Em sua primeira tentativa de saltar rumo ao Senado, Sérgio Meneguelli
foi derrubado, quicou no asfalto e caiu sentado numa cadeira na Assembleia
Legislativa. Isso foi em 2022. Agora, em seu segundo salto, o risco de nova
queda é grande. Mas, como a “Fadinha” Rayssa Leal, o deputado e ex-prefeito de
Colatina desta vez quer se manter de pé.
Para isso, com a candidatura por um fio, Meneguelli põe tudo
nas mãos de Renzo Vasconcelos, presidente estadual da sua sigla, o Partido Social
Democrático (PSD).
“Não vai ter traição. O Renzo não vai fazer isso. A palavra
traição, até onde conheço, não faz parte da vida e da história do Renzo”, disse
ele à coluna na noite de segunda-feira (3).
Antes disso, ele postou em suas redes sociais um vídeo em
que jogou ainda mais pressão sobre o prefeito de Colatina:
“Muitos caciques do Estado estão querendo impedir minha candidatura mais uma vez por uma
coisa: porque eu estou pontuando bem nas pesquisas,
porque eu tenho condições. Vocês sabem: essa novela já aconteceu quatro anos atrás.
E alguns personagens parece que voltaram. Mas estou gravando esse vídeo pra
dizer que a minha candidatura depende unicamente da assinatura do presidente do
meu partido, que é o prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos”.
Meneguelli refere-se ao fato de que caberá a Renzo assinar a
ata da convenção estadual do PSD, marcada para a noite de quarta-feira (5), último
dia do prazo legal, e cujo teor segue incerto até lá.
Em seguida, a edição do vídeo de Meneguelli corta para uma entrevista
concedida há alguns meses por Renzo para a Rede Tribuna. “Sérgio será candidato
ao que ele quiser. Isso foi garantido pelo presidente nacional e referendado
por mim.”
Em 2022, após entrar no Republicanos, Meneguelli passou todo
o período de pré-campanha como pré-candidato a senador. Mas, nos momentos
decisivos, teve as pretensões barradas e a legenda negada pelo próprio partido,
que lançou Erick Musso a senador. Restou-lhe se contentar em ser candidato à
Assembleia.
Em março deste ano, ele trocou o Republicanos pelo PSD e
mais uma vez fez uma escolha complicada, que se provou arriscada para ele
mesmo. Não por falta de aviso, pode ter caído de novo em uma arapuca eleitoral.
O PSD é conduzido no Espírito Santo por Renzo Vasconcelos,
aliado de Meneguelli e devedor político dele. Em 2024, a entrada do deputado e
ex-prefeito nos últimos dias da campanha de Renzo foram determinantes para a
vitória do filho de Pergentino Vasconcelos contra Guerino Balestrassi em
Colatina.
De fato, como diz Meneguelli em seu vídeo, não foram poucas
as entrevistas em que Renzo reiterou seu compromisso público de garantir a
legenda para ele.
Ocorre que, nas últimas semanas, o PSD ficou à deriva no cenário político estadual...
PSD num mato sem
cachorro
Em maio, Renzo declarou que ele e o partido apoiariam Lorenzo
Pazolini para governador. Assim, o PSD indicava a intenção de se coligar com o
Republicanos, sigla do ex-prefeito de Vitória.
Tudo mudou no dia 18 de julho, com o anúncio da aliança do
PL com o Republicanos e do apoio de Magno Malta a Pazolini. Como parte desse acordo,
uma das duas candidaturas ao Senado nessa mesma coligação foi assegurada a
Maguinha Malta, com o apoio público já empenhado por Pazolini.
Quanto à segunda vaga, Magno impôs um veto à escalação de
Meneguelli. Os dois são adversários políticos. Foi mais uma das condições do
senador e presidente estadual do PL para fechar o apoio a Pazolini, formalizado
em convenção no último sábado (1º).
A esta altura, é muito mais provável que a segunda vaga ao
Senado na coligação de Pazolini e Magno fique com o deputado federal Evair de
Melo, do Republicanos.
A situação do PSD nesse arranjo ficou tão ruim que, no dia
20 de julho, dois dias após a selagem do acordo do Republicanos com o PL, Renzo
anunciou ao mercado político: o PSD não tinha posição fechada, dialogaria com
todos os outros candidatos a governador e considerava ter tamanho até para lançar
uma chapa majoritária própria no Espírito Santo.
No mesmo dia, Renzo explicou aqui que essa chapa pura (sem
partidos aliados) poderia ter o ex-governador Paulo Hartung ao Governo do
Estado e Meneguelli ao Senado.
Isso soou como blefe ou incompreensão do quadro. Desde o
início, as chances de algo assim se concretizar eram altamente remotas.
