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Vitor Vogas

Análise: Ricardo bem mais afiado e debate centrado em Vitória na TV Gazeta

Em meio a uma apresentadora e dois adversários canhotos (Rafaela Marquezini, Ricardo e Helder), a “destreza” do destro Pazolini esteve sob questionamento como nunca. O mesmo vale para o comportamento político do ex-prefeito, principal “vidraça” do debate

Publicado em 30 de Setembro de 2026 às 12:47

Públicado em 

30 set 2026 às 12:47
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Candidatos e seus assessores na preparação para o debate na TV Gazeta com os candidatos ao Governo do ES
Candidatos e seus assessores na preparação para o debate na TV Gazeta com os candidatos ao Governo do ES Carlos Alberto Silva


O governador Ricardo Ferraço (MDB) é canhoto. O deputado Helder Salomão (PT) é canhoto. Até a apresentadora Rafaela Marquezini é canhota. Num estúdio com apenas quatro pessoas, o ex-prefeito Lorenzo Pazolini era o único destro – algo digno de nota por si, pois em geral pessoas canhotas são a minoria na sala. 


No debate da TV Gazeta na noite de terça-feira (30), o último antes do 1º turno no próximo domingo (4), a “destreza” do candidato do Republicanos e seus resultados à frente da Prefeitura da Vitória estiveram sob questionamento como nunca antes. O mesmo vale para o comportamento político de Pazolini.


O debate foi seguramente o mais acalorado dos quatro encontros que os três candidatos a governador tiveram ao longo da campanha. Em grande parte do tempo, foi centrado no município de Vitória, tanto que, em dado momento, parecia que estávamos a assistir a um debate para prefeito da Capital. Pazolini ficou na defensiva durante boa parte do duelo. Mais de uma vez, disse que o que estava em discussão ali não era Vitória, e sim o Governo do Espírito Santo.


É verdade, mas, a meu ver, o argumento contém certa contradição, pois o cerne da estratégia de campanha do ex-prefeito, até aqui, é justamente apresentar suas realizações em Vitória e a promessa de que, como governador, levará para todo o Estado o que fez de bom na Capital. Em outras palavras, ele mesmo sempre fala de Vitória (mas, por óbvio, positivamente).


Por isso, Ricardo foi para o estúdio da TV Gazeta nitidamente determinado a buscar desconstruir o discurso de que Vitória seria uma ilha de prosperidade e de bons indicadores socioeconômicos num Estado que, ao redor da ilha, sofreria com uma série de problemas inexistentes na Capital. Buscou, por assim dizer, mostrar o lado B desse discurso.

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Por sua vez, sem mudar sua estratégia em uma vírgula, Helder foi um debatedor “quente”, atirando para os dois lados e distribuindo por igual sua munição: ora criticava Ricardo, ora criticava Pazolini, ora criticava os dois na mesma frase, ou, na resposta a um deles, pegava (ou criava) um gancho para criticar também o outro, por tabela. Vamos voltar a falar de Helder.


Mas, em termos de mudança de estratégia, o que mais chamou a atenção foi realmente a postura de Ricardo.


Nos bastidores, a campanha do governador virou uma chave (até porque Pazolini vem crescendo e agora está em empate técnico com ele, como revelou a última pesquisa Quaest para a Rede Gazeta). No debate da TV Gazeta, Ricardo foi muito mais afiado e visivelmente predisposto a tomar a iniciativa de “ir para cima” de Pazolini, desde o primeiro embate entre eles, no bloco inicial.


A estratégia incluiu algumas tiradas e frases de efeito, como “Vou chamar o VAR para restabelecer a verdade”, e as expressões “Pazolândia” (para dizer que o ex-prefeito viveria num mundo à parte, de uma Vitória fantasiosa) e “caroneiro”, usada por Ricardo mais de uma vez para dizer que o ex-prefeito só “pegaria carona” nos feitos de seus antecessores e do Governo do Estado, apropriando-se do planejamento e dos créditos alheios.


Ricardo também rotulou o ex-prefeito como inexperiente, sem conhecimento sobre o Espírito Santo e, enfaticamente, como um governante isolado e “autoritário”, que, nas palavras do governador, não saberia estabelecer relações políticas com quem pensa de modo diferente.


