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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Estratégia eleitoral: Pazolini já definiu seu alvo fixo em Vitória

Ignorando totalmente João Coser, deputado tem se empenhado em apontar problemas da atual administração e em vincular Gandini a Luciano Rezende. Para chegar ao 2° turno, ele precisa ultrapassar Gandini ou Coser

Publicado em 15/10/2020 às 18h01
Delegado Lorenzo Pazolini, deputado estadual pelo Repblicamos
Delegado Lorenzo Pazolini, deputado estadual pelo Repblicamos. Crédito: Lissa de Paula

Está muito claro para todos: na campanha a prefeito de Vitória, o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos) tem um alvo certo, bem definido, que atende por Fabrício Gandini (Cidadania).

Na propaganda eleitoral, o delegado tem apresentado propostas concretas, é bom que se diga, mas não tem se limitado a isso. Ao lado da parte mais propositiva dos programas em áreas como segurança e educação, o deputado do Republicanos tem reservado muitos segundos para enfatizar problemas da cidade e da atual administração, buscando gradativamente associar Gandini (obviamente, sem citá-lo) ao prefeito Luciano Rezende (Cidadania), mentor político e principal apoiador do adversário.

Ao vincular Gandini a Luciano, Pazolini também objetiva associar o oponente aos problemas apontados por ele, jogando na conta de Gandini, por exemplo, como ex-secretário municipal de Planejamento e sócio majoritário que é da gestão de Luciano, questões como a recente onda de violência em Vitória e a desigualdade entre as escolas da rede municipal no ranking do Ideb.

A estratégia escolhida por Pazolini obedece à lógica e encontra fundamentos, por exemplo, na primeira pesquisa A Gazeta/Ibope sobre a eleição à Prefeitura de Vitória. Publicada na última terça-feira (13), a primeira sondagem da série mostra que, a pouco mais de um mês para o 1º turno, Gandini e Coser despontam com 22% das intenções de voto no cenário estimulado (quando a lista de candidatos é apresentada aos entrevistados), enquanto Pazolini aparece em 3º lugar, com 10% das intenções de voto.

De todos os concorrentes diretos de Gandini e Coser, o delegado e deputado é quem larga em melhor posição na corrida contra o tempo para alcançar os dois líderes. A questão é: para avançar ao 2º turno, ele não precisa ultrapassar Gandini e Coser. Basta que supere um deles. Como eu mesmo já discorri aqui, Pazolini e os demais, se quiserem ter alguma chance na disputa, precisam tentar desidratar de algum modo quem se encontra à frente. Mas dividir munição entre os dois líderes pode não ser muito producente nem muito inteligente.

Para citar um exemplo de como dividir o foco (e o fogo) pode ser ineficaz para quem vem atrás, Geraldo Alckmin (PSDB) tinha muito tempo de TV na eleição presidencial de 2018. Sua campanha se bifurcava em críticas (a meu ver, corretas no teor) tanto ao lulista Haddad como ao radical de direita Bolsonaro. Numa disputa muito polarizada, o tucano ficou à deriva, no meio do caminho, e sua candidatura desmoronou na reta final.

Assim, claramente, Pazolini já fez a sua escolha: quem está na sua alça de mira é o candidato da situação. Enquanto trata de minar Gandini para ultrapassar o pupilo do prefeito, o delegado ignora completamente a existência de João Coser em sua campanha até aqui. Tem deixado que Assumção se encarregue de bater no candidato do PT, pelo flanco do embate ideológico entre direita e esquerda.

Vai daí que os primeiros programas de Pazolini já foram permeados por alfinetadas endereçadas a Gandini. E é ainda mais interessante notar que, por sua vez, o candidato da situação tem aceitado o desafio e devolvido algumas alfinetadas – no caso dele, mais subliminares, mas também com endereço certo –, à parte o tom propositivo que também prevalece em seu programa.

E, por um lance do acaso (sorteio do TRE), essa troca de indiretas se faz ainda mais palpável porque os programas de Pazolini e Gandini vão ao ar praticamente em sequência em quase todos os blocos, exibidos nessa ordem e separados apenas pelos 10 segundos de tambores africanos na vinheta de Gilbertinho Campos, do PSOL.

Com cada qual esticando a corda para o seu lado, o contraste entre os programas é acintoso. O cenário pré-apocalíptico do programa de Pazolini dá lugar a uma nuvem rosa no de Gandini. Duas cidades em uma (e não estamos falando aqui da desigualdade social, também muito presente em Vitória).

Para falar de segurança pública, Pazolini levou ao ar reportagens sobre casos recentes de violência que chocaram a cidade, como a chacina de quatro jovens na região de Santo Antônio e a execução de duas pessoas em um carro no Centro. Pelo tom, como disse um colega meu em conversa privada, passou a impressão de que, se você mora em Vitória hoje, corre o risco de tropeçar em corpos na calçada ao sair de casa. Mas é claro que a violência existe, assusta e não pode ser minimizada.

Pazolini jogou nas costas de Luciano e, por tabela, de Gandini, o episódio das execuções sumárias em uma ilha da Grande Santo Antônio: “Ninguém viu o prefeito e seu candidato junto à comunidade”.

Após o break para o batuque do PSOL, sucedeu-se Gandini, falando de redução de índices de violência em Vitória graças a programas que ele ajudou a implantar como secretário, a exemplo do Cerco Inteligente e do Bairro Iluminado, e emendando propostas de ampliação do uso da tecnologia na prevenção e combate ao crime.

Nesta quarta-feira (14), pela primeira vez, modulando o tom, o candidato da situação admitiu que nem tudo é tão perfeito, após enumerar prêmios e áreas nas quais Vitória se destaca nacionalmente: “Mas a gente ainda tem problemas. Precisamos cuidar mais da segurança, por exemplo”. E emendou: “Como nas cidades mais avançadas do mundo, vou usar tecnologia para combater o crime”.

Já nesta quinta-feira (15), a justaposição dos programas gerou uma situação até um pouco engraçada: parece até que os dois combinaram. É 15 de outubro, o Dia do Professor; natural, portanto, que ambos abordassem o tema educação. Até aí tudo bem.

Mas Pazolini fez uma cobrança dura pela não conclusão da obra, que se arrasta há anos, de uma escola municipal no bairro Inhanguetá. No programa de Gandini, ele listou uma série de propostas e compromissos de campanha para a área e, no finalzinho, arrematou: “E vamos concluir a escola em Inhanguetá”.

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