O governador Renato Casagrande (PSB) fez, na tarde desta quinta-feira (14), uma crítica contundente à "cultura de homenagem às armas" que tem ganhado força no país, alimentada, segundo ele, por pessoas importantes na vida pública e até em entidades privadas. Sem menção direta ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) – um armamentista convicto –, Casagrande afirmou que esse ambiente de excessiva homenagem às armas fortalece a cultura da violência e incentiva a ocorrência de episódios como o massacre de alunos no colégio Raul Brasil, em Suzano (SP), na quarta-feira (13).
"Infelizmente, a cultura da violência é uma cultura que preocupa muito a sociedade brasileira. Me preocupa muito. (…) Mas o ambiente que se estabeleceu no Brasil, de muito enfrentamento, e um debate de muita homenagem às pessoas se armarem, levam a uma realidade de possibilidades e facilidade para que aconteçam atos como o que aconteceu ontem em São Paulo. Não pela arma em si, mas pela cultura do incentivo, pelo debate, por muitos defenderem, até de forma legítima, com convicção de que isso é bom, que a ampliação desse instinto de enfrentar a violência com violência pode ser um caminho. Tem gente que defende isso. Eu sinceramente tenho defendido uma outra posição, uma outra postura. (…) Quero fazer esse registro da tristeza que a gente vivencia, sabendo que algumas pessoas, por diversas razões, seja por bullying, seja por qualquer outra razão, acabam usando o instrumento da violência como arma para fazer um enfrentamento, mostrando a desvalorização que muitas pessoas hoje dão à vida."
A declaração foi dada no início da tarde desta quinta-feira, no gabinete do governador, no Palácio Anchieta. Em um curto pronunciamento, Casagrande abordou o tema espontaneamente. O assunto do evento era outro – o projeto de lei que cria o Programa de Integridade do governo estadual –, mas o governador fez questão de marcar posição.
Minutos depois, em entrevista, o governador reiterou sua opinião de que atos de violência são encorajados por esse crescente culto às armas de fogo e pelo crescente debate em favor do armamento civil, ainda que não se possa estabelecer uma associação direta entre esses fatores e o massacre de Suzano. Segundo Casagrande, a facilitação do acesso de civis a armas de fogo só aumenta a violência. E a ideia de que violência se combate com mais violência só agrava um problema já suficientemente preocupante.
"Não tem uma associação direta. A minha preocupação é com a cultura. A cultura da violência. Nós não podemos achar que o que aconteceu foi provocado por esse debate. Poderia ter acontecido mesmo que não estivesse tendo esse debate. Mas, de fato, o que a gente está acompanhando na sociedade brasileira... Muitas vezes as pessoas defendem isso [armamento civil] com muita sinceridade, com muita convicção... Mas o que passa é uma referência de que, armando a população, tudo se resolverá. E o sinal que passa é que violência combaterá a violência. E esse ambiente pode levar a atos de violência em maior número no nosso país, no nosso Estado. Então é preciso que a gente mude a cultura, a cultura da violência, que está sendo muito referenciada neste momento", afirmou Casagrande.
Sem citar nem Bolsonaro nem o líder do PSL no Senado, Major Olímpio (PSL-SP), Casagrande também criticou duramente a ideia de armar os próprios professores como resposta a chacinas como a do colégio em Suzano.
"Pessoas, quando são importantes na vida pública, ou mesmo nas entidades privadas, quando elas homenageiam demais as armas, isso leva de fato a achar que um professor deva andar armado. Imagina você um professor entrar armado numa sala de aula. Qual é a mensagem que isso passa para as crianças, para os adolescentes? Nós temos que combater veementemente a cultura da violência pela cultura da paz", argumentou o governador.
"MENSAGEM RUIM"
Na última segunda-feira (11), após ser sabatinado por deputados estaduais na Assembleia Legislativa, Casagrande já havia criticado o decreto de janeiro do presidente Bolsonaro que flexibilizou a posse de armas. Na ocasião, ele disse que o decreto em si não muda tanto as regras, mas que a mensagem em si é ruim e que a direção da política do governo federal sobre essa questão está errada. Dois dias depois, ocorreu o massacre em Suzano.