De bate-bola, o vereador entende. Foi o que propus a ele, na
manhã desta segunda-feira (3), em visita ao plenário da Câmara de Vitória. Ele
se dispôs a me atender e, de fato, por cerca de meia-hora, “batemos uma bola” nas
dependências da Casa. Durante todo esse tempo, Camillo Neves (PP) mostrou-se muito
preocupado em não transmitir a impressão de que “já se sentou na cadeira” de
candidato a vice-governador Ricardo Ferraço (MDB).
Mas nem era preciso ser tão cauteloso. Seus próprios colegas
de plenário já o tratam como companheiro de chapa de Ricardo. No plenário, Camillo
foi saudado e parabenizado, individualmente, por vários pares, do PT ao PL. A
fila de cumprimentos se estendeu até o momento da entrevista. Enquanto eu
conversava com ele, outros parlamentares entraram no gabinete só para lhe dar
os parabéns e lhe desejar sorte e sucesso na campanha eleitoral.
A esta altura, de fato, Camillo Neves é o favorito absoluto
para ser o candidato a vice de Ricardo, por indicação da Federação União Progressista.
À coluna, ele mesmo se diz “preparadíssimo” para essa missão, para a qual deve
ser oficialmente escalado nos próximos dias.
Eu me sinto preparadíssimo, porque sempre digo que, em minha vida, aparecem oportunidades e a gente precisa estar pronto para que a gente consiga desenvolver o melhor papel, o melhor trabalho.
Camillo Neves (PP), vereador de Vitória
O parlamentar completou:
“Sobre compor, o que tenho de concreto é que sou vereador de
Vitória. Estou lisonjeado de o meu nome estar posto. Isso quer dizer que as
pessoas confiam no meu trabalho, têm percebido o meu trabalho. É uma
demonstração também que Vitória vai ser contemplada, a Grande Vitória vai ser
contemplada, o Parlamento vai ser contemplado. Então, estou superpreparado. O
nome que for escolhido eu tenho certeza absoluta que vai desempenhar um bom
papel, por acreditar no trabalho do Ricardo e na pessoa do Ricardo, que vai dar
continuidade a um trabalho que vem sendo muito bem feito e a gente tem
acompanhado”, emendou Camillo, meio que já falando dele mesmo.
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Ligado a Marcelo Santos, presidente estadual do União
Brasil, e principalmente a Josias da Vitória, presidente estadual do PP e da União
Progressista, Camillo foi o nome que prevaleceu entre os indicados pela
federação.
Após um último grande estremecimento na relação, resultante
justamente da disputa pela vice, a Federação União Progressista decidiu se manter
na coligação de Ricardo. Na semana passada, um grupo de aliados do governador,
incluindo prefeitos como Euclério Sampaio (MDB) e Enivaldo dos Anjos (PSB),
defendeu o nome de Sérgio Vidigal (PDT) para compor com Ricardo. A federação
bateu o pé: jamais abriu mão da vice.
No último sábado (1º), na convenção estadual do PDT, ao lado
de Ricardo e Renato Casagrande (PSB), o próprio ex-prefeito da Serra declarou pela enésima vez que não será candidato a nada.
Ricardo não poderia se dar ao luxo de perder o apoio da
imponente federação, com tudo o que esta acrescenta à coligação e à campanha
liderada por ele: recursos financeiros, muito mais tempo de rádio e TV,
diretórios municipais, chapas completas para a Assembleia e a Câmara dos
Deputados.
As partes chegaram a um entendimento, e a federação decidiu permanecer com Ricardo, mediante o atendimento dessa condição.
Na próxima quarta-feira (5), durante sua convenção estadual,
a União Progressista deverá formalizar a candidatura de Camillo a
vice-governador.
Quem é Camillo Neves
Aos 34 anos, Camillo tem pouco mais da metade da idade de
Ricardo, que tem 62. Quando ele nasceu, o atual governador já militava na
política. O vereador “equilibra” a chapa na idade, rejuvenescendo a composição,
e no quesito geográfico, uma vez que ele é de Vitória, enquanto Ricardo é de
Cachoeiro de Itapemirim e muito mais conhecido no interior do Estado.
Capixaba da gema, Camillo cresceu no bairro Ilha de Santa
Maria. Dizendo-se um grande “apaixonado pela política”, ele pode ter a política
no sangue, mas não tem sangue político: é o primeiro de sua família que decidiu
disputar eleições (ao contrário do próprio Ricardo, filho e descendente
político de Theodorico Ferraço).
A mãe do parlamentar é servidora pública aposentada da Caixa
Econômica Federal. O pai, além de músico (voz e violão), é advogado, assim como
o irmão. O próprio Camillo chegou a cursar Direito na Faesa, mas, segundo ele,
deixou o curso no 7º período, devido à dificuldade em conciliar os estudos, na
época, com a outra atividade marcante em sua história de vida: o esporte.
