAS
Em vez de aumentar a intervenção estatal na economia e rechaçar a presença de empresas privadas nos serviços públicos, o governo Casagrande tem buscado justamente atrair e estimular a coparticipação de empresas, com o lançamento, em maio, de um programa que prevê o estabelecimento de parcerias público-privadas (PPPs) e concessões públicas.
O governo está oferecendo à iniciativa privada a administração de equipamentos públicos, em uma cartela de negócios que inclui terminais de ônibus, o Pavilhão de Carapina, um hotel em Guarapari, e até o estádio Kleber Andrade.
Por outro lado, pode-se argumentar que, ao mesmo tempo em que busca diminuir a presença do Estado em algumas áreas, o governo, paradoxalmente, tem buscado aumentá-la em outras. A princípio, é o caso, por exemplo, da criação de uma fundação de direito privado para administrar hospitais estaduais, a começar pelo Antônio Bezerra de Farias, em Vila Velha. Mas mesmo aí há grandes controvérsias.
No debate travado em torno do projeto (que foi aprovado), na Assembleia Legislativa, opositores ressaltaram que o governo está criando mais uma estrutura estatal (logo, inchando o Estado, medida “antiliberalizante”); por sua vez, aliados do governo destacaram que a fundação propiciará, por exemplo, maior agilidade do que os atuais processos licitatórios em aquisições e contratações de fornecedores. E nada poderia ser mais “liberalizante” do que desburocratizar a máquina pública e agilizar procedimentos, buscando menores preços e maior eficiência.
TEM MAIS
Dois outros pontos fundamentais para a economia capixaba em que Casagrande afasta-se diametralmente da “esquerda” e de seu próprio partido: a política de incentivos fiscais para grandes empresas e a defesa veemente da reforma da Previdência, tanto aquela de Brasília como a sua, em âmbito estadual. É o que veremos aqui nas próximas duas colunas desta série.