Procura-se um líder. Não, caro(a) leitor(a), a coluna de hoje não é sobre o presidente da República. Referimo-nos à dificuldade que o governador Renato Casagrande (PSB) enfrenta, no momento, para encontrar um substituto para o ex-deputado Eustáquio de Freitas (PSB) na função de líder do seu governo na Assembleia Legislativa.
Primeiro suplente da coligação, Freitas deixou o posto no comecinho de abril, com o retorno do titular do mandato, Bruno Lamas (PSB), ao Legislativo. Uma demora assim não é comum: normalmente, quando um líder deixa o cargo, o substituto é anunciado no mesmo dia ou no dia seguinte, para não comprometer as votações de projetos do governo.
Tudo bem que a Assembleia está com as sessões presenciais suspensas desde março, por causa da pandemia do coronavírus. Mas já houve uma virtual após a saída de Freitas, no dia 6 de abril, e deve haver outras em breve*. Por que Casagrande ainda não definiu o novo líder?
Na verdade, o governador até tem em mente um nome para a sucessão de Freitas, mas espera que ele primeiro resolva a sua vida do ponto de vista eleitoral. “Ele” é o deputado Marcelo Santos (PDT), favorito para a vaga de novo líder, seguido pelo atual vice-líder do governo na Assembleia, o deputado Dary Pagung (PSB).
A questão que está emperrando a decisão é que o governador não quer um líder que seja pré-candidato a prefeito, o que restringe consideravelmente as opções no momento. Primeiro, por uma questão de foco.
Mantido o calendário eleitoral, a campanha começará, oficialmente, daqui a menos de quatro meses. Um líder de governo que também cobice alguma prefeitura necessariamente terá que se dedicar à construção da própria candidatura. Por conseguinte, não poderá se concentrar integralmente nas atribuições de líder: articular com os outros deputados a aprovação dos projetos de interesse do governo.
Isso num momento em que o governo Casagrande terá que mandar para a Casa de Leis alguns projetos muito importantes, pensando na travessia da crise do coronavírus e no pós-pandemia. Um deles, que já está “contratado”, é o novo projeto de lei orçamentária estadual para o ano corrente, revisando para bem menos a estimativa de receita aprovada em dezembro passado. O número não está fechado, mas o próprio governador já falou em, no mínimo, R$ 2 bilhões a menos que os R$ 19,7 bilhões inicialmente previstos.
Além disso, para se dedicar à própria campanha eleitoral, um líder que seja candidato a prefeito poderá, inclusive, licenciar-se do mandato entre agosto e outubro (período oficial de campanha). Isso obrigará Casagrande a escolher um “novo novo líder”. Seria o quarto em menos de dois anos de governo. Melhor evitar esse contratempo indesejável. Pega mal. Transmite inconstância.
Tudo considerado, se Marcelo não for pré-candidato (pela quarta vez seguida) a prefeito de Cariacica, a vaga é praticamente dele. Para correliginários de Casagrande, ele tem perfil adequado à função. No plenário, não é dado a arroubos nem a embates explícitos com adversários. Nos bastidores, movimenta-se bem, é um calejadíssimo articulador político e tem notória influência sobre os colegas.
Além disso, tem muito bom trânsito com o núcleo que hoje comanda a Assembleia (do qual faz parte, aliás, como vice-presidente da Mesa**), incluindo o presidente Erick Musso (Republicanos). No fim de 2018, Marcelo chegou até a atuar em favor de Casagrande no plenário como “líder informal do governo eleito”, durante o período de transição de Paulo Hartung para o governador socialista.
A questão toda, então, resume-se à pergunta do milhão: afinal, Marcelo é ou não é pré-candidato a prefeito de Cariacica?!? A decisão de Casagrande depende diretamente da decisão de Marcelo sobre isso, a qual precisaria ser tomada nos próximos dias.
