Casagrande e Bolsonaro: no meio do caminho, havia um abismo - Parte final: as posições políticas
Discordam em tudo!
Casagrande e Bolsonaro: no meio do caminho, havia um abismo - Parte final: as posições políticas
De armamento civil a legislação de trânsito; de Cuba a audiências de custódia; de reforma da Previdência ao projeto "Escola sem Partido", o governador e sua equipe mantêm pontos de vista diametralmente opostos aos do presidente da República
Casagrande e Bolsonaro discordam sobre os mais diversos temasCrédito: Amarildo
Desde que foram eleitos para os respectivos cargos no ano passado, o governador Renato Casagrande (PSB) e o presidente Jair Bolsonaro (PSL) não conseguem concordar em praticamente nada. As divergências de pontos de vista se estendem para os secretários de Casagrande, em relação a inúmeras medidas propostas até agora pelo governo Bolsonaro (muitas delas abortadas ou não levadas à frente).
Na coluna de hoje, completando a nossa “série do abismo” existente entre os dois governantes, resgatamos e relacionamos uma série de momentos em que o governador e o presidente discordaram frontalmente em temas como segurança pública, saúde, educação, reforma da Previdência, sistema carcerário, meio ambiente, turismo e até legislação de trânsito.
Por sua vez, Casagrande sempre se manteve como crítico da política de facilitação do armamento da população civil. Em entrevista dada em março, condenou, por exemplo, autoridades que “homenageiam” ou “elogiam” demais armas de fogo, contribuindo para o aprofundamento da “cultura da violência”.
"Quanto menos arma de fogo circulando, melhor para a sociedade. Acredito que armas devem ser usadas por agentes públicos que, pela natureza de sua função, têm porte. Não deveríamos caminhar para facilitar muito. Prefiro estabelecer políticas que possibilitem à polícia e ao poder público desarmar os criminosos "
Roberto Sá (sem partido) - Secretário estadual de Segurança Pública, em 08/05/2019
O secretário também se posiciona contra uma das propostas mais estimadas por Bolsonaro: a da ampliação do “excludente de ilicitude” – situações em que um agente de segurança pública tem respaldo legal para matar “em legítima defesa”.
No governo Casagrande, a Secretaria de Educação (Sedu) é tocada pelo cientista político Vitor de Angelo. Antigo colaborador do socialista, o professor da UVV se define como um homem de esquerda.
Vitor de Angelo (sem partido) é secretário estadual de EducaçãoCrédito: Carlos Alberto Silva
Desde que foi anunciado, De Angelo criticou muitas das medidas anunciadas pelo atual ministro da Educação, Abraham Weintraub, e pelo antecessor deste no cargo, Ricardo Vélez-Rodríguez – a maioria delas, abortada.
O secretário também se opõe ao projeto Escola sem Partido, que não só tem a simpatia de Bolsonaro e do núcleo duro do bolsonarismo como consta no programa de governo do então candidato do PSL apresentado ao TSE em 2018.
Para comandar a Secretaria da Saúde, Casagrande escolheu um médico especialista em Saúde da Família e da Comunidade, filiado ao PCdoB e candidato derrotado pelo partido a deputado estadual de Tocantins em 2018. Mais que isso: Nésio Fernandes graduou-se na Escola Latino-Americana de Medicina de Cuba. Para adeptos do bolsonarismo, um pecado mortal.
Secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB) Crédito: Tati Beling/Ales
A pura inclusão da palavra Cuba no currículo faria Fernandes ser automaticamente riscado da lista de candidatos a uma vaga em qualquer governo simpático a Bolsonaro. Basta citar que, segundo a visão do presidente, os médicos cubanos que trabalhavam em regiões ermas ou nas periferias das metrópoles brasileiras pelo programa “Mais Médicos” eram, na verdade, agentes infiltrados no Brasil com o objetivo de implantar o regime comunista no país.
