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Vitor Vogas

A parábola política de Paulo Hartung

Ex-governador começou sua trajetória política na extrema esquerda e, na maior parte dela, transitou da centro-esquerda ao centro; agora, firma-se como aliado eleitoral do candidato ao Senado mais ligado a Jair Bolsonaro no ES

Publicado em 30 de Setembro de 2026 às 05:00

Públicado em 

30 set 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Paulo Hartung declarou apoio a Evair de Melo para senador do ES
Paulo Hartung declarou apoio a Evair de Melo para senador do ES Reprodução

Ao declarar apoio ao deputado federal Evair de Melo (Rep) para o Senado da República, o ex-governador Paulo Hartung (PSD), de certo modo, completa a descrição de uma parábola. Usamos “parábola” aqui não no sentido bíblico, de história edificante com uma lição de moral, mas no sentido geométrico, como na figura abaixo. 

Parábola no sentido bíblico é uma história fictícia. E todos os fatos a seguir são, obviamente, verídicos. Resumindo, se pudéssemos traçar uma linha reta e direta entre os dois pontos, Paulo Hartung começa sua trajetória política na extrema esquerda, combatendo a ditadura; agora, acaba de se firmar como aliado eleitoral de um grande apoiador do maior líder da extrema direita no Brasil: o candidato ao Senado mais ligado a Jair Bolsonaro (notório defensor da ditadura). Mas a curva entre os dois pontos é longa.


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Nascido em Guaçuí em 1957, Hartung iniciou sua vida política em meados dos anos 1970, militando no então clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB). Eram outros tempos: auge da Guerra Fria e dos regimes militares autoritários no Cone Sul e em outras partes da América Latina. Naquele contexto, fazia sentido militar contra a ditadura pelo PCB, que não defendia a luta armada, mas o combate à ditadura por meio da luta de classes, com a conscientização e a mobilização das massas.  

 

Por volta de 1978, filiado ao PCB, Hartung ascende como o principal líder estudantil capixaba, no bojo da reorganização do movimento estudantil e da reconstrução do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O nome da chapa vitoriosa, presidida por ele, era justamente “Construção”. Dois anos antes, o estudante de Economia chegara à presidência do Diretório Acadêmico do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE) da Ufes, à frente da chapa “Gota D’água”. Ambos são nomes de canções de Chico Buarque.


Em 1982, tendo se aproximado de líderes políticos da esquerda institucional no Espírito Santo, como o futuro governador Max Mauro, Hartung elege-se para o primeiro de seus oito mandatos: deputado estadual, pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), reelegendo-se em 1986. No fim da década, entra no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fundado em 1988 por uma corrente do PMDB formada, entre outros, por FHC e Mário Covas. Em 1990, elege-se deputado federal.


Dois anos depois, pelo PSDB, chega à Prefeitura de Vitória, governando a capital capixaba de 1993 a 1996. Ainda não era permitida a reeleição. Em 1998, tendo perdido para José Ignácio a convenção estadual do PSDB, elege-se senador pelo mesmo partido. Após breve passagem pelo Partido Popular Socialista (PPS), é eleito governador pela primeira vez, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). De volta ao PMDB, reelege-se em 2006.


Em 2014, ainda no PMDB (que voltaria a se chamar MDB), volta a se eleger para o Palácio Anchieta. Para a Presidência, apoia Aécio Neves (PSDB), derrotado por Dilma Rousseff (PT). Esse governo de Hartung se destaca pelas políticas de ajuste fiscal – num período de recessão econômica nacional.


Notem bem, até aqui (em suas oito disputas eleitorais), Hartung só se elegeu por partidos de esquerda, centro-esquerda ou centro (PMDB).


Durante seu último governo, em entrevista à rádio CBN Vitória da qual participei, o então governador chegou a dizer que seu espírito político seguia sendo, àquela época, o de um social-democrata – ou seja, no fundo, no fundo, mesmo há muito tempo fora do partido que ajudara a construir, Hartung ainda se sentia um tucano nas ideias: liberdade de mercado e de iniciativa, com um Estado regulador do mercado e provedor de políticas públicas essenciais para o desenvolvimento social e humano dos cidadãos.


Embora “jogado para a direita” no senso comum, devido às duas décadas de polarização com o PT, o PSDB em essência era um partido de centro para centro-esquerda.


Então veio 2018. Hartung decidiu não concorrer à reeleição. Mas, antes e durante o período eleitoral, em várias palestras e entrevistas, alertou para o “risco do populismo” presente em uma moeda de duas faces: o populismo de esquerda representado pelo PT e o do extremismo de direita encarnado por um então ascendente Jair Bolsonaro.


Emblematicamente, em uma palestra organizada pela Findes, diante de uma plateia formada por empresários certamente, em grande parte, simpáticos a Bolsonaro, Hartung advertiu que aquele não era “um bom caminho”. Bem, Bolsonaro elegeu-se, derrotando Fernando Haddad com 55% dos votos válidos (cerca de 63% no Espírito Santo).


Hartung, então, desfiliou-se do MDB e saiu da cena política estadual por um bom tempo. Foi dedicar-se a atividades na iniciativa privada e em organizações da sociedade civil organizada.