Um “empurrão” pode ser dado nesta quarta-feira (22), data em que está pautado o julgamento, no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), da ação em que Marcelo pede o reconhecimento de justa causa para poder sair do PDT sem risco de perder o mandato de deputado estadual. Ficando no PDT, Marcelo não será candidato, pois não receberá a legenda das direções municipal e estadual do partido, comandado no Espírito Santo pelo deputado federal Sérgio Vidigal (rompido com Marcelo).
Se continuar no PDT, Marcelo não é candidato. Se não for candidato, fica bem perto de ser líder. É isso.
DARY PAGUNG: EM STAND-BY
Quanto a Dary Pagung, é o atual vice-líder do governo e, em caso de exclusão de Marcelo, pode ser considerado um “substituto natural” de Freitas. Enquanto Marcelo seria “uma solução de Assembleia”, Dary seria uma “solução de partido” (o PSB). Mas o mesmo raciocínio se aplica a ele: não poderá ser candidato a prefeito de Baixo Guandu, seu município.
Na verdade, o PSB prefere mesmo que Dary não dispute a eleição municipal. Tanto o deputado como o partido trabalham hoje para encontrar e lançar outro candidato no lugar dele à prefeitura do pequeno município situado na divisa com Minas Gerais. Uma coisa é um deputado abandonar o mandato parlamentar para ser prefeito, digamos, de Vitória; outra, bem diferente, é trocar o cargo de deputado para governar uma cidade de 31 mil habitantes.
O PSB entende que isso representaria um passo atrás na trajetória de Dary. Como deputado, ele vai além das divisas de Baixo Guandu; como prefeito da cidade, encolheria em relação ao tamanho que adquiriu após 12 anos na Assembleia – está no quarto mandato seguido na Casa.
Um ponto desfavorável a Dary é que, ao longo de 2019, ele praticamente se estabeleceu como inimigo político de Erick Musso, de quem dependem pessoalmente a tramitação e a aprovação dos projetos do governo. No episódio em que Erick tentou antecipar a eleição da Mesa Diretora, no fim de novembro, Dary praticamente chutou o balde em cima do presidente.
OUTRAS OPÇÕES
Correndo por fora, se as soluções Marcelo ou Dary não derem certo, o deputado Luciano Machado (PV) também é aventado. Originário de Guaçuí, o atual 1º secretário da Mesa Diretora não será candidato a prefeito. É muito leal a Casagrande. Mas não tem perfil de articulador político. E também se indispôs com Erick no episódio da eleição da Mesa, em novembro.
Presidente da Comissão de Justiça, o deputado Fabrício Gandini (Cidadania) poderia ser um líder de governo. Mas é pré-candidato declarado a prefeito de Vitória e também chutou a canela de Erick no já referido episódio.
Primeiro líder do governo Casagrande no atual mandato, Enivaldo dos Anjos (PSD), em tese, poderia reassumir o posto. Mesmo tendo sido destituído após a malfadada antecipação da eleição da Mesa, manteve-se leal ao governo e continuou defendendo-o com afinco em embates com oposicionistas em plenário no início deste ano. Além disso, tem bom trânsito com Erick.
Mas, em primeiro lugar, é pré-candidato assumido à Prefeitura de Barra de São Francisco. Em segundo lugar, trazê-lo de volta oficialmente para o cargo seria constrangedor para o governo, após a maneira como o veterano deputado foi “demitido” no fim de novembro e a forma como reagiu na primeira sessão após a destituição, soltando cobras e lagartos sobre secretários de Estado como o da Casa Civil, Davi Diniz, e a de Comunicação, Flávia Mignoni.
* O presidente Erick Musso foi diagnosticado com Covid-19 e está em isolamento domiciliar. Não há nova sessão marcada por enquanto.
** Se virar líder de Casagrande, Marcelo Santos não precisará deixar o cargo de 1º vice-presidente da Mesa. É estranho, mas é assim.