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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Sérgio Vidigal perde ou ganha com entrada de Amaro Neto na Serra?

Com Amaro realmente na disputa pela prefeitura municipal, a rejeição das classes A e B, que antes recairiam sobre Vidigal, pode migrar para o outro deputado federal

Publicado em 19/04/2020 às 06h00
Atualizado em 19/04/2020 às 12h16
Sérgio Vidigal diante do enigma de Amaro Neto
Sérgio Vidigal diante do enigma de Amaro Neto. Crédito: Amarildo

A visão imediata acerca do ingresso de Amaro Neto (Republicanos) na pré-disputa eleitoral da Serra é a de que o deputado federal tem potencial para, seguramente, arrancar votos de Sérgio Vidigal (PDT) nas classes D e E. Mas alguns agentes políticos têm leitura diferente: acreditam que, na realidade, Vidigal tem muito mais a ganhar do que a perder se enfrentar Amaro na eleição a prefeito da Serra.

Segundo essa concepção, o dano que Amaro pode impor a Vidigal nas classes de mais baixa renda é limitado: só vai até certo ponto. Além disso, competindo com Amaro, a perda que o ex-prefeito pode sofrer nesses segmentos será muito menor que o ganho que ele pode obter junto às classes de mais alta renda.

Essa interpretação leva em conta um fator: o bairrismo do eleitor serrano. Amaro foi muito bem votado para deputado federal na Serra em 2018. Quase tão bem votado quanto o próprio Vidigal. Mas uma coisa é o voto para deputado (algo muito mais difuso na cabeça do eleitor); outra é o voto para prefeito da própria cidade: o cara que terá que resolver os seus problemas no dia a dia.

Numa eleição paroquial como a da Serra, Amaro pode enfrentar certa resistência mesmo junto aos eleitores de menor poder aquisitivo, que por anos formaram o grosso da audiência do programa policial apresentado por ele e que, durante a campanha, poderiam vê-lo como um candidato “forasteiro”, diferentemente de Vidigal, com a vida pública inteira construída na cidade.

Esse “detalhe”, aliás, certamente será usado à exaustão por adversários de Amaro: há muitos anos ele não mora na Serra, acaba de transferir o título para a cidade e seu vínculo formal com o município é um imóvel comercial que ele mantém no bairro Laranjeiras.

Ao mesmo tempo, se a eleição a prefeito de Vitória em 2016 mostrou algo foi a resistência quase inquebrável que Amaro enfrenta nos estratos sociais de renda mais elevada. Derrotado por margem mínima, o deputado só não tirou de Luciano Rezende (Cidadania) a cadeira de prefeito da Capital porque foi muito mal votado nos chamados “bairros nobres”.

Muito bem: os “bairros nobres” da Serra, onde se concentram as classes A e B*, foram exatamente aqueles onde Vidigal perdeu, de virada, a eleição para Audifax Barcelos (Rede) em 2016.

Nas classes A e B, numa disputa direta contra um candidato com perfil mais “técnico” que o dele – como o próprio Audifax –, o pedetista tende a ter os seus mais fracos resultados, por ser considerado detentor de um perfil mais “populista”. Para o eleitor das classes A e B, Audifax era um candidato mais interessante porque, no imaginário popular, tem um perfil mais técnico e de “gestor” que Vidigal.

Já com Amaro na disputa, a situação pode se inverter: a rejeição das classes A e B, que antes recairiam sobre Vidigal, pode migrar para o outro deputado federal. E, por eliminação, esse eleitor pode engolir em seco e votar em Vidigal, que pode, assim, se beneficiar desse voto por exclusão.

Ao lado de Audifax, Vidigal seria “o populista de esquerda”, “o assistencialista”. No confronto com Amaro, pode virar o político experiente e já testado que já governou a Serra por três mandatos (sendo os dois primeiros bem avaliados). E a pecha de “populista” pode pular para Amaro: um populista de direita (ou sem lado bem definido).

Resumindo: segundo esse ponto de vista, populista por populista, o eleitor da Serra pode preferir votar no candidato que é mesmo da cidade e que já a governou três vezes a votar num candidato outsider e sem histórico como gestor. Aliados de Vidigal apostam nisso.

Todas essas conjecturas só reforçam uma interrogação cuja resposta pode determinar o rumo dessa eleição: se de fato for candidato a prefeito da Serra, qual Amaro virá para essa disputa? Se vier “sério” demais, completamente repaginado, pode perder apelo junto às classes D e E – muito numerosas na Serra. Se pular das telas de TV diretamente nas ruas da cidade, despertará rejeição intransponível das classes A, B e C+.

Eis o dilema.

* Classes A e B: Há duas maneiras de caracterizá-las. A primeira é pelo chamado "critério Brasil", mais adotado de modo geral em pesquisas de intenção de voto no país, que considera a posse de bens do indivíduo. A outra é pelo critério de renda. Nesse caso, a classe A/B engloba moradores com renda mensal superior a mais ou menos R$ 5 mil. Dá substancial diferença. Pelo primeiro critério (bens), a classe A/B, na Serra, representa 27% da população atual do município; pelo segundo (renda), corresponde a 12% da população serrana.

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