No meio político capixaba, o ex-prefeito de Vitória Lorenzo
Pazolini tem a fama de ser alguém, digamos, compenetrado. Político de poucas
palavras, é difícil de “ler” até por quem o cerca. Mesmo aliados dizem ter
dificuldade em saber o que ele está pensando. Ao mesmo tempo, cerca-se de muito
pouca gente na tomada de decisões e não tem, propriamente, “conselheiros”.
Mas um homem, inegavelmente, adquiriu “livre acesso” aos
ouvidos de Pazolini. O ex-prefeito não só o escuta como lhe delega quase toda a
sua articulação política.
Esse homem é Erick Cabral Musso, 39 anos, presidente
estadual do Republicanos, sigla de Pazolini, e ex-presidente da Assembleia
Legislativa do Espírito Santo.
Nos últimos seis anos, Erick desenvolveu tamanha proximidade
com Pazolini que os dois são praticamente indissociáveis, seja fisicamente, seja
na mente das pessoas. Quem conhece os meandros da política capixaba sabe bem:
se Pazolini está em algum lugar, são muito grandes as chances de Erick estar
ali com ele, ao lado do ex-prefeito ou um passinho atrás.
Com “procuração” de Pazolini, Erick é como se fosse o “relações
públicas” do ex-prefeito junto à classe política. É ele quem conduz
pessoalmente as reuniões com outros dirigentes partidários e líderes políticos
em geral, representando os interesses do pré-candidato a governador do
Republicanos. Não fala em nome de Pazolini, mas é quase isso.
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Não é que Pazolini não se envolva pessoalmente nessa parte.
Ele participa em momentos decisivos – para fechamento de alianças, por exemplo.
Mas, no dia a dia, a articulação é quase toda tocada mesmo por Erick, que
carrega o piano para o ex-prefeito poder tocar.
Uma boa amostra foi dada na noite de terça-feira (4), na
convenção estadual do Republicanos, num clube em Tabuazeiro. Os dois e Evair de
Melo chegaram ao local juntos, em pé na carroceria de uma camionete. No
palanque, Erick foi o “mestre de cerimônias”. Cuidou da parte formal da
convenção e da agitação.
“Erick hoje é o cabeça da campanha. Todo o movimento
político do Pazolini passa por ele. Ele é o nosso líder. O Pazolini não é tão
político... e o Erick completa isso. O Pazolini é mais povo, o Erick é mais
bastidor”, define outro operador, de menor patente, do mesmo grupo.
Do ponto de vista ideológico, Erick é profundamente
conservador. Frequenta uma igreja evangélica.
A história da
parceria
A parceria entre os dois começou nos primeiros meses de
2020. Dois anos antes, o delegado da Polícia Civil elegeu-se para seu primeiro
mandato, na Assembleia, como o segundo candidato mais votado para deputado
estadual (atrás somente de Sérgio Majeski, então no auge da popularidade).
Pazolini chegou lá por um partido nanico, o antigo PRP. Erick
Musso à época era presidente da Assembleia, reelegeu-se no mesmo pleito e foi
reconduzido à presidência da Casa.
Em 2019, primeiro ano do mandato de Pazolini, os dois se
aproximaram. O Republicanos era então presidido no Espírito Santo por Roberto
Carneiro, grande aliado de Erick e também do ex-governador Paulo Hartung, de
quem fora chefe da Casa Civil e secretário estadual de Esportes.
Em março de 2020, ano de eleições municipais, Pazolini
filiou-se ao Republicanos, a convite de Erick e de Roberto Carneiro. Era o comecinho
da pandemia do novo coronavírus. Numa campanha marcada por atividades de rua
muito limitadas, devido ao isolamento social, Pazolini chegou à Prefeitura de
Vitória, vencendo o pleito no 2º turno, contra João Coser (PT).
Erick participou de corpo presente na campanha. Além da
atuação nos bastidores, assumiu a linha de frente, acumulando uma função
inusitada: com vozeirão e pulmões fortes, fazia as vezes de “puxador” das
carreatas de Pazolini, gritando ao microfone, do lado dele, na carroceria do
carro principal.
