O ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini é bolsonarista? Foi
a pergunta, simples e direta, que fizemos a Magno Malta, pouco antes da
convenção do PL, em Vila Velha, na manhã deste sábado (1º).
Desde seu ingresso na vida pública, nas eleições de 2018 (a
mesma que levou Jair Bolsonaro ao Planalto), Pazolini nunca se definiu assim. Mas,
agora, o pré-candidato a governador pelo Republicanos tem o apoio do PL e do
próprio Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que declara apoio a Flávio para a
Presidência da República.
A resposta de Magno merece ser emoldurada. O presidente
estadual do PL ressalta que eles não são idênticos – feitos à imagem e
semelhança um do outro –, mas que, digamos assim, suas “fisionomias políticas”
são mais parecidas que as de outros candidatos:
“Bom, nós estamos mais perto do que longe. Cada um se manifesta de uma maneira. Venho conversando com ele esse tempo todo. E, nesses últimos dias, ele tem dado... o discurso dele tem sido mais incisivo, mais forte, revelando aquilo que está dentro do interior dele.”
E quem mais se parece
conosco neste momento, tem mais traços, parece mais as rugas conosco, parece
muito mais com as nossas orelhas e tal... Então, nós vamos nos aproximar e
estar juntos com quem parece um pouco mais conosco. E, neste momento, ele
parece mais conosco.
Magno Malta, senador e presidente do PL no ES
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O dono das “orelhas parecidas com a
de Magno” compareceu à convenção do PL. Chegou ao cerimonial poucos minutos
após Magno e Maguinha Malta, acompanhado do presidente estadual do
Republicanos, Erick Musso, e do deputado federal Evair de Melo, também filiado
ao Republicanos e fortemente cotado para ser o segundo candidato a senador na
chapa encabeçada por Pazolini, ao lado de Maguinha.
Pazolini chegou e saiu sem dar
entrevistas. Ficou sentado o tempo todo à mesa de autoridades, próximo a Magno
e a Maguinha. Discursou por cinco minutos. Saudou Magno, Maguinha e a
militância do PL. Agradeceu pelo “acolhimento”. Elogiou o trabalho de Magno no
Senado, mas não entrou em questões ideológicas.
Quem discursou mais longamente – por
mais de 40 minutos – foi Magno. E, do discurso do senador, já se pôde perceber
que, debaixo das “fisionomias políticas” relativamente parecidas, também há
algumas diferenças que precisarão ser administradas pelo ex-prefeito ao longo
da campanha.
Conforme já prevíamos, a opção de
Pazolini, ao “fechar” com quem professa um discurso bem mais radical que o
dele, inevitavelmente o colocará (e já o coloca) diante de situações delicadas.
Como provou a convenção do PL, ao
lado de Magno & Companhia, o ex-prefeito estará a todo instante premido a
se alinhar (ou não) com posições defendidas por eles. Posições essas muitas
vezes conflitantes ou até incoerentes com o pensamento de Pazolini e até com
ações de governo tomadas por ele.
Dessa vez, o exemplo mais ilustrativo
disso foi o tema vacinação.
Vacinação
Negacionista convicto com relação às vacinas desenvolvidas
para frear a pandemia do novo coronavírus (um clássico do bolsonarismo), Magno
sugeriu, no discurso, que milhões de pessoas morreram porque governantes apostaram
no imunizante – usou palavras como “essa desgraça” e essa “m****” –, em vez da
ivermectina, defendida por ele no discurso – a esta altura dos acontecimentos –
como a melhor forma de tratamento contra a Covid-19.
Pazolini ouviu essa parte sem expressar reação.
Em 2021, primeiro ano de Pazolini à frente da Prefeitura de
Vitória – o mesmo em que as vacinas começaram a ser distribuídas e aplicadas no
Brasil –, o então prefeito tinha orgulho de disponibilizar o imunizante na rede
municipal de saúde. Era o auge da pandemia. Pacientes infectados morriam aos
milhares todo dia no Brasil e no mundo inteiro. Cientificamente, a vacina se
provou a única medida capaz de frear as taxas de contágio. E, de fato, assim
foi.