Evitando alguns confrontos diretos com Ricardo, Pazolini manteve-se calmo na maior parte da contenda, falando mais baixo e mais devagar do que costuma fazer e buscando transmitir serenidade ao público em casa. De fato, passou tranquilidade (salvo em um momento de visível desconcerto).


Na investida mais aguda contra o governador, guardada para o último bloco, o candidato do Republicanos trouxe à tona a crise da Apex Partners, chamada por ele de “Master Capixaba”. Sem citar nomes, sugeriu que Ricardo teria praticado tráfico de influência e insinuou até enriquecimento ilícito.


Mas o ex-prefeito abordou o tema numa pergunta na verdade dirigida a Helder, que concordou, categoricamente: “Houve tráfico de influência!” Ricardo não pediu direito de resposta, e ficou por isso mesmo.


Nas interações com Ricardo, Pazolini também contra-atacou o oponente com algumas estocadas, devolvendo-lhe a alcunha de “caroneiro”, ao dizer que Ricardo na verdade só se tornou governador porque seu antecessor (Casagrande) renunciou em abril, e não pelos próprios votos. Foi um bom momento do ex-prefeito no duelo.


Pazolini também procurou apresentar Ricardo como um candidato das elites, que “governa dentro do Palácio”, é empresário e tem R$ 28 milhões (alusão ao patrimônio declarado à Justiça Eleitoral pelo governador, que é de R$ 27,6 milhões).


Mas Ricardo, é preciso dizer, conseguiu algo muito raro na trajetória política de Pazolini: desestabilizar o ex-prefeito. No segundo bloco, em seu melhor momento no debate, o governador imprensou o desafiante nas cordas. Numa blitz, chamou-o repetidamente de “autoritário”, enumerando uma série de exemplos.


Ricardo recordou o episódio em que “Pazolini tirou o microfone das mãos da sua então vice-prefeita, a Capitã Estéfane” e outro que ainda não havia aparecido em nenhum debate anterior: o áudio de uma conversa telefônica de Pazolini com o vereador Dalto Neves, relacionada à eleição da Mesa Diretora da Câmara de Vitória, na qual o então prefeito, segundo Ricardo, fez “ameaças” ao vereador (hoje apoiador do emedebista).


Pazolini acusou o golpe. Na réplica, sua voz vacilou – algo poucas vezes testemunhado em sua vida pública, pois ele costuma falar de maneira firme, segura e constante. Em sua defesa, o ex-prefeito afirmou que tanto um caso como o outro foram “arquivados”.


Ainda na série de ofensivas contra Pazolini, Ricardo de cara o cobrou pelo fato de Vitória não ter nenhuma Unidade de Pronto Atendimento (em contraste, por exemplo, com a Serra), pela desaceleração do crescimento econômico de Vitória (em contraste com o crescimento do PIB do Estado e de cidades vizinhas) e pela colocação ruim da Capital, entre as 78 cidades capixabas, no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). 

 

Sobre a falta de uma UPA, Pazolini afirmou que a primeira está em construção neste momento e que é preciso ter “humildade” para reconhecer o que não foi possível entregar (insinuando que essa é uma virtude que faltaria ao adversário). Sobre o Ideb, justificou que a nota de Vitória ficou “congelada” por muitos anos, na gestão anterior à dele (a de Luciano Rezende, aliado de Ricardo), mas que agora está voltando a crescer.


Em suas críticas ao atual governo, o ex-prefeito mencionou, por exemplo, a superlotação do sistema penitenciário estadual, com a construção de apenas um presídio pelo governo Casagrande, o desenvolvimento regional desequilibrado e o déficit no preenchimento dos quadros da carreira da Polícia Civil. Pazolini buscou se apresentar como um candidato que tem sensibilidade (nas entrelinhas, ao contrário do oponente) para “cuidar das pessoas”.


Ricardo, por sua vez, apresentou a si mesmo como um governante experiente, preparado, com currículo robusto, capacidade técnica e conhecimento para governar.


Não se falou tanto de Espírito Santo, mas, nos momentos em que enfocou o portfólio do atual governo, ele repetiu a palavra “transformação”, destacando “os maiores investimentos da história do Estado”, o baixíssimo desemprego, a atração de empresas importantes e o crescimento do PIB acima da média nacional, além de dados como a expansão das escolas de ensino em tempo integral, o Ideb do Espírito Santo entre os três melhores do país e a reposição do efetivo da Polícia Civil e da Militar.


