De saída do PSB, o deputado federal Felipe Rigoni realiza uma autocrítica, neste bate-papo exclusivo com a coluna: fez uma avaliação errada quando decidiu se filiar ao partido do governador Renato Casagrande. “Foi um erro de leitura”.
Mas Rigoni, pelo que explica, teve razões para se enganar com o partido: nascido lá na extrema esquerda – dentro do que se pode chamar de “socialismo raiz” – , o Partido Socialista Brasileiro, nos últimos anos, desde que se descolou do PT, tem passado por algumas transformações internas. Toda transformação gera contradições. Após a morte do líder maior do partido, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, em agosto de 2014, essas contradições internas se aprofundaram:
Hoje, enquanto alguns líderes com mandato – Rigoni cita o próprio Casagrande – seguem o exemplo de Eduardo Campos e tentam puxar o partido para uma posição mais de centro e uma visão mais liberal na economia, os dirigentes que controlam o PSB nacionalmente mantêm-se aferrados àquele “socialismo raiz”, de viés estatizante e intervencionista na economia.
Para o Rigoni, o PSB em que ele entrou e se filiou é aquele liderado por Casagrande no Espírito Santo, muito mais próximo do pensamento econômico do governador, que tem se refletido em medidas do seu atual governo.
“Na verdade, eu imaginava que o PSB estava se tornando o PSB que o Eduardo Campos estava construindo, que é um PSB bem mais de centro. E que, querendo ou não, o Renato Casagrande constrói aqui, porque o Renato não é um ‘socialista raiz’. Ele não é um ‘estatizante’. "
Sem ter decidido ainda para qual partido vai migrar – tem convite de pelo menos 15 siglas –, Rigoni já definiu os critérios que orientarão a sua escolha: tem que ser uma agremiação de centro, que respeite as suas convicções políticas, tanto faz se de centro-esquerda (como o PSB) ou de centro-direita.
Em meio à indefinição sobre seu futuro partido, sobressaem algumas certezas. Ele não será candidato a nada em 2020, muito menos a prefeito de Linhares. Faz questão de concluir o mandato, tende a buscar a reeleição em 2022 e está felicíssimo no Congresso.
“Hoje eu não gostaria de estar em lugar nenhum além da Câmara dos Deputados. É pelo Parlamento que vão passar as principais transformações que a gente vai fazer no Brasil. Então, quem quer fazer diferença real tem que estar no Parlamento agora.”
Isso não significa que ele tenha perdido de vista o seu grande sonho: ser presidente da República um dia (hoje, legalmente, falta-lhe até idade, além de experiência para isso). Tampouco quer dizer que o Congresso seja pura alegria. “É um caos”, sintetiza, seriamente, um risonho Felipe Rigoni.
Confira a entrevista na íntegra:
O senhor ficou possesso com a punição da direção nacional do PSB, por ter votado a favor do projeto da reforma da Previdência na Câmara…
Fiquei bravo.
Na última segunda-feira (14), o senhor protocolou a ação na Justiça para conseguir se desfiliar do PSB sem perder o mandato parlamentar. Não havia acordo possível?
Não. Estou indo embora mesmo. Se o PSB nacional fosse o PSB capixaba, que eu conheço, eu ficaria. Mas não é. O PSB nacional não é tão aberto ao diálogo. E acabou minando muito a minha capacidade de fazer o meu trabalho. Não fossem os vários outros partidos que me ofereceram vagas em comissões, eu estaria sem fazer quase nada agora. Eu já fui suspenso e retomei minhas vagas em comissões, porque outros partidos me ofereceram vagas. Então por isso não faz sentido continuar num partido que me pune por conta das minhas convicções. Quer dizer, é um partido que não me quer. Acho que faltou coragem de me expulsar.
Para onde o senhor vai?
Isso eu realmente não sei. Recebi convite de 15 ou 16 partidos, mas só vou pensar nisso quando eu tiver o ok da Justiça para sair. Agora, é natural que eu vá para um partido que me prometa garantir a liberdade de atuação, mas que tenha uma visão um pouquinho mais alinhada com aquilo que eu penso.