Peças publicitárias chegaram a ser produzidas, destacando o
fato de que na Capital se vacinava, inclusive pessoas de outros municípios.
Diga-se de passagem, conduzido de maneira técnica, o trabalho de imunização na
rede pública de saúde de Vitória, de fato, foi correto e muito importante para
o povo capixaba em um momento crítico. A Lorenzo o que é de Lorenzo.
Do então prefeito de Vitória, nunca se ouviu uma só palavra
contra a vacinação, muito pelo contrário. Agora, Magno ao seu lado, a bradar
que a vacina é uma “desgraça”...
Outro ponto é o intenso uso da religião, o aparelhamento
político da fé, Deus onipresente nos discursos... Na convenção, Magno sustentou
que aquilo é mesmo um “culto eleitoral” e que é isso aí mesmo, pois essa é sua
identidade e ninguém pode lhe cobrar que ele seja ou aja de outro modo... “O
mote da eleição é a fé”, pregou o senador.
Por sua vez, Maguinha resumiu: “O meu compromisso é com Deus”.
Mais uma vez, a filha de Magno revelou conceber a si mesma como uma candidata
que atende a um chamamento divino, a exemplo de profetas do Velho Testamento
(realmente citados por ela).
Como prefeito, para ficar bem com os evangélicos, Pazolini
frequentava templos e promovia cultos no gabinete, ministrados por pastores...
Como candidato, porém, não me recordo de ele alguma vez ter misturado as esferas,
“abusado” de um discurso religioso, se escorado na fé alheia para conseguir
mais votos... E agora? Haverá essa sobreposição?
Um terceiro ponto é a aposta radical na polarização
ideológica, tratando direita versus esquerda (aliás, versus “comunismo”) como
uma luta do bem contra o mal na Terra. “O Brasil está aliado ao eixo do mal”, discursou
Maguinha.
Em suas duas campanhas vitoriosas a prefeito de Vitória, em 2020 e 2024, Pazolini nunca foi por esse lado. Ao contrário, sempre o evitou, mesmo contra João Coser (PT) no 2º turno em 2020.
Sem citar nomes, Magno ainda falou em “tirar do Espírito
Santo o governo de esquerda”. “De direita nunca foi, não se enganem”.
Classificar Ricardo Ferraço (MDB) como um governante de esquerda é altamente
discutível, mas faz sentido nos limites dessa retórica.
Também sem nominar Renato Casagrande (PSB), o dirigente do
PL afirmou que o ex-governador “já declarou que não vota em impeachment de
ministro e que tem o apoio do Lula, que representa tudo de ruim”. Casagrande é
candidato a senador, logo concorrente de Maguinha.
Impeachment e 8 de
janeiro
Falando em “impeachment de ministro”, essa é uma pauta
prioritária para o PL. Aliás, a plataforma de Maguinha, pelo menos no momento,
não vai muito além disso.
Magno defendeu abertamente o impeachment de Alexandre de Moraes
e até de outros ministros do STF, como Cármen Lúcia. “Em 2027, vamos desapear vocês,
e vocês vão para a cadeia”, “profetizou” o senador, arrancando aplausos da
plateia. Pazolini aplaudiu discretamente.
“Aqui não tem ninguém parecido comigo, porque eu sou único:
moreno de olhos verdes. Ninguém é igual a você, Pazolini! Porque cada um é cada
um, e a gente precisa abrir mão de muitas coisas. E uma das coisas que precisamos
fazer agora é abrir mão do nosso discurso pessoal por um discurso coletivo. Pela
liberdade. Pelo impeachment de Alexandre de Moraes!”, conclamou Magno, citando
outros ministros. Aplausos discretos de Pazolini, meio que no “modo automático”.
Houve um momento em que Magno, como costuma fazer, pediu à
plateia para repetir cada frase dele. Por exemplo, “Débora vive!” (em alusão à “Débora
do batom”). Pazolini repetiu baixinho. “Não são terroristas!” Pazolini repetiu
baixinho.
Registre-se que nenhum dos participantes do 8 de janeiro foi
preso e condenado pelo crime de terrorismo, mas por outros como golpe de
Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, associação
criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
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