Disse, ainda, que a taxa de feminicídios, embora alta, tem caído no Espírito Santo, enquanto em São Paulo (estado governado pelo Republicanos), quase dobrou no mesmo período.

A postura quente e bifocal de Helder

A postura de Helder foi um caso à parte. Sem nada a perder (pois está muito atrás nas pesquisas), o petista em alguns momentos “roubou a cena”. Como no debate anterior, promovido por A Gazeta e CBN Vitória, encarregou-se de esquentar o frio estúdio da TV Gazeta (culpa do ar-condicionado...).


E não teve essa de poupar Ricardo, não... Primeiro a perguntar, além de o chamar de “coadjuvante”, Helder já começou esfregando na tela que o atual governador foi o relator da reforma trabalhista do governo Temer no Senado, em 2017, e que teria permitido que mulheres grávidas trabalhassem em ambientes insalubres (o que Ricardo negou).


A estratégia, desde o primeiro embate, foi a de exibir Ricardo como um candidato das elites e dos grandes empresários, uma espécie de inimigo dos trabalhadores, sem compaixão com o povo mais sofrido e vulnerável.


O petista lembrou, por exemplo, o fato de que Ricardo “desfez” acordo que já havia sido firmado por Casagrande para o assentamento de cerca de 30 famílias num terreno comprado pelo governo em Linhares. Mordendo a isca, Ricardo respondeu que o terreno fora comprado para a instalação de uma indústria (o que de certo modo reforça a imagem atribuída a ele por Helder) e que essas famílias serão devidamente assentadas com “apoio técnico para se desenvolverem”.


Perdendo hoje para Ricardo inclusive entre eleitores de Lula e da esquerda não lulista (segundo a última pesquisa Quaest para a Rede Gazeta), Helder tratou de expor, desde o primeiro instante, que Ricardo na verdade não tem nada de esquerda – antes, iria contra a esquerda e “fecharia” com inimigos de Lula.


O deputado lembrou, por exemplo, o episódio em que Ricardo foi receber o presidente, discretamente, no Aeroporto de Vitória, em maio (“A imprensa não tem uma foto!”), contrastando com a festividade com que o governador fez questão de se encontrar em julho com o empresário Luciano Hang (vulgo “Véio da Havan”, como Helder fez questão de chamar o conhecido bolsonarista). “Aí fez foto, fez vídeo, até outras coisas mais!” Helder concluiu que tamanha euforia foi um “aceno para a direita e para a extrema direita”.  


Tentando virar a mesa, Ricardo rebateu que é “impressionante” o “preconceito” de Helder contra empreendedores; que recebeu Lula institucionalmente no aeroporto e apenas não o acompanhou na agenda oficial porque se tratava de um evento mais “partidário” (um grande encontro com agentes de cultura, promovido pelo Minc em Aracruz, de fato com grande presença da militância do PT). Não respondeu sobre a ausência de registro.


Também partindo para o contra-ataque, Ricardo buscou tachar Helder como um candidato ideológico, “mais preocupado com a própria ideologia”, enquanto ele mesmo colocaria em primeiro lugar os interesses do Espírito Santo. Retomando a ofensiva, disse que ele não tem com Helder nenhuma diferença pessoal, mas algumas profundas diferenças de pensamento.


Aproveitando para ganhar alguns pontos com eleitores de direita (e antipetistas), disse que ele, ao contrário de Helder, defende a redução da maioridade penal.


No momento mais crítico para Helder, Ricardo também afirmou defender o direito à propriedade, enquanto o petista, segundo ele, defenderia “invasão de terra”. Na primeira oportunidade, Helder afirmou que nunca em sua vida defendeu invasão de terra, mas assentamos legais.


Ao mesmo tempo, Helder acossou bastante Pazolini. Disse que o ex-prefeito sempre isolou Vitória e fará o mesmo com o Espírito Santo caso se torne governador. Resgatou a reforma previdenciária de Pazolini para os servidores municipais, “a pior do país”, com desconto, por alguns anos, de uma alíquota de 14% nos contracheques dos aposentados. Pazolini evitou bater de frente com Helder. Mas este procurou lhe dar algumas “invertidas”.


Numa pergunta de Pazolini a ele sobre feminicídio, Helder também resgatou o episódio do microfone com a Capitã Estéfane: “Você não tem moral para falar disso”.  


