O governador Ricardo Ferraço (MDB) é canhoto. O deputado Helder Salomão (PT) é canhoto. Até a apresentadora Rafaela Marquezini é canhota. Num estúdio com apenas quatro pessoas, o ex-prefeito Lorenzo Pazolini era o único destro – algo digno de nota por si, pois em geral pessoas canhotas são a minoria na sala.
No debate da TV Gazeta na noite de terça-feira (30), o último antes do 1º turno no próximo
domingo (4), a “destreza” do candidato do Republicanos e seus resultados à
frente da Prefeitura da Vitória estiveram sob questionamento como nunca antes. O
mesmo vale para o comportamento político de Pazolini.
O debate foi seguramente o mais acalorado dos quatro
encontros que os três candidatos a governador tiveram ao longo da campanha. Em
grande parte do tempo, foi centrado no município de Vitória, tanto que, em dado
momento, parecia que estávamos a assistir a um debate para prefeito da Capital.
Pazolini ficou na defensiva durante boa parte do duelo. Mais de uma vez, disse
que o que estava em discussão ali não era Vitória, e sim o Governo do Espírito
Santo.
É verdade, mas, a meu ver, o argumento contém certa
contradição, pois o cerne da estratégia de campanha do ex-prefeito, até aqui, é
justamente apresentar suas realizações em Vitória e a promessa de que, como
governador, levará para todo o Estado o que fez de bom na Capital. Em outras
palavras, ele mesmo sempre fala de Vitória (mas, por óbvio, positivamente).
Por isso, Ricardo foi para o estúdio da TV Gazeta nitidamente
determinado a buscar desconstruir o discurso de que Vitória seria uma ilha de
prosperidade e de bons indicadores socioeconômicos num Estado que, ao redor da
ilha, sofreria com uma série de problemas inexistentes na Capital. Buscou, por
assim dizer, mostrar o lado B desse discurso.
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Por sua vez, sem mudar sua estratégia em uma vírgula, Helder
foi um debatedor “quente”, atirando para os dois lados e distribuindo por igual
sua munição: ora criticava Ricardo, ora criticava Pazolini, ora criticava os
dois na mesma frase, ou, na resposta a um deles, pegava (ou criava) um gancho
para criticar também o outro, por tabela. Vamos voltar a falar de Helder.
Mas, em termos de mudança de estratégia, o que mais chamou a
atenção foi realmente a postura de Ricardo.
Nos bastidores, a campanha do governador virou uma chave
(até porque Pazolini vem crescendo e agora está em empate técnico com ele, como
revelou a última pesquisa Quaest para a Rede Gazeta). No debate da TV Gazeta, Ricardo
foi muito mais afiado e visivelmente predisposto a tomar a iniciativa de “ir
para cima” de Pazolini, desde o primeiro embate entre eles, no bloco inicial.
A estratégia incluiu algumas tiradas e frases de efeito,
como “Vou chamar o VAR para restabelecer a verdade”, e as expressões “Pazolândia”
(para dizer que o ex-prefeito viveria num mundo à parte, de uma Vitória fantasiosa)
e “caroneiro”, usada por Ricardo mais de uma vez para dizer que o ex-prefeito
só “pegaria carona” nos feitos de seus antecessores e do Governo do Estado, apropriando-se
do planejamento e dos créditos alheios.
Ricardo também rotulou o ex-prefeito como inexperiente, sem
conhecimento sobre o Espírito Santo e, enfaticamente, como um governante
isolado e “autoritário”, que, nas palavras do governador, não saberia
estabelecer relações políticas com quem pensa de modo diferente.
Evitando alguns confrontos diretos com Ricardo, Pazolini manteve-se
calmo na maior parte da contenda, falando mais baixo e mais devagar do que costuma
fazer e buscando transmitir serenidade ao público em casa. De fato, passou
tranquilidade (salvo em um momento de visível desconcerto).
Na investida mais aguda contra o governador, guardada para o
último bloco, o candidato do Republicanos trouxe à tona a crise da Apex
Partners, chamada por ele de “Master Capixaba”. Sem citar nomes, sugeriu que
Ricardo teria praticado tráfico de influência e insinuou até enriquecimento
ilícito.