Em 2023, Erick despediu-se da Assembleia. Após ter perdido a
eleição para o Senado em 2022, ficou sem mandato.
A convite do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira,
Roberto Carneiro se tornou presidente do partido no estado de São Paulo. Com
isso, Erick ascendeu à presidência da agremiação no Espírito Santo. Estreitou
ainda mais a relação com Pazolini, maior ativo da sigla conservadora no Estado.
Em 2024, novamente com intensa presença de Erick, Pazolini
se reelegeu prefeito de Vitória. Dessa vez, a vitória se deu no 1º turno. No
começo da segunda administração de Pazolini, Erick se tornou secretário
municipal de Governo. Mas ficou por cerca de um semestre.
A presença de Erick
na pré-campanha
Foi ele o principal responsável pela construção da
pré-candidatura de Pazolini a governador. Só muito recentemente, o próprio
Pazolini admitiu ser pré-candidato ao Palácio Anchieta. Mas o Republicanos
(leia-se Erick) já o trata assim desde janeiro de 2025, em notas da assessoria
do partido à imprensa.
No mesmo mês, o então vice-governador Ricardo Ferraço (MDB)
lançou sua pré-candidatura a governador. Poucas semanas depois, em resposta, Erick
começou uma rotina, intensificada até hoje, de visitas com Pazolini a cidades
da Grande Vitória e do interior do Estado – em muitas delas, acompanhados pelo
deputado federal Evair de Melo.
Tudo sempre postado nas redes sociais de Erick e de
Pazolini. Era preciso expor o pré-candidato além das divisas de Vitória para a
população capixaba.
Foi Erick quem levou para o movimento de Pazolini
personagens políticos conservadores, como o Coronel Alexandre Ramalho,
ex-secretário estadual de Segurança Pública, bem como o casal Manato.
Por obra de Erick, os três se filiaram ao Republicanos
(Ramalho e Manato, saído do PL; Soraya, do PP). Em março de 2025, por nomeação
de Pazolini, Ramalho tornou-se secretário de Meio Ambiente de Vitória, enquanto
Soraya assumiu a pasta de Assistência Social.
Também foi por empenho pessoal de Erick que Pazolini
conseguiu atrair para sua coligação o PL, assegurando o apoio do senador Magno
Malta e, principalmente, o do candidato do partido à Presidência, Flávio
Bolsonaro. O acordo anunciado em julho foi resultado de muita paciência e insistência.
No pleito municipal de 2024, cada um à frente de seu
partido, Erick e Magno Malta protagonizaram uma treta retumbante. O presidente
estadual do PL proibiu os diretórios da sigla nos municípios de se coligarem
com uma série de partidos, incluindo o Republicanos. A justificativa de Magno:
o Republicanos, para ele, não representava de verdade a direita.
Erick contra-atacou. À imprensa, declarou que Magno se
achava o dono da direita, denunciando o isolacionismo do senador.
Passadas as disputas municipais, todos foram lamber as feridas,
viraram a página e redirecionaram o foco para as eleições estaduais de 2026. Já
na virada de 2024 para 2025, ambos retomaram o contato.
Resumindo: após muitas reuniões, “lavagem de roupa suja” e
um ano e meio de diálogo travado nos bastidores, PL e Republicanos chegaram, no
Espírito Santo, a um entendimento que os dois partidos de direita não lograram
na eleição nacional.
Ah, Erick também esteve totalmente envolvido nos bastidores da
articulação realizada entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano, culminando
com a aproximação eleitoral passageira de Arnaldinho Borgo com Pazolini. Durou
pouco, mas sacudiu a política do Espírito Santo.
Essa aí não deu certo para Erick, mas, à época, a tese do
dirigente era a de que a união de forças dos dois jovens prefeitos resultaria
num palanque imbatível.
Armadilhas
Definido por interlocutores dele como um político muito
habilidoso, Erick também é conhecido por manter bom trânsito com líderes de
outros grupos, inclusive adversários. Tem com alguns aliados de Ricardo.