E, naquela pergunta final de Pazolini para Helder sobre o caso Apex, que visou atingir Ricardo, o candidato do PT bombardeou ambos. Primeiro, cravou que houve “tráfico de influência” (ao que Ricardo fez ouvidos de mouco). Depois, no meio da resposta, girou seu canhão em direção a Pazolini, destacando a aliança do ex-prefeito com Flávio Bolsonaro (“o que há de pior na política nacional”) e relacionando uma série de suspeitas de corrupção que pesam contra o candidato do PL à Presidência.


Helder não esqueceu quase nada: da rachadinha com Queiroz ao escândalo “Dark Horse” (mais de R$ 60 milhões de Daniel Vorcaro para “um filme que é uma farsa”), passando por dezenas de imóveis pagos com dinheiro vivo.


Pazolini fingiu que nem era com ele. Aliás, passou o debate inteiro (como a campanha inteira) sem citar Flávio Bolsonaro e sem entrar em política nacional. Ricardo, por sua vez, também manteve sua estratégia de não “nacionalizar” o debate.


No fim das contas, o prêmio de “vencedor do debate” foi para quem ficou assistindo até depois da meia-noite.

BASTIDORES

A inesperada escolha de Pazolini

No estúdio da TV Gazeta, cada candidato só pôde ser acompanhado por um assessor. Ricardo e Helder escolheram suas estrategistas de comunicação – respectivamente, Flávia Mignoni e Ananda Miranda.


Pazolini surpreendeu. Em vez de um(a) profissional de marketing, escolheu Rafael Teixeira de Freitas, advogado eleitoralista que o acompanha há alguns anos e é um dos que atua em sua campanha. A escolha revela, antes de tudo, o grau de proximidade e confiança do candidato com esse advogado. 

Assessores dos candidatos ao Governo do ES durante o debate na TV Gazeta
Assessores dos candidatos ao Governo do ES durante o debate na TV Gazeta. No sentido da leitura: Ananda Miranda, Rafael Teixeira de Freitas e Flávia Mignoni Carlos Alberto Silva

Rodinha na calçada após o debate

Além de sua marqueteira e chefe de gabinete, Flávia Mignoni, Ricardo se fez acompanhar, no camarim, por seu candidato a vice-governador, Camillo Neves (PP), e pelo coordenador do seu plano de governo, o prefeito de Viana, Wanderson Bueno (Podemos), além de fotógrafo e assessor de imprensa.


Após o debate, os quatro saíram juntos da sede da Rede Gazeta e passaram cerca de 15 minutos numa rodinha na calçada mesmo, do outro lado da rua (presumivelmente, deliberando sobre o debate e a campanha). Até o pessoal do bandeiraço já tinha ido embora. 

O infalível Erick Musso

Quem também acompanhou Pazolini no camarim (nunca falha) foi o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, já descrito aqui como principal articulador político do ex-prefeito e como “dono dos ouvidos” de Pazolini, sempre um passo atrás do candidato. 

Lorenzo Pazolini e Erick Musso chegam para o debate na TV Gazeta
Lorenzo Pazolini e Erick Musso chegam para o debate na TV Gazeta Carlos Alberto Silva

Momento mais tenso no intervalo

Quando Ricardo afirmou, numa tréplica, que Helder Salomão “defende invasão de terra”, o candidato do PT pediu à direção do debate um direito de resposta – negado. 


O deputado ficou muito chateado. No intervalo, contestou a decisão (“Então tá valendo tudo aqui?”). Sem se voltar para Ricardo, disse para ele escutar: “Dizer que eu defendo invasão de terra?!? O candidato passou do limite...”

Debate na TV Gazeta com os candidatos ao Governo do ES: Helder Salomão, Ricardo Ferraço, e Lorenzo Pazolini
Debate na TV Gazeta: o mmento em que Helder Salomão pediu direito de resposta Carlos Alberto Silva

A gozação de Helder

Mas também houve momentos de relaxamento e descontração. Se o debate foi quente, a temperatura do estúdio estava fria. Isso levou Helder a fazer uma gozação com profissionais da empresa logo após o debate, entre risos: “Gente, como vocês conseguem trabalhar assim? Vocês têm que pedir adicional de insalubridade!”


Um gaiato não perdeu a piada: “A culpa é da reforma trabalhista, candidato!”


Tudo acabou em risadas. 

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Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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