Mas o ex-prefeito abordou o tema numa pergunta na verdade dirigida
a Helder, que concordou, categoricamente: “Houve tráfico de influência!” Ricardo
não pediu direito de resposta, e ficou por isso mesmo.
Nas interações com Ricardo, Pazolini também contra-atacou o oponente
com algumas estocadas, devolvendo-lhe a alcunha de “caroneiro”, ao dizer que
Ricardo na verdade só se tornou governador porque seu antecessor (Casagrande)
renunciou em abril, e não pelos próprios votos. Foi um bom momento do
ex-prefeito no duelo.
Pazolini também procurou apresentar Ricardo como um candidato
das elites, que “governa dentro do Palácio”, é empresário e tem R$ 28 milhões
(alusão ao patrimônio declarado à Justiça Eleitoral pelo governador, que é de
R$ 27,6 milhões).
Mas Ricardo, é preciso dizer, conseguiu algo muito raro na
trajetória política de Pazolini: desestabilizar o ex-prefeito. No segundo bloco,
em seu melhor momento no debate, o governador imprensou o desafiante nas
cordas. Numa blitz, chamou-o repetidamente de “autoritário”, enumerando uma
série de exemplos.
Ricardo recordou o episódio em que “Pazolini tirou o microfone
das mãos da sua então vice-prefeita, a Capitã Estéfane” e outro que ainda não
havia aparecido em nenhum debate anterior: o áudio de uma conversa telefônica
de Pazolini com o vereador Dalto Neves, relacionada à eleição da Mesa Diretora
da Câmara de Vitória, na qual o então prefeito, segundo Ricardo, fez “ameaças”
ao vereador (hoje apoiador do emedebista).
Pazolini acusou o golpe. Na réplica, sua voz vacilou – algo poucas
vezes testemunhado em sua vida pública, pois ele costuma falar de maneira firme,
segura e constante. Em sua defesa, o ex-prefeito afirmou que tanto um caso como
o outro foram “arquivados”.
Ainda na série de ofensivas contra Pazolini, Ricardo de cara o cobrou pelo fato de Vitória não ter nenhuma Unidade de Pronto Atendimento (em contraste, por exemplo, com a Serra), pela desaceleração do crescimento econômico de Vitória (em contraste com o crescimento do PIB do Estado e de cidades vizinhas) e pela colocação ruim da Capital, entre as 78 cidades capixabas, no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
Sobre a falta de uma UPA, Pazolini afirmou que a primeira
está em construção neste momento e que é preciso ter “humildade” para
reconhecer o que não foi possível entregar (insinuando que essa é uma virtude
que faltaria ao adversário). Sobre o Ideb, justificou que a nota de Vitória
ficou “congelada” por muitos anos, na gestão anterior à dele (a de Luciano
Rezende, aliado de Ricardo), mas que agora está voltando a crescer.
Em suas críticas ao atual governo, o ex-prefeito mencionou,
por exemplo, a superlotação do sistema penitenciário estadual, com a construção
de apenas um presídio pelo governo Casagrande, o desenvolvimento regional
desequilibrado e o déficit no preenchimento dos quadros da carreira da Polícia Civil.
Pazolini buscou se apresentar como um candidato que tem sensibilidade (nas
entrelinhas, ao contrário do oponente) para “cuidar das pessoas”.
Ricardo, por sua vez, apresentou a si mesmo como um
governante experiente, preparado, com currículo robusto, capacidade técnica e conhecimento
para governar.
Não se falou tanto de Espírito Santo, mas, nos momentos em
que enfocou o portfólio do atual governo, ele repetiu a palavra “transformação”,
destacando “os maiores investimentos da história do Estado”, o baixíssimo
desemprego, a atração de empresas importantes e o crescimento do PIB acima da
média nacional, além de dados como a expansão das escolas de ensino em tempo
integral, o Ideb do Espírito Santo entre os três melhores do país e a reposição
do efetivo da Polícia Civil e da Militar.
