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Eleições 2020

O cenário eleitoral em Vitória após uma semana de campanha na TV

A propaganda de Coser até aqui se resume a uma palavra: legado. Enquanto isso, Gandini e Pazolini co-estrelam um duelo à parte, enquanto Mazinho está batendo em todo mundo

Publicado em 17 de Outubro de 2020 às 05:00

Públicado em 

17 out 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

A luta eleitoral em Vitória
A luta eleitoral em Vitória Crédito: Amarildo
Gandini Pazolini se esgrimindo, num duelo à parte de indiretas, totalmente focados um no outro, como se não houvesse mais ninguém em cena. Um Nylton que faz mais pontaria em Gandini e na atual administração. Mazinho a espetar os dois primeiros com a ponta do seu sabre, enquanto também procura atingir João Coser e Assumção. Este concentrado em cutucar o ex-prefeito petista e todos os adversários que considera de esquerda ou “comunistas”.
Um João Coser que, por sua vez, mantém-se indiferente a esses ataques e à existência de qualquer adversário: numa campanha autocentrada, limita-se a falar de suas realizações como prefeito da cidade. Fechando o quadro, alheios à briga dos outros, Neuzinha e Sérgio Sá se mostram mais preocupados em se apresentarem melhor ao eleitorado.
O quadro acima é um resumo do tom da campanha até aqui e do que foi, nesta primeira semana, a propaganda de rádio e TV dos candidatos a prefeito de Vitória. Por terem as duas maiores coligações e, portanto, o maior tempo de TV, Gandini e Pazolini sobressaem nos blocos de 10 minutos do horário eleitoral. E o destaque até agora recai sobre a guerra de nervos e de indiretas que já tem se estabelecido entre eles, às vezes de modo sutil, outras vezes nem tanto.
Numa contenda pessoal e paralela, os dois estão se dedicando a um jogo de gato e rato, bate e rebate, morde e assopra. O programa do candidato da situação vem sempre após o de Pazolini, separado pelos 10 segundos de Gilbertinho do PSOL.
Num dia, Pazolini leva ao ar um programa sobre segurança pública e pinta um cenário de calamidade pública; no mesmo dia, praticamente em seguida, Gandini desenha um cenário de excessiva tranquilidade e destaca a redução de homicídios nos últimos anos na Capital, graças a projetos que ele ajudou a implantar, como o Cerco Inteligente e o Bairro Iluminado.
Para falar de educação, Pazolini mostra a desigualdade entre as escolas municipais na avaliação do Ideb e cobra a conclusão da eterna obra de uma unidade em Inhanguetá. No mesmo bloco, Gandini encerra seu programa prometendo a conclusão da referida escola. Parece até que eles combinam antes.
De certa maneira, o programa de Gandini tem sido quase uma resposta, uma reação antecipada ao de Pazolini, a fim de neutralizar o efeito das críticas do adversário à gestão de Luciano Rezende, representada por ele nesse pleito.

AZAR NO SORTEIO

A ordem de veiculação dos programas foi definida antes pelo TRE, por sorteio. Na verdade, podemos dizer que Pazolini (10% na pesquisa Ibope/Rede Gazeta) deu até certo azar, pois sua estratégia teria impacto maior se, em vez de imediatamente antes, seu programa fosse exibido logo após o de Gandini (22% no Ibope).
Nesse caso, em vez de “Pazolini morde, Gandini assopra” ou “Pazolini bate, Gandini rebate/alivia”, poderíamos estar assistindo a um “Gandini diz algo, Pazolini retruca que não é bem assim…”. Com Gandini entrando depois, é como se este tivesse sempre a última palavra nesse “debate televisivo”.

MAZINHO, O FRANCO-ATIRADOR

Até agora, para quem vai o título de “metralhadora giratória” dessa eleição em Vitória? Errou quem respondeu Assumção. O troféu por ora é todo de Mazinho dos Anjos. Em sua campanha, o vereador tem batido em tudo e em todos (inclusive em Assumção). Já disse que os adversários são todos farinha do mesmo saco, representantes da velha política e que o eleitor já viu esse filme. Chegou a sugerir (sem citá-lo nominalmente) que Gandini não passa de um “poste”.
A pesquisa Ibope/Rede Gazeta publicada na última terça-feira (13) traz Mazinho em 7º lugar, com apenas 3% das intenções de voto na estimulada. Os líderes, Coser e Gandini, têm 22%. Tradicionalmente, a estratégia de adotar tom mais agressivo é adotada por quem larga atrás e precisa ganhar muito terreno em pouco tempo. Pode ter êxito, ao menos parcial, mas é arriscada: não raro volta-se contra o autor, pois pode despertar a antipatia do eleitor.

COSER: LEGADO ESFREGADO

Enquanto isso, a propaganda de Coser se traduz em três palavras: legado, legado e legado. O petista é apresentado, sem modéstia, praticamente como o melhor prefeito da história da cidade. “O que seria de Vitória sem João?”, pergunta o locutor, em off, na abertura dos programas. E tome lembranças de entregas feitas por ele enquanto governou a Capital, de 2005 a 2012. “Dá pra imaginar Vitória sem João?”, continua o locutor.
O que não dá para imaginar é uma propaganda sem o próprio candidato. A marqueteira Bete Rodrigues está tirando Coser de cena. Quer dizer, ele até “aparece”, mas em imagens de arquivo e por meio de suas realizações (muitas imagens, sobretudo aéreas, de obras executadas em sua administração). É como se a mensagem fosse a de que seu legado fala por si.
Vídeo nunca foi mesmo o forte de Coser. Na quinta, pela primeira vez, ele apareceu lendo um texto. Não ficou bom. No dia seguinte, ele já “sumiu” de novo.
O que também tem sumido da propaganda e de toda a campanha do ex-prefeito é o PT, sua história de quatro décadas no partido, como cofundador no Estado, e sua ligação orgânica com a esquerda. A logo dele é vermelha, mas a estrela do PT ficou colorida.
Estão faltando também propostas e acenos para o futuro. Até agora, só legado. De fato, o candidato tem muitos feitos para mostrar. Mas feitos, feitos estão. Não poderá falar do passado para sempre.

NEUZINHA E SÉRGIO SÁ: "MUITO PRAZER"

Enquanto isso, não tão conhecidos pela massa de eleitores (sobretudo o primeiro), Sérgio Sá e Neuzinha passaram a primeira semana inteira praticamente só se apresentando ao público. Por ora, no máximo convenceram que ele foi um bom secretário de Obras e Habitação e ela, uma vereadora muito produtiva. É hora de entrar com as propostas.

NYLTON RODRIGUES: SEM GRANA PÚBLICA

Com pouquíssimo tempo de propaganda, o coronel tem apresentado propostas em pílulas e deixou bem claro desde o início que não usa recursos públicos de campanha e tem raiva de quem usa.

ASSUMÇÃO: CORTE LOUCO

Após quase uma semana de “ausência” no horário eleitoral (teve problemas na produção dos programas), Assumção enfim surgiu, na última quinta-feira (15), trajando uma camisa amarela (de farda não pode mais, por decisão judicial). Fez uma fala meio preventiva, dizendo que sofrerá muitos ataques ao longo da campanha.
Como tem bem pouco tempo na TV, seu texto precisou ser cortado, mas a edição deixou a mensagem truncada: ele diz que, em 2018, “falaram o mesmo de Bolsonaro”, mas não diz o que foi que falaram. Recuperando o vídeo sem cortes em suas redes sociais, descobrimos: o candidato diz que, em 2018, chamaram Bolsonaro de louco e que agora também assim o chamarão.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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