Trata-se, evidentemente, de um delírio ideológico – desde a redemocratização, o Brasil nunca esteve à beira, aliás nem ligeiramente perto, da “implantação do socialismo” no país, muito menos por obra desses poucos milhares de médicos. Mas o argumento ajuda o presidente a manter viva a polarização política do país e a retórica radical do “nós contra eles”, inaugurada por Lula (PT) e agora nutrida por Bolsonaro, com os papéis e sinais invertidos.
POPULAÇÃO CARCERÁRIA: PRENDER OU SOLTAR?
Está escrito no plano de governo de Bolsonaro: “prender e deixar preso!”. O presidente é completamente contra as audiências de custódia, instituídas pelo STF há alguns anos. Por meio desse sistema, um preso detido em flagrante deve ser levado, em até 24 horas, à presença de um juiz, que determina na própria audiência se ele responderá em liberdade ou atrás das grades pelo delito praticado.
Luiz Carlos Cruz é secretário estadual de JustiçaCrédito: Carlos Alberto Silva
Para comandar a Secretaria de Justiça (Sejus), Casagrande escolheu outro policial federal do Rio de Janeiro: Luiz Carlos Cruz. Desde a sua primeira entrevista, quando foi anunciado para o cargo, Cruz defendeu as audiências de custódia, como um instrumento para dar mais celeridade e racionalidade ao sistema penal e prisional.
À frente da Sejus, Cruz também tem promovido mutirões carcerários eletrônicos para libertar presos que já têm direito à liberdade ou à progressão de regime. Também tem sido entusiasta da adoção de videoconferências para reduzir custos, de tornozeleiras eletrônicas para diminuir a superlotação dos presídios e da ressocialização para reduzir a reincidência de detentos.
Assim como muitos Estados, o Espírito Santo enfrenta a bomba-relógio da superlotação do sistema carcerário estadual. Boa parte dos detentos que abarrotam os presídios estão presos por crimes de menor potencial ofensivo e sem jamais terem sido sentenciados. Em setembro, o Espírito Santo tinha 23,8 mil presos, ante uma capacidade de, no máximo, 13,8 mil detentos nas unidades prisionais do Estado.
REFORMA DA PREVIDÊNCIA: COM OU SEM CAPITALIZAÇÃO?
Apesar de o seu partido, o PSB, ter fechado questão contra o projeto do governo Bolsonaro, Casagrande é um defensor da reforma da Previdência (talvez mais até do que o próprio presidente). Mas isso não o impediu de criticar alguns pontos capitais que constavam do projeto original elaborado pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, defende a reforma da Previdência com transição para o regime de capitalizaçãoCrédito: Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
No dia 24 de agosto, durante a 4ª reunião do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud), sediada no Palácio Anchieta, o tema da proteção ambiental esteve no centro das discussões, assim como a maneira como o governo Bolsonaro tem lidado com a crise das queimadas na Amazônia. Segundo Casagrande, o discurso do presidente de certo modo incentiva a destruição da biodiversidade brasileira.
"O prejuízo é real. A imagem do Brasil fica arranhada, mexida. E isso é ruim para o comercial, ameaça o acordo Mercosul-União Europeia, ameaça as exportações brasileiras. É muito bom que a gente retome o diálogo e apresente o que temos de positivo. Não podemos destacar e incentivar a destruição da biodiversidade"
Renato Casagrande (PSB) - Governador do Espírito Santo, em 24/08/2019
TURISMO SEXUAL: DO INCENTIVO À CONDENAÇÃO
Em 15 de maio, Bolsonaro assinou decreto criando o Plano Nacional de Turismo de 2018 a 2022, seguindo à risca o que havia sido elaborado por seu antecessor na Presidência, Michel Temer (MDB), exceto por um ponto: cortou o incentivo ao turismo de pessoas LGBT.
De janeiro a agosto deste ano, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública, 69% dos acidentes de trânsito no Espírito Santo se deram em vias estaduais.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.