Graduado posteriormente em Educação Física pela Universidade
Paulista (Unip), em Vitória, Camillo é atleta profissional de duas modalidades
futebolísticas. No Brasil, ele chegou a jogar pela seleção brasileira de futebol
de sete (society). Com dupla
nacionalidade, disputou, no ano passado, a Copa do Mundo de futebol de areia,
pela seleção italiana, realizada em Seicheles, na África. A Itália perdeu nas
quartas de final (por 4 a 3) para Senegal. O Brasil foi campeão.
Antes disso, Camillo chegou a jogar beach soccer por clubes da Espanha e da Itália. Aos 18 anos, atuou
no Espanyol, da Catalunha, na Espanha. Mais velho, jogou cinco temporadas em clubes
italianos da modalidade.
Foram quatro anos no Pisa, clube da cidade da famosa torre
inclinada na região da Toscana, e mais um ano no Catania, clube da segunda
maior cidade da Sicília. Passava quatro meses por lá todo ano, durante o verão
europeu (temporada das competições de futebol de areia no país).
Ele fala um italiano limpo e fluente, praticamente sem
sotaque.
A trajetória política
Aos 24 anos, Camillo disputou sua primeira eleição para
vereador, em 2016, pelo antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O partido
elegeu dois vereadores, Dalto Neves e Roberto Martins. Quatro anos depois, ele tentou
de novo chegar à Câmara, mas bateu na trave: ficou como primeiro suplente de
Luiz Paulo Amorim, na chapa do Partido Verde (PV).
Em 2024, na terceira tentativa, finalmente marcou seu primeiro
gol: pelo Progressistas (PP), elegeu-se vereador, com 2.278 votos e como o 12º
mais votado entre os que entraram.
Foi eleito pela coligação do então prefeito Lorenzo Pazolini
(Republicanos), reeleito naquele mesmo pleito. O PP inclusive era e ainda é a
sigla da vice de Pazolini e agora prefeita de Vitória, Cris Samorini.
No primeiro ano de mandato, 2025, Camillo realmente fez
parte da base de Pazolini em plenário. A guinada ocorreu no início deste ano. O
próprio Camillo confirma que o ponto de virada (e de ruptura com o então
prefeito) se deu no contexto da eleição da próxima Mesa Diretora da Câmara de
Vitória, disputa interna que movimenta os vereadores há meses.
Camillo foi um dos principais articuladores do movimento “Dalto
em agosto”: 16 dos 21 parlamentares queriam que o colega Dalto Neves (SD) fosse
eleito na primeira quinzena de agosto – como previa, inicialmente, o Regimento
Interno da Casa –, para presidir a Casa pelo biênio 2027-2028. Pazolini queria
a eleição postergada para o fim do ano, após as eleições gerais de outubro, na
qual ele disputará o cargo de governador.
Os interesses colidiram. O grupo de 16 vereadores, incluindo
muitos da base, entre eles Camillo, manteve-se inarredável. Comandada por
Anderson Goggi (Republicanos), aliado de Pazolini, a Câmara de Vitória apelou ao
STF e, em abril, conseguiu adiar a eleição interna para depois de outubro, em
decisão monocrática de Gilmar Mendes e vitória indireta de Pazolini.
“Não vou negar para você que existe influência da prefeitura
aqui na Câmara. Isso existe. Mas as coisas não podem ser feitas da maneira truculenta
como foi. Não aceitamos carteirada”, declarou Camillo à coluna.
Em março, coincidindo com o auge desse conflito entre
Pazolini e Câmara de Vitória, a Federação União Progressista declarou apoio a
Ricardo Ferraço para governador. Camillo participou do evento de anúncio, no
auditório do Palácio do Café.
Daí em diante, o vereador mudou sua atitude no plenário,
passando a criticar regularmente a Prefeitura de Vitória. Intensificou as
críticas de abril para cá, com a chegada de Ricardo ao Governo de Estado e de
Cris Samorini (por acaso, sua colega de partido) à Prefeitura de Vitória.
O vereador acredita que seu “gesto de independência” no
episódio da Mesa tenha sido importante para chamar a atenção de Ricardo, Da Vitória
e companhia, levando os líderes do movimento casaferracista a passar a considerá-lo
como alternativa para completar a chapa da situação.
“Sou um ativo do partido. O que posso te dizer é que Ricardo
tem muito carinho por mim. Minhas características políticas são a estabilidade
e a discrição. Nunca farei um movimento contrário a você sem conversar com você
primeiro. Amo a política e agora preciso trabalhar e entregar para me manter
bem posicionado.”
Suplente na área
Um dos que entrou no gabinete para felicitar Camillo durante
o nosso bate-bola foi Gilsinho Passarinho, primeiro suplente dele no PP.
Ao disputar a Copa do Mundo de futebol de areia em 2025, Camillo licenciou-se do mandato por dois meses, e Passarinho chegou a assumir durante esse período.
Agora, como se pode notar, ele já está na expectativa de
voltar a assumir.
Curiosidade
Camillo é neto de desembargador e filho de Guto Neves, que
tocou e fez sucesso com Lula D’Vitória e Carlos Bona nos anos 1980 e 1990. Guto
foi um dos primeiros contemplados com a Lei Rubem Braga em Vitória.
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