Um aliado dele conta que foi Erick quem conseguiu desarmar
(ao menos parcialmente) uma “armadilha” plantada pelo Palácio Anchieta para
enfraquecer o Republicanos. Em março, por ação de Ricardo e Casagrande, os dois
federais do Republicanos na bancada capixaba, Amaro Neto e Messias Donato,
trocaram a sigla pela Federação União Progressista, que está com Ricardo.
Pouco tempo depois, para compensar a dupla perda, Erick
filiou Evair de Melo ao Republicanos.
No fim de julho, com a desistência de Soraya em compor a
chapa de federais do Republicanos, Erick se entendeu com Manato, e o marido
assumiu o lugar da esposa.
Nessa eleição, além de ser o escudeiro de Pazolini, Erick será candidato a deputado federal. Ou seja, montou a própria chapa, com a expectativa de fazer de um a dois federais no Espírito Santo.
Certo é que o jogo eleitoral do Espírito Santo passa pelos
pés dele.
A “Era Erick” na Assembleia Legislativa
Natural de Aracruz, Erick começou a atuar na político como assessor parlamentar do seu avô Heraldo Musso, na Assembleia Legislativa. Ele era muito jovem, praticamente um adolescente. Aos 25 anos, elegeu-se para o primeiro mandato, como vereador de Aracruz.
De cara, algo raro: em seu primeiro dia de vida pública, foi
eleito para a presidência da Câmara Municipal, exercida no biênio 2013-2014. Fruto
de articulação de bastidores.
Em 2014, aos 27 anos, virou deputado estadual. No começo de
2015, primórdios do último governo de Paulo Hartung, assumiu a função de
vice-líder do governo na Assembleia. Ganhou a confiança de Hartung e, dois anos
depois, ungido pelo então governador, chegou à presidência da Assembleia
Legislativa.
Com o apoio do então governador, elegeu-se pelo voto dos
pares sem adversários, num histórico movimento de Hartung, que decidiu derrotar
Theodorico Ferraço e apear o pai de Ricardo do comando do Legislativo.
Erick permaneceu na presidência da Assembleia por incríveis
três biênios seguidos, totalizando seis anos, de fevereiro de 2017 a janeiro de
2023 – na chamada “Era Erick”. Intensificando algo que começara no período de
Ferraço, a longa passagem de Erick pela presidência da Casa foi marcada por
gradativa concentração de poderes internos nas mãos do presidente – algo que
perdura até hoje, com Marcelo Santos no cargo.
A “Era Erick” também foi marcada por um dos episódios mais
traumáticos da recente histórica política capixaba. Foi uma barbeiragem política
protagonizada por ele, que já reconheceu o erro.
No fim de novembro de 2019, do nada, Erick acordou decidido
a promover a eleição para a presidência da Mesa, na sessão daquela manhã de
quarta-feira. E assim fez.
Tomados de surpresa, os deputados o reelegeram para um
terceiro biênio na presidência. Só um detalhe, porém: além da eleição
extemporânea e sem aviso prévio, Erick se reelegeu, em novembro de 2019, para o
biênio que só se iniciaria em fevereiro de 2021 – com mais de um ano de
antecedência, portanto.
E mais: não era esse o acordo que ele mesmo e o então
vice-presidente da Mesa, Marcelo Santos, haviam costurado na noite anterior, no
Palácio Anchieta, com o então governador Renato Casagrande (que se sentiu traído).
A reação do governo, da Justiça e da sociedade foi
fortíssima. Ações de anulação da eleição foram propostas e, antes de sofrer uma
inevitável derrota judicial, o próprio Erick anulou todo o processo. Ali a
habilidade mandou lembranças...
Mais à frente, na “data certa”, ele acabou reconduzido de
todo modo. Mas o episódio lhe deixou aquela marca de impulsividade, açodamento
e desconfiança que só muitos anos são capazes de apagar. Em conversa anterior
comigo, Erick já se disse arrependido e atribuiu o erro à juventude.
E Meneguelli?
Erick também esteve diretamente envolvido na sucessão de
eventos que culminou com a negação da legenda do Republicanos a Sérgio
Meneguelli para ele ser candidato ao Senado em 2022. O candidato do partido ao
Senado acabou sendo ele próprio.
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