E como o senhor define o seu penamento político?
Um partido liberal na economia, que pense mais ou menos de forma progressista nas questões sociais e nos costumes. E tem vários nesse sentido.
Pois é. Esse não é exatamente o perfil do PSB, quando a gente para para analisar em essência, principalmente no que diz respeito à primeira parte, de ser “liberal na economia”. Progressista nos costumes, sim; preocupado com questões sociais, ok. Mas o liberalismo econômico não está na essência do PSB, até porque é um partido nascido nos anos 1940, naquele “socialismo raiz”, mais estatizante. Não faltou também por parte do senhor levar isso em conta ao decidir se filiar?
Na verdade, eu imaginava que o PSB estava se tornando o PSB que o Eduardo Campos estava construindo, que é um PSB bem mais de centro. E que, querendo ou não, o Renato Casagrande constrói aqui, porque o Renato não é um “socialista raiz”. Ele não é um “estatizante”. É óbvio que ele tem algumas intervenções econômicas, que eu até concordo com muitas, se não com todas, que ele já fez até então. Porque eu também não sou um “liberalista maluco”…
Não é um “liberalista xiita”, né?
Não. Não sou xiita para nada. Eu acho, obviamente, que uma economia mais liberal, com mercado aberto, é mais eficiente, e a gente tem evidências para afirmar isso. Mas tem momentos em que você precisa que o Estado intervenha em algumas coisas. E isso tanto o Renato [Casagrande] como o Eduardo Campos estavam construindo no PSB. O que eu não me liguei é que isso não estava sendo construído pelo resto do PSB, depois da tragédia com o Eduardo. Então foi, na verdade, um erro de leitura.
Teria faltado então, ao senhor, compreender para onde estava indo a cúpula nacional?
Exato. Está até acontecendo uma autorreforma agora no PSB, em que eles estão tentando traduzir melhor o que é o socialismo que o PSB defende. Aí vamos ver o que vai dar no fim dessa autorreforma.
Nitidamente, alguns setores do PSB já se modernizaram inclusive no que se refere a essa visão sobre o que é o “socialismo” e o que significa ser “socialista” hoje, 30 anos após a queda do Muro de Berlim…
Lógico! Sem dúvida! Veja: até o pessoal de Pernambuco, que é a raiz do PSB [com Miguel Arraes]… Pô, o que os caras fazem lá com a educação pública, por exemplo [desde Eduardo Campos], é um sistema de incentivos pesado aos professores.
Ou seja: meritocracia, estabelecimento e perseguição de metas e recompensa pelo cumprimento dessas metas.
É meritocracia na veia!
Que é algo combatido, por exemplo, pelos “socialistas xiitas”…
Que é algo combatido pelos, entre aspas, defensores do “socialismo raiz”. Então, não é assim mais. O que faltou ali para mim, especificamente na questão da reforma da Previdência, foi abertura para o diálogo em nível nacional. E também sobrou vontade do PSB de marcar uma posição política contra o governo Bolsonaro.
O PSB, no entanto, pode tranquilamente ser considerado ainda um partido de esquerda ou, no máximo, de centro-esquerda…
Certo.
Na escolha do seu novo lar partidário, o senhor vai necessariamente optar por um partido do mesmo campo político-ideológico?
Com certeza vai ficar abarcado pelo centro. Se é centro-direita ou centro-esquerda, aí eu tenho que ver mais individualmente com o partido. Às vezes o partido é super legal nacionalmente, mas localmente não é tanto, e vice-versa, o que foi o caso do PSB para mim. Mas, naturalmente, quero ir para um partido mais alinhado comigo.
O senhor participou do primeiro curso do movimento RenovaBR e faz parte do movimento Acredito. Aqueles partidos mais alinhados a esses movimentos, como o Novo, a Rede e o Cidadania, largam na frente?