Disse, ainda, que a taxa de feminicídios, embora alta, tem
caído no Espírito Santo, enquanto em São Paulo (estado governado pelo
Republicanos), quase dobrou no mesmo período.
A postura quente e
bifocal de Helder
A postura de Helder foi um caso à parte. Sem nada a perder
(pois está muito atrás nas pesquisas), o petista em alguns momentos “roubou a
cena”. Como no debate anterior, promovido por A Gazeta e CBN Vitória,
encarregou-se de esquentar o frio estúdio da TV Gazeta (culpa do
ar-condicionado...).
E não teve essa de poupar Ricardo, não... Primeiro a perguntar, além de o chamar de “coadjuvante”,
Helder já começou esfregando na tela que o atual governador foi o relator da
reforma trabalhista do governo Temer no Senado, em 2017, e que teria permitido
que mulheres grávidas trabalhassem em ambientes insalubres (o que Ricardo
negou).
A estratégia, desde o primeiro embate, foi a de exibir
Ricardo como um candidato das elites e dos grandes empresários, uma espécie de
inimigo dos trabalhadores, sem compaixão com o povo mais sofrido e vulnerável.
O petista lembrou, por exemplo, o fato de que Ricardo “desfez”
acordo que já havia sido firmado por Casagrande para o assentamento de cerca de
30 famílias num terreno comprado pelo governo em Linhares. Mordendo a isca, Ricardo
respondeu que o terreno fora comprado para a instalação de uma indústria (o que
de certo modo reforça a imagem atribuída a ele por Helder) e que essas famílias
serão devidamente assentadas com “apoio técnico para se desenvolverem”.
Perdendo hoje para Ricardo inclusive entre eleitores de Lula e da esquerda não lulista (segundo a última pesquisa Quaest para a Rede Gazeta), Helder tratou de expor, desde o primeiro instante, que
Ricardo na verdade não tem nada de esquerda – antes, iria contra a esquerda e “fecharia”
com inimigos de Lula.
O deputado lembrou, por exemplo, o episódio em que Ricardo
foi receber o presidente, discretamente, no Aeroporto de Vitória, em maio (“A
imprensa não tem uma foto!”), contrastando com a festividade com que o
governador fez questão de se encontrar em julho com o empresário Luciano Hang
(vulgo “Véio da Havan”, como Helder fez questão de chamar o conhecido
bolsonarista). “Aí fez foto, fez vídeo, até outras coisas mais!” Helder
concluiu que tamanha euforia foi um “aceno para a direita e para a extrema
direita”.
Tentando virar a mesa, Ricardo rebateu que é “impressionante”
o “preconceito” de Helder contra empreendedores; que recebeu Lula institucionalmente
no aeroporto e apenas não o acompanhou na agenda oficial porque se tratava de um
evento mais “partidário” (um grande encontro com agentes de cultura, promovido
pelo Minc em Aracruz, de fato com grande presença da militância do PT). Não
respondeu sobre a ausência de registro.
Também partindo para o contra-ataque, Ricardo buscou tachar Helder como um candidato ideológico, “mais preocupado com a própria ideologia”, enquanto ele mesmo colocaria em primeiro lugar os interesses do Espírito Santo. Retomando a ofensiva, disse que ele não tem com Helder nenhuma diferença pessoal, mas algumas profundas diferenças de pensamento.
Aproveitando para
ganhar alguns pontos com eleitores de direita (e antipetistas), disse que ele,
ao contrário de Helder, defende a redução da maioridade penal.
No momento mais crítico para Helder, Ricardo também afirmou
defender o direito à propriedade, enquanto o petista, segundo ele, defenderia “invasão
de terra”. Na primeira oportunidade, Helder afirmou que nunca em sua vida
defendeu invasão de terra, mas assentamos legais.
Ao mesmo tempo, Helder acossou bastante Pazolini. Disse que
o ex-prefeito sempre isolou Vitória e fará o mesmo com o Espírito Santo caso se
torne governador. Resgatou a reforma previdenciária de Pazolini para os
servidores municipais, “a pior do país”, com desconto, por alguns anos, de uma
alíquota de 14% nos contracheques dos aposentados. Pazolini evitou bater de
frente com Helder. Mas este procurou lhe dar algumas “invertidas”.
