Sérgio Vidigal perde ou ganha com entrada de Amaro Neto na Serra?
Eleições 2020
Sérgio Vidigal perde ou ganha com entrada de Amaro Neto na Serra?
Com Amaro realmente na disputa pela prefeitura municipal, a rejeição das classes A e B, que antes recairiam sobre Vidigal, pode migrar para o outro deputado federal
Segundo essa concepção, o dano que Amaro pode impor a Vidigal nas classes de mais baixa renda é limitado: só vai até certo ponto. Além disso, competindo com Amaro, a perda que o ex-prefeito pode sofrer nesses segmentos será muito menor que o ganho que ele pode obter junto às classes de mais alta renda.
Essa interpretação leva em conta um fator: o bairrismo do eleitor serrano. Amaro foi muito bem votado para deputado federal na Serra em 2018. Quase tão bem votado quanto o próprio Vidigal. Mas uma coisa é o voto para deputado (algo muito mais difuso na cabeça do eleitor); outra é o voto para prefeito da própria cidade: o cara que terá que resolver os seus problemas no dia a dia.
Numa eleição paroquial como a da Serra, Amaro pode enfrentar certa resistência mesmo junto aos eleitores de menor poder aquisitivo, que por anos formaram o grosso da audiência do programa policial apresentado por ele e que, durante a campanha, poderiam vê-lo como um candidato “forasteiro”, diferentemente de Vidigal, com a vida pública inteira construída na cidade.
Esse “detalhe”, aliás, certamente será usado à exaustão por adversários de Amaro: há muitos anos ele não mora na Serra, acaba de transferir o título para a cidade e seu vínculo formal com o município é um imóvel comercial que ele mantém no bairro Laranjeiras.
Ao mesmo tempo, se a eleição a prefeito de Vitória em 2016 mostrou algo foi a resistência quase inquebrável que Amaro enfrenta nos estratos sociais de renda mais elevada. Derrotado por margem mínima, o deputado só não tirou de Luciano Rezende (Cidadania) a cadeira de prefeito da Capital porque foi muito mal votado nos chamados “bairros nobres”.
Muito bem: os “bairros nobres” da Serra, onde se concentram as classes A e B*, foram exatamente aqueles onde Vidigal perdeu, de virada, a eleição para Audifax Barcelos (Rede) em 2016.
Nas classes A e B, numa disputa direta contra um candidato com perfil mais “técnico” que o dele – como o próprio Audifax –, o pedetista tende a ter os seus mais fracos resultados, por ser considerado detentor de um perfil mais “populista”. Para o eleitor das classes A e B, Audifax era um candidato mais interessante porque, no imaginário popular, tem um perfil mais técnico e de “gestor” que Vidigal.
Já com Amaro na disputa, a situação pode se inverter: a rejeição das classes A e B, que antes recairiam sobre Vidigal, pode migrar para o outro deputado federal. E, por eliminação, esse eleitor pode engolir em seco e votar em Vidigal, que pode, assim, se beneficiar desse voto por exclusão.
Ao lado de Audifax, Vidigal seria “o populista de esquerda”, “o assistencialista”. No confronto com Amaro, pode virar o político experiente e já testado que já governou a Serra por três mandatos (sendo os dois primeiros bem avaliados). E a pecha de “populista” pode pular para Amaro: um populista de direita (ou sem lado bem definido).
Resumindo: segundo esse ponto de vista, populista por populista, o eleitor da Serra pode preferir votar no candidato que é mesmo da cidade e que já a governou três vezes a votar num candidato outsider e sem histórico como gestor. Aliados de Vidigal apostam nisso.
Todas essas conjecturas só reforçam uma interrogação cuja resposta pode determinar o rumo dessa eleição: se de fato for candidato a prefeito da Serra, qual Amaro virá para essa disputa? Se vier “sério” demais, completamente repaginado, pode perder apelo junto às classes D e E – muito numerosas na Serra. Se pular das telas de TV diretamente nas ruas da cidade, despertará rejeição intransponível das classes A, B e C+.
Eis o dilema.
* Classes A e B: Há duas maneiras de caracterizá-las. A primeira épelo chamado "critério Brasil", mais adotado de modo geral em pesquisas de intenção de voto no país, que considera a posse de bens do indivíduo. A outra é pelo critério de renda. Nesse caso, a classe A/B engloba moradores com renda mensal superior a mais ou menos R$ 5 mil. Dá substancial diferença. Pelo primeiro critério (bens), a classe A/B, na Serra, representa 27% da população atual do município; pelo segundo (renda), corresponde a 12% da população serrana.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.