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Cordel Político

Sergio Moro versus Bolsonaro: de casamento do século a duelo do século

Agora o Supremo abriu inquérito / Quer apurar direito isso daí / Sergio Moro, o juiz pretérito / Agora é a “acusação” contra o Jair / Tem pedidos de impeachment, CPI... / Certeza: o casamento já acabou / Agora é ver se a casa vai cair

Publicado em 03 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

03 mai 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Sergio Moro em duelo com Bolsonaro
Sergio Moro em duelo com Bolsonaro Crédito: Amarildo

Começou de um jeito meio estranho
Este grande casamento arranjado
Jair tivera indiscutível ganho
Com certa decisão do magistrado
Sendo ou não sendo imparcial,
O fato é que o processo eleitoral
Foi por Moro influenciado

Em vez de manter equidistância
O então juiz, mesmo assim,
Aceitou, sem nenhuma relutância,
A proposta do Jair, lhe disse “sim”
Para mudar de Poder e de instância
Ser ministro da Justiça e Segurança
À carreira de juiz colocou fim

“Tacada de mestre do bilhar!”,
Comentou-se sobre o Jair, então,
Fez o olho do seu eleitor brilhar
Transferindo para a própria gestão
O prestígio e o selo da Lava Jato
Indicando ter compromisso, de fato,
Com o enfrentamento à corrupção

E Moro, o que ganhou com o matrimônio
Além de pôr em risco seu legado
Ou seja, ameaçar seu patrimônio
E lançar suspeitas sobre seus julgados?
Talvez, ver aprovado seu pacote
E depois retomar, ainda mais forte,
No Supremo, a carreira de togado

O cupido nesta história, o Santo Antônio
Foi o Paulo Guedes, Posto Ipiranga
No altar, ao celebrarem o matrimônio,
Jair prometeu a Moro “carta branca”
O insólito casal selou as bodas
E Moro, com essas garantias todas,
Decidiu, então, arregaçar as mangas

Mas logo se viu que algo ia mal
A alegria deu lugar a tretas
E o acordo pré-nupcial
Jamais foi seguido ao pé da letra
Durou bem pouco a lua de mel
Logo se transformou num mar de fel
E a aliança, posta na gaveta

Nesse casamento de fachada
Algo entre os dois não estava certo
A tal “carta branca” foi rasgada
Chegou, aliás, com “poder de veto”
Nomeação de Moro revogada:
Sua escolhida foi “desnomeada”
E ele teve que engolir, quieto

Moro encaminhou, sem perder tempo,
Para o Congresso o seu pacote
Com o chefe foi ver o Flamengo
E vestiram o mesmo uniforme
Mas não estavam bem no mesmo time
Jair só bocejou pro anticrime
E a verba de Moro sofreu cortes

E o que dizer, então, do Coaf?
Também tá lá no pré-nupcial:
Moro, para reforçar o combate,
Queria o órgão ali no seu quintal
Mas uma vez mais houve um problema:
Ele não leu as letras pequenas
O órgão foi para o Banco Central

Em agosto, a seu contragosto,
O conje quis trocar, de repente,
O chefe da Federal, posto no posto
Por Moro, e alguns superintendentes
Sem nenhum motivo aparente
Além, é claro, de blindar parentes
O ministro externou desgosto…

O conje, então, lhe esclareceu:
“A BIC mais forte é a minha
Quem manda nesta casa aqui sou eu!
Da Inglaterra não serei rainha”
Dessa vez não usou a caneta
A PF, então, ficou ilesa
Mas e quanto ao poder que Moro tinha?

Em janeiro Jair ameaçou
Separar em dois seu ministério
Já havia acabado o amor
O que seguia sendo um mistério:
O silêncio que gritava alto
Do paladino da Lava Jato
Sobre o Queiroz e rolos mais sérios…

Até que chegou o mês de abril
E, em plena crise da pandemia,
Jair por sua conta decidiu
Trocar o chefe da PF, à revelia
De Moro, que, após ser tão minado,
Pelo conje (e por si mesmo) apequenado,
Decidiu que esse sapo não engolia!

Aquela foi, pra ele, a gota d’água
O ministro se demitiu do cargo
E, após engolir tanto sapo e mágoa,
Abriu o jogo: “Bombas aqui trago!”
Não foi nada amigável o divórcio
Fez acusações sobre o ex-sócio
Que lhe causaram um imenso estrago

“Por que trocar o comando da PF?”
O próprio Moro respondeu à questão
O seu ex-conje e também ex-chefe
Quer controlar a instituição
Leia-se: obstruir inquéritos
Que possam atingir no coração
A ele, a seus filhos e a seu séquito

Jair deseja ter pleno controle
Botando ali “gente de confiança”
Que possa proteger a sua prole
Afastar o perigo das “crianças”
Passar-lhe informações diretas
Sobre as investigações abertas
Dançar conforme ele ditar a dança

Quer ter relatórios pessoais
E olha que os inquéritos são vários!
Tem rolo ali que não acaba mais:
No Rio, a rachadinha do Flávio
No Supremo, fakes do Edu e do Carlos
O estímulo a atos antidemocráticos
Vai ser longo o resumo diário...

No pronunciamento em sua defesa
(Piscina, Adélio, Marielle, Inmetro…)
Jair fez fala sem pé nem cabeça
Mas quase confirmou que o ex tá certo:
Pretende controlar a PF, sim!
Quer mesmo interferir, mas e daí?
E acha bem normal que seja assim…

Também acusou o seu ex:
“Negociou vaga no STF!”
O carbonário Moro, por sua vez,
Mostrou algo que desmente o ex-chefe
Deputada lhe fazendo uma “oferenda”
E ele dizendo “não estou à venda”
(Isso porque é padrinho da Zambelli...)

Agora o Supremo abriu inquérito
Quer apurar direito isso daí
Sergio Moro, o juiz pretérito
Agora é a “acusação” contra o Jair
Tem pedidos de impeachment, CPI...
Certeza: o casamento já acabou
Agora é ver se a casa vai cair

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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