Numa pergunta de Pazolini a ele sobre feminicídio, Helder
também resgatou o episódio do microfone com a Capitã Estéfane: “Você não tem
moral para falar disso”.
E, naquela pergunta final de Pazolini para Helder sobre o
caso Apex, que visou atingir Ricardo, o candidato do PT bombardeou ambos. Primeiro,
cravou que houve “tráfico de influência” (ao que Ricardo fez ouvidos de mouco).
Depois, no meio da resposta, girou seu canhão em direção a Pazolini, destacando
a aliança do ex-prefeito com Flávio Bolsonaro (“o que há de pior na política
nacional”) e relacionando uma série de suspeitas de corrupção que pesam contra o
candidato do PL à Presidência.
Helder não esqueceu quase nada: da rachadinha com Queiroz ao
escândalo “Dark Horse” (mais de R$ 60 milhões de Daniel Vorcaro para “um filme
que é uma farsa”), passando por dezenas de imóveis pagos com dinheiro vivo.
Pazolini fingiu que nem era com ele. Aliás, passou o debate inteiro (como a campanha inteira) sem citar Flávio Bolsonaro e sem entrar em política nacional. Ricardo, por sua vez, também manteve sua estratégia de não “nacionalizar” o debate.
No fim das contas, o prêmio de “vencedor do debate” foi para
quem ficou assistindo até depois da meia-noite.
A inesperada escolha
de Pazolini
No estúdio da TV Gazeta, cada candidato só pôde ser acompanhado
por um assessor. Ricardo e Helder escolheram suas estrategistas de comunicação –
respectivamente, Flávia Mignoni e Ananda Miranda.
Pazolini surpreendeu. Em vez de um(a) profissional de
marketing, escolheu Rafael Teixeira de Freitas, advogado eleitoralista que o acompanha há alguns anos e é um dos que atua em sua campanha. A escolha revela, antes de tudo, o grau de
proximidade e confiança do candidato com esse advogado.
Rodinha na calçada
após o debate
Além de sua marqueteira e chefe de gabinete, Flávia Mignoni,
Ricardo se fez acompanhar, no camarim, por seu candidato a vice-governador, Camillo
Neves (PP), e pelo coordenador do seu plano de governo, o prefeito de Viana,
Wanderson Bueno (Podemos), além de fotógrafo e assessor de imprensa.
Após o debate, os quatro saíram juntos da sede da Rede
Gazeta e passaram cerca de 15 minutos numa rodinha na calçada mesmo, do outro lado da rua (presumivelmente, deliberando sobre o debate e a campanha). Até o pessoal do bandeiraço já tinha
ido embora.
O infalível Erick
Musso
Quem também acompanhou Pazolini no camarim (nunca falha) foi
o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, já descrito aqui como principal articulador político do ex-prefeito e como “dono dos ouvidos” de Pazolini, sempre um passo atrás do candidato.
Momento mais tenso no
intervalo
Quando Ricardo afirmou, numa tréplica, que Helder Salomão “defende invasão de terra”, o candidato do PT pediu à direção do debate um direito de resposta – negado.
O deputado ficou muito chateado. No intervalo, contestou a
decisão (“Então tá valendo tudo aqui?”). Sem se voltar para Ricardo, disse para
ele escutar: “Dizer que eu defendo invasão de terra?!? O candidato passou do
limite...”
A gozação de Helder
Mas também houve momentos de relaxamento e descontração. Se
o debate foi quente, a temperatura do estúdio estava fria. Isso levou Helder a
fazer uma gozação com profissionais da empresa logo após o debate, entre risos:
“Gente, como vocês conseguem trabalhar assim? Vocês têm que pedir adicional de
insalubridade!”
Um gaiato não perdeu a piada: “A culpa é da reforma
trabalhista, candidato!”
Tudo acabou em risadas.
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