Ao declarar apoio ao deputado federal Evair de Melo (Rep) para o Senado da República, o ex-governador Paulo Hartung (PSD), de certo modo,
completa a descrição de uma parábola. Usamos “parábola” aqui não no sentido
bíblico, de história edificante com uma lição de moral, mas no sentido
geométrico, como na figura abaixo.
Parábola no sentido bíblico é uma história fictícia. E todos
os fatos a seguir são, obviamente, verídicos. Resumindo, se pudéssemos traçar
uma linha reta e direta entre os dois pontos, Paulo Hartung começa sua
trajetória política na extrema esquerda, combatendo a ditadura; agora, acaba de
se firmar como aliado eleitoral de um grande apoiador do maior líder da extrema
direita no Brasil: o candidato ao Senado mais ligado a Jair Bolsonaro (notório
defensor da ditadura). Mas a curva entre os dois pontos é longa.
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Nascido em Guaçuí em 1957, Hartung iniciou sua vida política em meados dos anos 1970, militando no então clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB). Eram outros tempos: auge da Guerra Fria e dos regimes militares autoritários no Cone Sul e em outras partes da América Latina. Naquele contexto, fazia sentido militar contra a ditadura pelo PCB, que não defendia a luta armada, mas o combate à ditadura por meio da luta de classes, com a conscientização e a mobilização das massas.
Por volta de 1978, filiado ao PCB, Hartung ascende como o
principal líder estudantil capixaba, no bojo da reorganização do movimento estudantil
e da reconstrução do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal
do Espírito Santo (Ufes). O nome da chapa vitoriosa, presidida por ele, era
justamente “Construção”. Dois anos antes, o estudante de Economia chegara à
presidência do Diretório Acadêmico do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas
(CCJE) da Ufes, à frente da chapa “Gota D’água”. Ambos são nomes de canções de
Chico Buarque.
Em 1982, tendo se aproximado de líderes políticos da
esquerda institucional no Espírito Santo, como o futuro governador Max Mauro,
Hartung elege-se para o primeiro de seus oito mandatos: deputado estadual, pelo
Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), reelegendo-se em 1986. No
fim da década, entra no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fundado
em 1988 por uma corrente do PMDB formada, entre outros, por FHC e Mário Covas.
Em 1990, elege-se deputado federal.
Dois anos depois, pelo PSDB, chega à Prefeitura de Vitória,
governando a capital capixaba de 1993 a 1996. Ainda não era permitida a
reeleição. Em 1998, tendo perdido para José Ignácio a convenção estadual do
PSDB, elege-se senador pelo mesmo partido. Após breve passagem pelo Partido
Popular Socialista (PPS), é eleito governador pela primeira vez, pelo Partido
Socialista Brasileiro (PSB). De volta ao PMDB, reelege-se em 2006.
Em 2014, ainda no PMDB (que voltaria a se chamar MDB), volta
a se eleger para o Palácio Anchieta. Para a Presidência, apoia Aécio Neves
(PSDB), derrotado por Dilma Rousseff (PT). Esse governo de Hartung se destaca
pelas políticas de ajuste fiscal – num período de recessão econômica nacional.
Notem bem, até aqui (em suas oito disputas eleitorais),
Hartung só se elegeu por partidos de esquerda, centro-esquerda ou centro
(PMDB).
Durante seu último governo, em entrevista à rádio CBN
Vitória da qual participei, o então governador chegou a dizer que seu espírito
político seguia sendo, àquela época, o de um social-democrata – ou seja, no
fundo, no fundo, mesmo há muito tempo fora do partido que ajudara a construir,
Hartung ainda se sentia um tucano nas ideias: liberdade de mercado e de
iniciativa, com um Estado regulador do mercado e provedor de políticas públicas
essenciais para o desenvolvimento social e humano dos cidadãos.
Embora “jogado para a direita” no senso comum, devido às
duas décadas de polarização com o PT, o PSDB em essência era um partido de
centro para centro-esquerda.
Então veio 2018. Hartung decidiu não concorrer à reeleição.
Mas, antes e durante o período eleitoral, em várias palestras e entrevistas,
alertou para o “risco do populismo” presente em uma moeda de duas faces: o populismo
de esquerda representado pelo PT e o do extremismo de direita encarnado por um
então ascendente Jair Bolsonaro.
Emblematicamente, em uma palestra organizada pela Findes,
diante de uma plateia formada por empresários certamente, em grande parte,
simpáticos a Bolsonaro, Hartung advertiu que aquele não era “um bom caminho”. Bem,
Bolsonaro elegeu-se, derrotando Fernando Haddad com 55% dos votos válidos
(cerca de 63% no Espírito Santo).
Hartung, então, desfiliou-se do MDB e saiu da cena política
estadual por um bom tempo. Foi dedicar-se a atividades na iniciativa privada e
em organizações da sociedade civil organizada.
Em 2022, chegou a ter o nome cotado para participar de uma
chapa presidencial do PSD, mas isso não foi à frente. Naquela eleição estadual,
dois candidatos ligados a ele disputaram o Palácio Anchieta: Aridelmo Teixeira
e Guerino Zanon, ambos eleitores declarados de Bolsonaro.
