O presidente Jair Bolsonaro gosta de bananas. É uma de suas grandes fixações, no patamar do nióbio, da “ideologia de gênero” e da cloroquina. Em uma de suas primeiras “lives de quinta-feira”, em março de 2019, manifestou sua indignação sincera com o fato de o Brasil estar importando bananas do Equador, em prejuízo de produtores do Vale do Ribeira (onde passou a maior parte da infância), como se o tema estivesse no topo da pauta de preocupações da Presidência da República. E estava mesmo. Bananas. Do Equador.
Como é notório, o presidente também possui o péssimo hábito de distribuir bananas para jornalistas que cobrem o Planalto – como se o gesto grosseiro fosse normal e aceitável, ainda mais partindo de um presidente.
Não vou nem falar das “bananas” dadas por Bolsonaro, às pencas, para a educação, o meio ambiente, a cultura, a diplomacia, o respeito devido a minorias… Nem mencionarei as “bananas” que ele tem distribuído às atribuições da Presidência, à coerência, ao decoro, à dignidade do cargo, à democracia, ao seu próprio discurso anticorrupção… Hoje, inaugurando a série “República das Bananas”, quero me ater à maior de todas as bananas da Presidência de Jair Bolsonaro: aquela que ele dá, diariamente, para a vida humana.
Essa banana se manifesta na insistência doentia do presidente em conservar a atitude negacionista e refutar a gravidade da pandemia do novo coronavírus. O número crescente de mortes por dia no Brasil, debaixo do nariz presidencial, deveria bastar para fazê-lo enxergar e admitir o óbvio: que ele errou miseravelmente em seu julgamento inicial.
Começou tratando a questão como uma “gripezinha”, falou em “histeria”, em “alarmismo”, em “fantasia da mídia”, em exagero, disse que ia dar uma festinha de aniversário, criticou a suspensão de campeonatos de futebol, jogou-se inúmeras vezes nos braços da multidão, não mostrou o próprio teste para Covid-19… Para este sábado, segundo ele mesmo, programou um churrasco.
Em 28 de abril, no cúmulo do deboche com as vidas dos milhares de brasileiros ceifadas por essa pandemia, ao ser novamente questionado sobre a escalada dos óbitos, saiu-se com um cínico “e daí?”: um tiro de fuzil na cara das vítimas, das famílias enlutadas, dos profissionais de saúde e de todos os brasileiros que se empenham de verdade na luta contra a pandemia enquanto ele fica lá, em sua galáxia à parte, no fantástico mundo do Jair, a discursar domingo sim, o outro também, para apoiadores fanáticos que pedem o fechamento de Poderes.
Veja Também
É de uma crueldade terrível. Nenhuma palavra autêntica de solidariedade e conforto às vítimas. Nenhuma manifestação, até agora, que demonstre a mais remota preocupação em preservar vidas humanas. Nenhuma atitude pessoal nesse sentido. Ao contrário. Voluntariamente alienado da realidade e completamente isolado até no regimento geopolítico do qual faz parte – o de governantes populistas de direita mundo afora –, Bolsonaro, com sua teimosia irresponsável, sabota diariamente os esforços verdadeiros do seu próprio governo e de outras autoridades constituídas no país para conter a proliferação da doença sem cura.
Historiadores poderão se debruçar à vontade em livros e arquivos. Será difícil encontrar, na história do Brasil, precedente de um caso tão explícito de um presidente trabalhando contra o próprio povo que o elegeu. O desprezo e a banalização com que ele trata a vida dos brasileiros chegam a ser criminosos.
“Não vão botar no meu colo uma conta que não é minha”, fugiu ele, em 29 de abril. Por óbvio, a pandemia não é sua culpa nem sua responsabilidade. Agir para conter seus estragos, sim; minimizar a mortalidade causada por ela, sim. Aliás, como presidente da República, ninguém teria mais poder que ele para tomar medidas práticas e direcionar os esforços coletivos no rumo certo. O que ele prefere fazer, no entanto? Dar declarações e exemplos equivocados; tomar decisões ainda piores.
Pensemos em algo elementar: imagine a diferença que faria uma campanha publicitária maciça de conscientização, assinada pelo governo federal, sobre a importância do isolamento social como medida temporária, mas essencial neste momento, para a proteção da saúde dos cidadãos. Mas alguém até agora viu campanha como essa? A única que o governo ensaiou lançar, ao custo de R$ 4 milhões – e, felizmente, embargada pela Justiça –, seria para dizer que “o Brasil não pode parar”.
E a queda de Luiz Henrique Mandetta? À parte o jogo de vaidades políticas, quem de fato conseguiu compreender os motivos para a demissão de um ministro da Saúde com o país já embicando para o auge da pandemia? A troca inoportuna só gerou atraso certo no momento em que a rede de saúde menos poderia arcar com o custo de um segundo sequer de demora na articulação das medidas de enfrentamento à pandemia. E o novo ministro (felizmente) assumiu mantendo todo o discurso do anterior (isolamento social, lockdown, ciência etc…). É óbvio: que médico em sã consciência vai se filiar e fazer eco aos delírios bolsonaristas neste momento? E, de novo: por que a troca, então?
“Eu sou Messias, mas não faço milagre”, esquivou-se Bolsonaro, no dia 28. À parte a piadinha dispensável, não precisa fazer milagres. Começar a agir como presidente já seria muito bom. Não se esperam salvadores da pátria nem milagreiros naquele gabinete. De um presidente, na verdade, espera-se um verdadeiro líder. E liderar o país de verdade é algo que ele se recusa a fazer.
Assim, desdenhando não só da pandemia, mas das vidas levadas por ela, Bolsonaro se mostra, a cada dia, não só um político ruim. Não só um presidente ruim. Revela-se, acima de tudo, um ser humano terrível e cruel. No momento em que mais precisaríamos ser liderados por um governante com profundo sentimento humanitário, temos… Jair (E daí?) Bolsonaro. Para a desdita deste país já suficientemente desditoso.
A IDEOLOGIA DA MORTE
Bolsonaro é síntese e personificação da ideologia do ódio. É o produto mais bem-acabado de uma ideologia baseada em violência, preconceito e desrespeito. Quase tudo o que pensa e diz manifesta um desses três vértices, quando não os três reunidos.
Mas isso ainda diz pouco.
Conforme se passam os dias e o pensamento de Bolsonaro se faz verbo, fica mais e mais evidente que a sua ideologia não é somente a do ódio, nem somente a da violência, nem somente a do preconceito e do desrespeito… Bolsonaro representa, antes de tudo, a ideologia da morte. É um governo que já nasce sob o signo de tânatos. Boa parte do que pensa, diz e faz parece atender a uma pulsão de morte; um desejo compulsivo, irreprimível, de destruição (inclusive, de autodestruição).