Dois dias depois (22), a pedido, Renzo foi recebido por
Ricardo Ferraço (MDB) e lhe requereu espaço em sua chapa majoritária (candidato
a vice-governador e/ou a senador), para levar o PSD para a coligação do
governador.
Ricardo ficou de levar a proposta para discussão no fórum de
líderes partidários reunidos em sua composição. A ideia enfrentou imediata
rejeição.
Estamos falando de um amplo rol de partidos já estabelecidos
ali, com Ricardo, há muito tempo. Ninguém, a esta altura do processo, estaria
disposto a abrir mão de nada para atender a um recém-chegado que estava “no
outro lado” até outro dia, mas, contrariado, resolveu bater à porta do
movimento governista.
Esse “ninguém” inclui a ex-senadora Rose de Freitas.
Ocupando uma das duas candidaturas ao Senado na chapa de Ricardo (a outra é de
Renato Casagrande), Rose foi enfática em dizer que não abriria mão do posto em
benefício do PSD.
Rose não era o plano A nem o B de Ricardo e Casagrande para
essa posição, mas acabou se firmando a partir de algumas desistências. E o fato
é que nunca tergiversou. Sempre se mostrou absolutamente leal ao governo.
Na convenção do PSB, em um “auto de humildade”, a
ex-senadora declarou que vai colocar o seu trabalho e os seus sapatos à
disposição de Ricardo na campanha dele ao governo e que, se ela voltar ao
Senado, carregará a pasta dele em Brasília.
Por fim, o PSD é o partido de Paulo Hartung. Esse simples
fato, por si, dificulta qualquer acordo do grupo governista com o partido, pois
o ex-governador é inimigo de Ricardo e Casagrande.
Na última segunda-feira (3), Hartung anunciou sua decisão de
não concorrer a cargo algum nesta eleição. Para o grupo governista, segundo uma
fonte palaciana, isso não muda em nada a situação em relação ao PSD..
A decisão de Hartung também põe por terra aquela ideia de lançar uma chapa majoritária puro-sangue, com o ex-governador e Meneguelli.
Agora, quais são os três
únicos caminhos que restam ao PSD?
O primeiro, bastante improvável, é uma composição com a
frente governista, “encaixando” Meneguelli no lugar de Rose. Mas, pelos fatores
já expostos, é mesmo muito difícil.
O segundo é Renzo respirar fundo e voltar para a coligação de Pazolini, com o Republicanos e o PL. Nesse caso, voltará menor do que partiu. Poderá ainda tentar emplacar a própria esposa, a médica Lívia Vasconcelos, primeira-dama de Colatina, como candidata a vice-governadora.
Mas isso não resolve sua questão com Meneguelli. Hoje, se Renzo levar o PSD de volta para esse grupo, a pré-candidatura do ex-prefeito de Colatina explodirá de vez.
O terceiro é o PSD bancar e registrar uma chapa isolada
apenas com a candidatura de Meneguelli ao Senado (contra tudo e contra todos).
Nesse caso, Lívia Vasconcelos não será candidata a vice-governadora, já que a
chapa não terá um candidato a governador...
“Bateção de cabeça”
no PSD
Seja como for, o que parece neste momento é que o PSD se vê
à deriva no Espírito Santo, vivendo dias de “bateção de cabeça” e “agora é cada
um por si”.
Fortes indícios disso foram dados em dois momentos na última
segunda-feira.
No início da tarde, falando com esta coluna, o próprio Renzo
deu uma interpretação própria e muito peculiar à nota de Hartung. Disse que o ex-governador
tanto poderia ser candidato como não ser, que poderia ser candidato a tudo ou a
nada...
A redação da nota realmente é ambígua, mas até a assessoria
de Hartung confirmou o seu sentido: ele não será candidato a nada.
Já no início da noite, o ex-prefeito de Linhares Guerino Zanon
(PSD), que chegou a ser cotado para ser vice de Pazolini, criticou publicamente
a condução de Renzo, em declarações à coluna de Letícia Gonçalves. Disse que
ninguém consegue falar com o prefeito de Colatina, que ele não dá segurança
para ninguém ser candidato e ameaçou: se o PSD não ficar com Pazolini, ele sai
da agremiação.
É no meio desse imbróglio que, hoje, Meneguelli se debate.
Para não perder a
brincadeira: Fadinha e Peter Pan
Meio maldosamente, Meneguelli é chamado por alguns agentes
políticos de Peter Pan (por ser um homem idoso com muitos procedimentos
estéticos e que busca aparentar ser bem mais jovem).
Para se manter de pé neste páreo, ele precisa se inspirar em
outra “Fadinha”, não na Sininho do Peter Pan...
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