Em maio de 2025, após quase sete anos sem legenda, Hartung filiou-se
ao Partido Social Democrático (PSD). Com origens na direita (nasceu do DEM, que
remonta ao PFL, que por sua vez remonta à Arena), o PSD na verdade é um partido
de centro para centro-direita, bastante híbrido, com alianças e interesses
diferentes de acordo com o estado e a região do país.
No Rio de Janeiro, por exemplo, é o partido de Eduardo Paes,
candidato a governador e aliado de Lula. Em São Paulo, o partido apoiou e participou
do primeiro governo de Tarcísio de Freitas (Rep), inclusive com a presença de
Gilberto Kassab, fundador e presidente nacional do PSD, no secretariado.
De todo modo, filiar-se ao PSD foi mais um passo de Hartung
para fora daquela “esquerda raiz” onde começara na vida pública, décadas atrás.
Na eleição presidencial, Hartung tinha maior simpatia por
eventual candidatura de Eduardo Leite, mas o ex-governador de Goiás Ronaldo
Caiado filiou-se ao PSD e prevaleceu sobre Leite e Ratinho Júnior. Fundador e
ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), o candidato do PSD à
Presidência é um homem histórica e declaradamente de direita, alinhado ao
conservadorismo nos costumes e ao liberalismo econômico. Em julho, declarou ser
“direita raiz”. Como candidato a vice-presidente, tem, precisamente, Kassab
(ex-PFL).
Nesta eleição estadual, Hartung mais uma vez não é candidato
a nada. Antes do período de campanha, declarou apoio ao ex-prefeito de Vitória
Lorenzo Pazolini (Rep) para governador. Pazolini é um político de direita (mas
não de extrema direita), candidato pelo conservador Republicanos. Tem o apoio
do Partido Liberal (PL) e de Flávio Bolsonaro.
O apoio a Evair
Na última segunda-feira (28), em sua propaganda eleitoral na
TV, Evair exibiu a declaração de apoio de Hartung, gravada pelo ex-governador
ao lado dele. Na breve fala, Hartung não passa nem perto de tocar em qualquer
aspecto ideológico. Destaca a capacidade técnica de Evair, lembrando que, ao
identificar tal capacidade quando conheceu seu trabalho em Venda Nova do
Imigrante, nomeou-o para presidir o Incaper em seu governo. “Foi um bom líder
de bons técnicos! [...] Não tem nome melhor para o Senado!”
De fato, em sua propaganda eleitoral e mesmo nas
entrevistas, como na sabatina A Gazeta/CBN Vitória, Evair não tem dado ênfase a pautas polêmicas e ideológicas.
Ao contrário, tem preferido se concentrar em suas contribuições como deputado
federal nos últimos 12 anos e nos recursos que ajudou a trazer para a
construção de equipamentos e obras estruturantes no Espírito Santo. Esse é um
ponto.
Ele mesmo, Hartung, jamais declarou simpatia ao
bolsonarismo. Esse é outro ponto. Declarar apoio a um bolsonarista não equivale
a declarar apoio a Bolsonaro.
Por outro lado, não dá para ignorar que Evair é, antes de
tudo, entre os 11 candidatos ao Senado no Espírito Santo, o mais pessoalmente
vinculado a Jair Bolsonaro. Costuma repetir que foi “líder” de Bolsonaro na
Câmara – na verdade, foi um dos vice-líderes do governo. Em 2017,
quando poucos levavam a sério a pré-candidatura de Bolsonaro (e o próprio
Hartung alertava para os “riscos” embutidos nela), Evair já subia em trio elétrico
ao lado do então colega de Câmara.
No finzinho de 2024, em entrevista a um podcast amigo, o próprio Bolsonaro declarou apoio a Evair como seu
candidato ao Senado no Espírito Santo. “É um tremendo companheiro! Gosto muito
dele!” A fala de Bolsonaro foi resgatada e republicada por Evair em seu Instagram
um dia antes da postagem dele mesmo com Hartung.
Em fevereiro deste ano, o nome do deputado constava, com o
de Maguinha Malta (PL), em anotações de Flávio Bolsonaro, como seus dois
candidatos no Espírito Santo. Isso de fato se concretizou. Candidato pelo
Republicanos de Pazolini, Evair está na mesma coligação do PL. Tem o apoio de
Maguinha, e vice-versa.
Em sua própria propaganda eleitoral, Evair tem exibido, quase
sempre, uma declaração de apoio do próprio Flávio Bolsonaro para ele... agora alternada
com a declaração de Hartung, em suas redes sociais e no horário eleitoral.
No mesmo post e no
mesmo programa, Evair intercala a declaração de apoio de Hartung com a de Tarcísio
de Freitas, que também gravou para ele. O governador de São Paulo é um dos
principais apoiadores de Flávio e tem feito corpo a corpo com o filho de
Bolsonaro pelas ruas de São Paulo. Por sinal, mais de uma vez, Tarcísio já se
referiu publicamente a Hartung com reverências, como um conselheiro.
Por tudo isso, considerando sua história, o apoio de Hartung a Evair o coloca num ponto bem distante daquele onde se iniciou esta parábola. Do outro lado do eixo vertical.
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