Em 2022, chegou a ter o nome cotado para participar de uma chapa presidencial do PSD, mas isso não foi à frente. Naquela eleição estadual, dois candidatos ligados a ele disputaram o Palácio Anchieta: Aridelmo Teixeira e Guerino Zanon, ambos eleitores declarados de Bolsonaro.


Em maio de 2025, após quase sete anos sem legenda, Hartung filiou-se ao Partido Social Democrático (PSD). Com origens na direita (nasceu do DEM, que remonta ao PFL, que por sua vez remonta à Arena), o PSD na verdade é um partido de centro para centro-direita, bastante híbrido, com alianças e interesses diferentes de acordo com o estado e a região do país.


No Rio de Janeiro, por exemplo, é o partido de Eduardo Paes, candidato a governador e aliado de Lula. Em São Paulo, o partido apoiou e participou do primeiro governo de Tarcísio de Freitas (Rep), inclusive com a presença de Gilberto Kassab, fundador e presidente nacional do PSD, no secretariado.


De todo modo, filiar-se ao PSD foi mais um passo de Hartung para fora daquela “esquerda raiz” onde começara na vida pública, décadas atrás.


Na eleição presidencial, Hartung tinha maior simpatia por eventual candidatura de Eduardo Leite, mas o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado filiou-se ao PSD e prevaleceu sobre Leite e Ratinho Júnior. Fundador e ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), o candidato do PSD à Presidência é um homem histórica e declaradamente de direita, alinhado ao conservadorismo nos costumes e ao liberalismo econômico. Em julho, declarou ser “direita raiz”. Como candidato a vice-presidente, tem, precisamente, Kassab (ex-PFL).


Nesta eleição estadual, Hartung mais uma vez não é candidato a nada. Antes do período de campanha, declarou apoio ao ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Rep) para governador. Pazolini é um político de direita (mas não de extrema direita), candidato pelo conservador Republicanos. Tem o apoio do Partido Liberal (PL) e de Flávio Bolsonaro.

O apoio a Evair

Na última segunda-feira (28), em sua propaganda eleitoral na TV, Evair exibiu a declaração de apoio de Hartung, gravada pelo ex-governador ao lado dele. Na breve fala, Hartung não passa nem perto de tocar em qualquer aspecto ideológico. Destaca a capacidade técnica de Evair, lembrando que, ao identificar tal capacidade quando conheceu seu trabalho em Venda Nova do Imigrante, nomeou-o para presidir o Incaper em seu governo. “Foi um bom líder de bons técnicos! [...] Não tem nome melhor para o Senado!”


De fato, em sua propaganda eleitoral e mesmo nas entrevistas, como na sabatina A Gazeta/CBN Vitória, Evair não tem dado ênfase a pautas polêmicas e ideológicas. Ao contrário, tem preferido se concentrar em suas contribuições como deputado federal nos últimos 12 anos e nos recursos que ajudou a trazer para a construção de equipamentos e obras estruturantes no Espírito Santo. Esse é um ponto.


Ele mesmo, Hartung, jamais declarou simpatia ao bolsonarismo. Esse é outro ponto. Declarar apoio a um bolsonarista não equivale a declarar apoio a Bolsonaro.


Por outro lado, não dá para ignorar que Evair é, antes de tudo, entre os 11 candidatos ao Senado no Espírito Santo, o mais pessoalmente vinculado a Jair Bolsonaro. Costuma repetir que foi “líder” de Bolsonaro na Câmara – na verdade, foi um dos vice-líderes do governo. Em 2017, quando poucos levavam a sério a pré-candidatura de Bolsonaro (e o próprio Hartung alertava para os “riscos” embutidos nela), Evair já subia em trio elétrico ao lado do então colega de Câmara.


No finzinho de 2024, em entrevista a um podcast amigo, o próprio Bolsonaro declarou apoio a Evair como seu candidato ao Senado no Espírito Santo. “É um tremendo companheiro! Gosto muito dele!” A fala de Bolsonaro foi resgatada e republicada por Evair em seu Instagram um dia antes da postagem dele mesmo com Hartung.


Em fevereiro deste ano, o nome do deputado constava, com o de Maguinha Malta (PL), em anotações de Flávio Bolsonaro, como seus dois candidatos no Espírito Santo. Isso de fato se concretizou. Candidato pelo Republicanos de Pazolini, Evair está na mesma coligação do PL. Tem o apoio de Maguinha, e vice-versa.


Em sua própria propaganda eleitoral, Evair tem exibido, quase sempre, uma declaração de apoio do próprio Flávio Bolsonaro para ele... agora alternada com a declaração de Hartung, em suas redes sociais e no horário eleitoral.


No mesmo post e no mesmo programa, Evair intercala a declaração de apoio de Hartung com a de Tarcísio de Freitas, que também gravou para ele. O governador de São Paulo é um dos principais apoiadores de Flávio e tem feito corpo a corpo com o filho de Bolsonaro pelas ruas de São Paulo. Por sinal, mais de uma vez, Tarcísio já se referiu publicamente a Hartung com reverências, como um conselheiro.


Por tudo isso, considerando sua história, o apoio de Hartung a Evair o coloca num ponto bem distante daquele onde se iniciou esta parábola. Do outro lado do eixo vertical.  

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Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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