Um abismo político-ideológico separa o governador Renato Casagrande (PSB) do presidente Jair Bolsonaro (PSL), bem como os respectivos governos. Três episódios recentes sublinham esse distanciamento. O primeiro deles, já analisado aqui, foi a peremptória negativa do governo estadual em aderir ao programa de implantação de escolas cívico-militares recém-lançado pelo Ministério da Educação.
Agora nos deteremos sobre o segundo episódio:
A escolha de Casagrande para o cargo de economista-chefe do Banestes, Eduarda La Rocque, uma ex-colaboradora do hoje deputado federal Marcelo Freixo, por sua vez um dos mais notórios líderes políticos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).
QUEM É E O QUE PENSA LA ROCQUE?
Na última terça-feira (1º), a economista Eduarda La Rocque assumiu o recém-criado cargo de economista-chefe do Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes SA). A bem da verdade, desde o início da atual administração de Casagrande, em janeiro deste ano, La Rocque já fazia parte da equipe de governo, como diretora técnica do Instituto Jones dos Santos Neves, o órgão de pesquisas do Executivo estadual.
O currículo de La Rocque, 50 anos de idade, impõe-se por si só. Primeira doutora em Economia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), ela é reconhecida como uma das principais especialistas em Gestão de Risco do país, tendo acumulado 12 anos de experiência no mercado financeiro.
De 2009 a 2012, sob a chefia de Eduardo Paes (então no MDB, hoje no DEM), La Rocque comandou a Secretaria de Fazenda da Prefeitura do Rio de Janeiro. Também foi presidente do Instituto Municipal Pereira Passos (IPP), de 2009 a 2015.
Em maio de 2011, a revista Exame, a mais prestigiada do país na área econômica, reconheceu os feitos dela como chefe das finanças da segunda maior cidade do Brasil: “Depois de uma carreira bem-sucedida no mercado financeiro, a economista se transformou numa das secretárias da Fazenda mais respeitadas do país”.
Entretanto, no vasto currículo da nova economista-chefe do Banestes, há algumas notas de rodapé que perpassam Lula, Freixo e Marina Silva e levam muitos políticos de direita – campo no qual se situa Bolsonaro – a torcer o nariz para ela e a enxergar com certa desconfiança.
Em artigo publicado no Jornal do Brasil, Duda, como é chamada pelos íntimos, já criticou o ex-juiz Sergio Moro e abordou o caráter político envolvendo a prisão do ex-presidente Lula (PT).
Em 2016, La Rocque assessorou o então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), hoje deputado federal, na campanha do líder do partido de esquerda – ou extrema esquerda – a prefeito do Rio de Janeiro. Freixo acabaria derrotado por Marcelo Crivella (Republicanos) naquela eleição, por sinal extremamente polarizada.
Como já destacou a colunista Beatriz Seixas, essa ligação com a esquerda já custou a La Rocque uma posição. Em 2018, ela chegou a ser convidada para coordenar o programa de governo de um xará de Freixo, Marcelo Trindade, pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Novo. Mas seu nome encontrou resistência no partido liberal de João Amoêdo e ela acabou se afastando da campanha.
Ironicamente, por sua longa e exitosa trajetória no mercado financeiro, La Rocque às vezes é tachada, por setores da própria esquerda, como economista “neoliberal”.
Em entrevista à revista digital aCriatura, publicada em dezembro de 2017, La Rocque declarou que o partido com o qual mais se identificava era a Rede, por causa da questão da sustentabilidade. Também manifestou o seu compromisso inarredável com a distribuição de renda e o combate às desigualdades sociais. “Para distribuir renda, a roda do mundo tem que girar para a esquerda com gerência de quem tem o capital”, argumentou ela, na entrevista.
Para Renato Casagrande, este alinhamento de La Rocque com teses econômicas consideradas “de esquerda” está longe de configurar qualquer problema ou impedimento. Pelo contrário.
A MISSÃO DE LA ROCQUE: DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Questionado pela coluna, Casagrande explicou qual é a missão que transmitiu para Eduarda La Rocque: ajudar a transformar o Banestes em um instrumento de desenvolvimento regional.
“A função dela está alinhada com a diretoria do banco. A liderança do Banestes é do Amarildo [Casagrande, sem parentesco com o governador], que é o presidente do banco e da diretoria. É a primeira vez que o banco tem uma economista-chefe. É uma mulher, com experiência no mercado financeiro. E, ao mesmo tempo, tem experiência no programa que nós temos como prioridade, que é de desenvolvimento regional.”
"Então ela [La Rocque] vai colocar para o Banestes a agenda de desenvolvimento regional que nós temos no Estado, para que o banco seja um instrumento de financiamento dos investimentos que ajudem no desenvolvimento regional."
Casagrande também passou para a economista a missão de desenvolver um indicador para aferimento da qualidade de vida dos moradores em cada microrregião do Espírito Santo.
"Ela vai trabalhar para que a gente tenha o desenvolvimento de uma medição de fato da qualidade de vida, do índice de prosperidade, que é também importante que o banco esteja envolvido nesse debate. Tipo um IDH, mas levando em consideração outros indicadores. Ela está desenvolvendo essa tese, esse estudo, para que no tempo a gente possa medir efetivamente a qualidade de vida em cada município e em cada região, e não só o Produto Interno Bruto”, informou o governador.
Para o Diário Oficial do Estado, em matéria publicada na última quarta-feira (4), La Rocque defendeu “um modelo de desenvolvimento sustentável e inclusivo”: “Uma das minhas principais atribuições será criar um arcabouço inovador de financiamento para este modelo”.
Segundo a mesma matéria, como diretora técnica do Instituto Jones, ela idealizou o Índice de Prosperidade do Espírito Santo (Ipes), citado por Casagrande, “que vai guiar o desenvolvimento regional do Estado”.
NO MEIO DO CAMINHO, HAVIA O CENTRO
Na já citada entrevista ao site aCriatura, La Rocque relativizou a questão, ou dilema, entre ser "de esquerda" ou "de direita":
"Esquerda ou direita é uma questão de ponto de vista. A questão ética, não. O partido com o qual ideologicamente eu mais me alinho é a Rede, pela sustentabilidade. [...] Dentro do meu escopo, na minha extrema direita está o Partido Novo. Na minha extrema esquerda, o PSOL. E no meu meio, a Rede. Topo conversar com um, topo conversar com outro. São partidos que em geral têm honestidade intelectual, acreditam naquela ideologia e estão dispostos a mudar de opinião, assim espero, se você tiver evidência, estudo de caso para mostrar que uma coisa funciona mais do que outra".
"Ser esquerda ou direita depende de um referencial com relação ao círculo que você está vivendo. Brinco sobre isso com minhas amigas que estão à direita e à esquerda, dizendo que estou no centro. Se ser a favor da responsabilidade fiscal é ser neoliberal, então sou neoliberal. Mas não sou neoliberal porque acho que não é isso que é ser neoliberal. Tive certeza de não ser neoliberal conversando com um amigo que admiro muito. Dizia a ele que as questões fiscais e do teto eram importantes, mas como a gente fazia para diminuir a desigualdade? Ele me perguntou: ‘Mas por que a desigualdade é ruim?’. Foi aí que vi que não sou neoliberal"