Eu não diria que largam na frente, mas eu sou próximo a esses três partidos. Sou próximo ao pessoal do Novo, do Cidadania e da Rede. Mas também sou próximo ao pessoal do Podemos. Não é porque são mais alinhados com o RenovaBR que largam na frente na minha escolha. Agora, vou ter alguns critérios na minha escolha. Obviamente, a questão local é importantíssima para mim. Obviamente, o direcionamento programático e a liberdade que o partido vai dar para nós enquanto membros. E o quanto esse partido está querendo se autorreformar. Especialmente depois dessa votação que tivemos há um mês e pouco, dessa nova Lei dos Partidos, que basicamente abriu para caixa dois à vontade, eu estou muito preocupado com qual movimento interno o meu futuro partido vai ter.
O senhor já disse em entrevistas que o seu grande projeto, ou sonho, é ser presidente da República. O senhor mantém isso?
É um sonho. Agora, veja: hoje eu não gostaria de estar em lugar nenhum além da Câmara dos Deputados.
Por quê?
Porque é pelo Parlamento que vão passar as principais transformações que a gente vai fazer no Brasil. Então, quem quer fazer diferença real tem que estar no Parlamento agora.
Isso significa que não há nenhuma chance de o senhor, por exemplo, interromper o mandato para ser candidato a prefeito de Linhares, ou de algum outro município, no ano que vem?
Nenhuma.
E mais à frente, após encerrar o seu primeiro mandato na Câmara, qual é o seu ideal?
Eu não posso virar nem senador nem presidente da República, porque [como manda a Constituição Federal] é preciso ter 35 anos [risos]. Vou tentar me reeleger deputado federal, até porque, Vitor, as grandes reformas que a gente vai fazer não duram só os próximos quatro anos. E todas vão passar pelo Parlamento.
O senhor destaca quais, além da da Previdência, que já está praticamente entregue?
A reforma fiscal, no geral, que não é só a Previdência, mas envolve tanto gastos obrigatórios como controle de serviço da dívida etc. A gente tem a reforma administrativa, que envolve desde plano de cargos até sistema de incentivos. Essa precisa acontecer. A tributária. A gente precisa redesenhar os programas sociais brasileiros. Vai demorar bastante tempo. A gente tem um desafio enorme na educação. Para mim é o desafio mais longo que a gente vai ter. Tem o Fundeb agora. Mas a gente vai precisar fazer uma série de outras mudanças, relacionadas, por exemplo, à formação de professores. Tudo isso passa pelo Parlamento.
Em nossa primeira entrevista, em novembro de 2018, logo após a sua eleição para a Câmara, o senhor repetiu o seu mantra: “políticas públicas e projetos de lei propostos com base em evidências científicas”…
[Risos]. Com base em evidências científicas, com respeito aos contextos locais e tendo avaliação permanente de resultados.
Exato. Já naquela primeira entrevista, antes de tomar posse, o senhor usou a palavra “caos”: “Eu temo que Brasília vire um caos”. O senhor ali manifestava seu receio sobre o que o Congresso e o próprio governo Bolsonaro poderiam se tornar, com muitas discussões sem base alguma em evidências. Passado quase um ano de mandato, o seu receio se confirmou?
É um caos! [risos] Mas percebo um movimento grande não só dos novos parlamentares mas também de vários dos antigos, no sentido de prezar mais pelos fatos. Não diria necessariamente só pelas evidências, porque também tem hora que as evidências se contradizem, para todo tipo de lado. Mas tem muito mais gente preocupada com os fatos. Isso de fato eu percebo. Agora, infelizmente, tem vários momentos, e este mês para mim foi muito difícil por isso, que o fisiologismo político fala mais alto. E aí acaba que a gente vota coisas que não têm nada a ver com as evidências. Por exemplo, a Lei dos Partidos que a gente votou. Não tem nenhum estudo, aliás, o bom senso não mostra que a gente deveria ter feito o que fez. Lutamos contra, fizemos questões de ordem. Eu estava lá. Eu, a Tabata [Amaral] e vários outros. Conseguimos segurar muitas coisas, mas muitas outras passaram. Ao mesmo tempo, a gente protocolou o projeto de lei que disciplina a organização interna dos partidos. E aí de novo: com base em evidência e estudos.
E esse talvez não passe.
E esse talvez não passe… [risos]