O que o Brasil quer ser quando crescer? Uma nação desenvolvida, com uma economia baseada na indústria, na tecnologia e no conhecimento? Ou um exportador de commodities de baixo valor agregado e baixos salários? Esse é o dilema que o país precisa enfrentar com urgência.
Dados recentes divulgados pelo IBGE mostram que o PIB voltou a acelerar no primeiro trimestre do ano. A economia cresceu 1,1% no período, em relação ao trimestre anterior. À primeira vista, parece uma boa notícia. Mas uma análise criteriosa revela uma questão preocupante: qual é a qualidade desse crescimento?
Um estudo da CNI – Confederação Nacional da Indústria mostra que todos os setores contribuíram para o resultado: a agropecuária cresceu 2,0%, a indústria, 1,0%, e os serviços, 0,5%. Mas a indústria de transformação andou de lado, com alta de apenas 0,1% no trimestre. No caso desse setor, que é o mais importante para o desenvolvimento da economia, a queda acumulada em quatro trimestres passou de 0,2% em 2025 para 0,9% neste ano.
Isso significa que a indústria de transformação está encolhendo, apesar de ocupar um papel central no desenvolvimento das nações. Diferentemente de outros setores, ela funciona como uma grande demandante de conhecimento, tecnologia e inovação.
É nela que se concentram boa parte dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento, engenharia, automação, digitalização e qualificação profissional. Não por acaso, os países que lideram a economia mundial são também aqueles que possuem bases industriais robustas.
As economias mais desenvolvidas estão lançando pacotes trilionários para impulsionar a indústria de transformação, que voltou a ocupar posição central nas estratégias nacionais de crescimento. Os EUA têm programas específicos para semicondutores e manufatura avançada.
A União Europeia foca tecnologias limpas, energia renovável, hidrogênio, baterias e manufatura estratégica. A China lançou em 2015 um plano para transformar o país em líder global em dez setores industriais, incluindo robótica, veículos elétricos, equipamentos médicos e também semicondutores e manufatura avançada. E o Brasil parece não entender a importância de uma política industrial consistente.
Continuamos a avaliar o desempenho da economia principalmente pelo crescimento agregado do PIB, sem avaliar a qualidade desse crescimento. Além disso, ficamos mirando o déficit primário, ignorando o impacto do déficit nominal e dos juros sobre a dívida pública, que realimenta a alta da Selic.
As estatísticas podem produzir uma sensação de conforto enganosa. Não basta reduzir o déficit primário se o custo financeiro da dívida continua pressionando a economia.
A indústria de transformação é especialmente afetada pelos juros porque opera em cadeias produtivas longas e intensivas em capital. Quando as taxas permanecem elevadas por muito tempo, esses investimentos se tornam mais caros e menos atrativos, reduzindo a competitividade do país.
Além disso, juros altos tendem a atrair capital financeiro e valorizar o câmbio, tornando produtos importados mais competitivos no mercado interno. O resultado é uma dupla pressão sobre a indústria: aumenta o custo de produzir no Brasil e reduz a capacidade de competir com quem produz no exterior.
A história econômica mostra que nenhuma nação alcançou altos níveis de renda, produtividade e desenvolvimento sustentável apoiando-se na exportação de commodities. A Coreia do Sul não alcançou altos níveis de renda vendendo matéria-prima. Os Estados Unidos não lideram a economia global por serem grandes produtores agrícolas, embora também o sejam.
Todos construíram prosperidade apoiados em uma indústria capaz de gerar inovação, agregar valor e difundir tecnologia para os demais setores da economia.
Por isso, quando a indústria de transformação perde espaço, não é apenas um setor que encolhe: o país inteiro perde capacidade de inovar, de aumentar sua produtividade e de construir riqueza de forma sustentável.
Os sinais da perda de densidade produtiva aparecem em diversas frentes. A taxa de investimento da economia brasileira caiu de 17,6% para 16,5% do PIB em apenas um ano. Mais preocupante ainda: os investimentos em máquinas e equipamentos produzidos no país recuaram 5,1%, enquanto os investimentos em máquinas importadas cresceram 8,3%.
Isso significa que estamos comprando tecnologia produzida por outros países enquanto reduzimos a demanda por equipamentos fabricados pela indústria nacional. Na prática, estamos financiando empregos, pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico fora do Brasil.
É importante ter em mente que o que está em jogo é o modelo de desenvolvimento que queremos construir para as próximas décadas. O mundo está investindo trilhões de dólares na busca pela liderança das cadeias globais de inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, defesa, energia limpa e manufatura avançada.
E o Brasil? O que queremos ser no futuro? Essa é a questão que devemos responder.