2021 será um ano muito tranquilo para
Renato Casagrande na
Assembleia Legislativa. O governo tende a flutuar ali, sem obstáculos, pelo menos até o início das movimentações eleitorais do ano que vem. É o que se pode concluir da sessão desta segunda-feira (1º) para a eleição da Mesa Diretora que comandará a Assembleia pelos próximos dois anos. Na eleição da Mesa e nos seus desdobramentos, o governo, no fim, “perdeu ganhando”. Não cortou as costeletas de
Erick Musso (marca visual do presidente da Assembleia), mas, tirando isso, fez barba, cabelo e bigode, incluindo
as juras públicas de lealdade por parte de Erick, a
formação final da nova Mesa Diretora e a provável composição das comissões mais importantes da Casa.
Erick era o candidato do governo Casagrande no início das articulações? Não era. Sua reeleição era o quadro ideal para o Palácio Anchieta? Também não era. Mas, seja por pragmatismo de Casagrande, seja por pura incapacidade do governo na articulação política, Erick conseguiu prevalecer e permanecer na presidência por mais dois anos, em um acordo fechado com Casagrande – o qual passa até por apoio político do Republicanos ao governador visando à próxima eleição estadual. Nesse acordo, os dois lados cederam, mas o preço para Erick não foi barato.
O governo aceitou “endossar” a reeleição de Erick; em troca, o presidente aceitou ceder poder, em proporção considerável, para a tropa de choque do governo no comando da Casa e em outros espaços de influência. Basta olhar o desenho final da nova “distribuição de poder” por ali: afora Erick na presidência, o governo conseguiu emplacar seus melhores aliados em praticamente 100% dos cargos-chave, a começar pelo resto da Mesa. Em volta do presidente, “só tem governo”.
Como 1º secretário, nº 2 na hierarquia da Mesa Diretora, temos agora ninguém menos que o líder do governo no plenário,
Dary Pagung (PSB), que continuará exercendo a liderança. De tão próximo a Casagrande politicamente, ele chegou a ser cotado para ser lançado pelo Palácio Anchieta no lugar de Erick, em meados de janeiro.
A presença de dois aliados escolhidos a dedo pelo Palácio Anchieta para ladear ou “cercar” Erick na Mesa ganhará ainda maior importância a partir do cumprimento, por parte do presidente reeleito, de outra parte do seu acordo com Casagrande.
Nos próximos dias, como líder do blocão, Dary é quem ficará encarregado de conversar e negociar os espaços com os pares, distribuindo-os pelos vários colegiados de acordo com os interesses de cada um (e, principalmente, com os do governo). Sua missão maior, logicamente, será escalar só aliados pesados de Casagrande nas posições estratégicas – a presidência das comissões mais importantes –, a fim de evitar qualquer “surpresa desagradável” para o governo, vinda dessas comissões, nos próximos dois anos.
Dary, a propósito, é seriíssimo “candidato” a novo homem com “superpoderes” na Assembleia Legislativa. Até a conclusão de sua “tarefa” e da provável dissolução do blocão, o deputado de Baixo Guandu simplesmente vai acumular três funções das mais significativas no Legislativo estadual: ao mesmo tempo, será o 1º secretário da Mesa, o líder do governo no plenário e, como se não bastasse, o líder desse bloco partidário. Não me recordo de nada parecido no Legislativo estadual.
Na presidência do ex-deputado Cláudio Vereza (PT), de 2003 a 2005, encontramos um precedente de como, se assim quiserem, trabalhando de maneira coordenada, os dois secretários da Mesa podem limitar bastante os movimentos do presidente (se preservados, é claro, os seus poderes originais).
No início de 2003, Vereza chegou à presidência com o apoio do governador Paulo Hartung, recém-empossado. Esse apoio, por sinal, ajudou um pouco Hartung a obter do governo Lula (PT), também recém-iniciado, a antecipação de royalties do petróleo ao Espírito Santo para que o Estado pudesse colocar em dia a folha de pagamento do funcionalismo.
Porém, como 1º e 2º secretários, a chapa de Vereza eleita para comandar a mesa tinha, de um lado, Paulo Foletto (PSB) – então um grande aliado de Hartung, eleito em 2002 pelo PSB – e, do outro, Anselmo Tozi, aliado histórico de Hartung. Na prática, era uma Mesa bem hartunguista, muito sensível à influência emanada do Palácio Anchieta.