Nessa condição, Dary será pessoalmente responsável por montar a escalação de todas as comissões, incluindo os respectivos membros e presidentes. Será dele a palavra final. É um poder considerável. Logo abaixo da Mesa, o que os deputados mais ambicionam é a presidência das comissões, não só pela influência política conferida pelas mais importantes como também pelos cargos conferidos por todas elas. Mas esse “poder considerável” não é só de Dary, individualmente. Por intermédio de seu líder em plenário, quem passa a ter evidente influência na definição das comissões é o próprio governo Casagrande.
E o Palácio Anchieta não quer brincar em serviço. Através da ação de Dary, vai procurar emplacar uma mão cheia de aliados, com 100% de “aproveitamento”, sem espaço para opositores nem “deputados independentes” na presidência das comissões mais relevantes.
A presença hegemônica de governistas (logo, do próprio governo) nas comissões sobressai, de cara, daquelas que são consideradas as três mais importantes, porque, basicamente, quase todos os projetos passam por elas: a de Justiça, a de Finanças e a de Cidadania. As três devem ficar sob a presidência de soldados da linha de frente da tropa política de Casagrande.
A de Justiça deve continuar sob a presidência de Fabrício Gandini (Cidadania), que guarda a posição estratégica desde fevereiro de 2019. Já a de Finanças, com a eleição de Euclério Sampaio (DEM) para a Prefeitura de Cariacica, deve passar para as mãos de Freitas (PSB), ex-líder de Casagrande em plenário e considerado o deputado pessoalmente mais leal ao governador. Na de Cidadania, uma mudança importante no horizonte: com o retorno de Enivaldo dos Anjos (PSD) à Prefeitura de Barra de São Francisco, o novo presidente tende a ser o deputado Luciano Machado (PV), também no rol de deputados mais identificados com o governo.
A presença dessa tríade no comando das três comissões mais destacadas não é coincidência: os três (ao lado de outros como Majeski, Iriny Lopes e o já citado Dary) posicionaram-se do lado do governo e contra Erick Musso quando este antecipou, em 27 de novembro de 2019, exatamente essa eleição realizada nesta segunda-feira – em votação prematura posteriormente cancelada.
Aí vêm as outras comissões e os respectivos favoritos para ocupar a presidência.
A de Saúde continuará com Hércules Silveira (MDB). A de Infraestrutura continuará com Marcelo Santos (Podemos). A de Cultura irá para Iriny Lopes (PT).
A de Educação, hoje presidida por Vandinho Leite (PSDB), tem boas chances de seguir para as mãos de Bruno Lamas (PSB). Apesar da recente reaproximação política, Vandinho foi um dos mais duros opositores ao governo em plenário nos últimos dois anos, enquanto Bruno é correligionário de Casagrande, além de pleitear há muito tempo, sem sucesso, o comando dessa comissão.
Na de Agricultura, há uma dúvida entre Marcos Garcia (PV) e a atual presidente, Janete de Sá (PMN), mas ambos são deputados da base de Casagrande.
DISPUTA NA DE SEGURANÇA PÚBLICA
Na de Segurança Pública, aí, sim, podemos dizer que há uma disputa de verdade: de um lado, o atual presidente, delegado Danilo Bahiense (sem partido), que não quer deixar o posto; do outro, Luiz Durão (PDT), que acaba de retornar à Assembleia.
Nos últimos dois anos – primeira metade do mandato dos atuais deputados e do atual governo Casagrande –, Bahiense deu algum trabalho ao Executivo, como presidente do colegiado. Frequentemente, convocava para audiências o secretário de Estado de Segurança, os chefes das polícias e outros representantes do governo na área de segurança pública. Em entrevista a esta coluna no fim de 2019, Bahiense fez críticas contundentes à gestão da área no Estado. Para culminar, foi eleito em 2018 pelo PSL, na chapa “Manato/Bolsonaro”, em oposição a Casagrande.
Enfim, na Comissão de Segurança, Bahiense é um presidente combativo. Por motivos óbvios, agora que está com a faca e o queijo na mão, o governo quer acabar com isso, cortando as asas e o raio de ação do delegado. A alternativa a ele é Durão, que tem interesse no cargo e que o governo deseja emplacar, apesar do histórico de polêmicas do pedetista, como a acusação de estupro contra uma menor de idade, em janeiro de 2019 (caso do qual foi inocentado em 1ª instância pela Justiça estadual).
Ou seja, entre elevar a chefe da Comissão de Segurança um deputado mergulhado em polêmicas e permitir a manutenção no cargo do delegado que pode lhe dar trabalho, o governo prefere, sem hesitar, a primeira alternativa. Tanto que, para compensar Bahiense e chegar a um entendimento com ele, Dary Pagung já lhe ofereceu a presidência da Comissão Antidrogas (criada em 2019 sob medida para Lorenzo Pazolini, agora prefeito de Vitória). O lugar está vago, e Bahiense, que tem ótima relação com Dary, está avaliando a oferta.
Isso é uma prova definitiva do que mencionei acima: o governo não está brincando em serviço e, na composição das comissões, fará o possível para sufocar a oposição e não deixar nenhuma brecha para algum “independente” se criar nos próximos dois anos, transformando uma dessas comissões em palanque contra o governo.
Nesse sentido, tão importante quanto a presidência ou até mais é a escalação completa de cada comissão. Diferentemente do presidente da Mesa, o presidente de uma comissão não concentra muito poder. Pelo Regimento Interno, tudo ali (incluindo-se convocações de secretários de Estado) tem que ser submetido à votação dos demais membros do colegiado.
Dessa forma, mesmo que eventualmente um “deputado independente” ocupe a presidência de alguma comissão (como, digamos, Bahiense pode ocupar a Antidrogas), isso pouco adianta para ele se o governo conseguir formar naquele órgão maioria para barrar qualquer iniciativa que não lhe interesse.
E é exatamente nesse intuito que o governo deve trabalhar nos próximos dias, via Dary Pagung: espalhar aliados nas presidências das comissões e, ao mesmo tempo, garantir maioria em todas elas.
RÁPIDA: O "BEIJA-MÃO" E DAVI DINIZ
Na sessão da eleição da Mesa, o governo Casagrande não mandou nenhum representante, nem mesmo o secretário-chefe da Casa Civil, Davi Diniz. Seria "dar bandeira" demais, após uma eleição marcada pela interferência aberta do Palácio Anchieta. Logo após a sessão, no entanto, os sete deputados que formam a chapa eleita foram ao encontro do governador, no Palácio Anchieta, para o "beija-mão". Nesta terça-feira (2), na sessão solene para a instalação dos trabalhos, a parir das 15 horas, o governo se fará representar por Davi Diniz.