A aliança do Republicanos com o PL no Espírito Santo é um
fato. Lorenzo Pazolini declarou apoio a Flávio Bolsonaro para a Presidência e,
por reciprocidade, ganhou o apoio do primeiro filho de Jair para ser governador
do Espírito Santo. Um literalmente abraçou o outro, diante da claque
bolsonarista, em encontro estadual do PL realizado em Vitória, no sábado (18).
Os benefícios desse
casamento político-eleitoral para Pazolini foram amplamente examinados aqui.
Mas a aliança colocada no dedo de Pazolini por Flávio e Magno Malta também pode esconder algumas armadilhas que podem se revelar lá na
frente, no decorrer da campanha.
Comecemos pelo que salta aos olhos: as concessões feitas por
Pazolini para garantir esse apoio do PL. Não foram poucas.
Desde o início das articulações, a meta prioritária do
Republicanos (representado por seu presidente estadual, Erick Musso) sempre foi
assegurar a presença do partido do clã Bolsonaro na coligação de Pazolini. Mais
que o PSD, mais que a Federação União Progressista (que preferiu Ricardo
Ferraço), mais que qualquer outro partido... A meta agora foi alcançada. Mas a
que preço?
Para obter o apoio do PL de Magno Malta, presidente estadual
da sigla, o Republicanos precisou atender a um leque de condicionantes
apresentadas pelo senador. Atenção: não pela direção estadual do PL, por um
grupo de dirigentes ou algo assim. Quando se trata do PL capixaba, há algumas
décadas, a palavra de Magno é lei. A negociação foi direta com ele,
individualmente, e era preciso convencê-lo. O que Magno pediu a Pazolini? Vejamos:
. A escalação de Maguinha Malta (PL), filha do senador, como
primeira candidata ao Senado na coligação de Pazolini, com declaração explícita
de apoio do candidato a governador – check
. Declaração explícita de apoio de Pazolini a Flávio para a
Presidência, com empenho real na campanha do senador fluminense à
Presidência – check
. Alinhamento com o discurso do PL, defesa incondicional de
Jair Bolsonaro, reverberação das pautas prioritárias para o bolsonarismo – partially check (só parcialmente cumprido por Pazolini, pelo menos até o
momento)
E o que é essa “agenda bolsonarista”? O que são as pautas
prioritárias do PL representado por Magno?
Ora, tivemos uma perfeita amostra – e incluo aqui o próprio
Pazolini, espectador privilegiado, de seu lugar no palco – no próprio evento de
Flávio em Vitória, sobretudo no discurso de Magno Malta. Foi uma síntese do que
há de mais radical na ideologia bolsonarista.
A nos pautarmos pela mente de Magno e de outras autoridades
do PL, por “agenda bolsonarista”, você pode incluir de combate à “ideologia de
gênero” à defesa da política armamentista indiscriminada de Jair Bolsonaro; da
crença de que vacinas fazem mal à certeza de que as urnas eletrônicas são
fraudadas; da “extirpação ad eternum”
da esquerda (expressão usada por Magno no sábado) à veneração de Donald Trump; do
“combate ao comunismo” (incluindo o chinês) à prisão do presidente Lula; da
anistia geral aos condenados pelo 8 de janeiro e pela trama golpista ao
impeachment de ministros do STF...
O impeachment de togados, aliás, sobretudo o de Alexandre de
Moraes, foi a tecla mais surrada no evento, que, de resto, foi uma grande
amostra também da sobreposição entre religião, fé e política, numa mistura de showmício gospel com culto eleitoral.
Em dado momento da fala de Magno (mix de discurso político com pregação de pastor), o senador chegou
a expor exóticas teorias conspiratórias futebolísticas. O senador se disse convencido
de que “não deixaram Neymar entrar em campo na Copa porque ele é cristão e
conservador”, motivo pelo qual o perseguem; em compensação, era preciso torcer
pela Argentina na final da Copa do Mundo, “porque Milei tem que ser reeleito”.
Esse é Magno Malta. É ele quem acaba de subir no palanque de
Pazolini – e, com ele, todas essas ideias... Ideias, em sua maior parte, jamais
reverberadas pelo próprio Pazolini, como deputado estadual, prefeito ou
candidato.
Pazolini nunca se valeu de um discurso radical para ser
eleito. Nunca nacionalizou suas campanhas, nem apostou na polarização
ideológica, seja como candidato, seja como prefeito.
E é aqui que mora o primeiro grande questionamento:
Estará Pazolini realmente disposto a abraçar uma pauta tão
radical, adotar (ainda que parcialmente) esse tipo de discurso na campanha e
“nacionalizar” a esse ponto uma disputa estadual?
Uma coisa é, literalmente, abraçar Flávio e receber o seu
abraço. Outra, bem diferente, é abraçar por inteiro essa agenda representada
pelo presidenciável e, sobretudo, por seu pai.
No evento de sábado, Pazolini demonstrou cautela: apenas
molhou os pés nessa água.
Em seus quatro minutos de fala, disse ter “muito em comum” com
seus novos aliados eleitorais; sem falar diretamente em “impeachment de
ministros”, fez uma breve menção ao Senado (o qual, segundo ele, “tem um papel primordial,
de trazer equilíbrio entre as instituições”); declarou apoio a Maguinha e disse
que, votando nela, os capixabas poderão “expressar a sua indignação com essas
injustiças que estão acontecendo em nosso país”.
Mas o ex-prefeito preferiu usar a maior parte do seu tempo destacando outra pauta bem mais objetiva: os bons índices de Vitória no combate aos feminicídios e à violência contra a mulher.
Em bate-bola certamente
combinado antes nos bastidores, sugeriu a Flávio que incorpore a seu plano de
governo a iniciativa de Vitória – sugestão prontamente aceita, diante do
público, pelo presidenciável do PL.
Um exemplo concreto e
o risco maior
Por mais que tenha suas preferências pessoais, Pazolini
sempre evitou levar debates e pautas extremistas para dentro da sua
administração, conduzida com ares mais técnicos. Vou dar só um pequeno exemplo.
Citei acima o famigerado “combate à ideologia de gênero”. Como prefeito, no começo de seu primeiro mandato, início de 2021, Pazolini vetou (corretamente) um projeto do então vereador Gilvan da Federal que era um arremedo do Escola sem Partido, por flagrantes inconstitucionalidades. Hoje, apoiado pelo PL, derrubaria ele o próprio veto, em nome do “alinhamento do discurso”?
Declaradamente de direita, o ex-prefeito, ninguém duvida, sempre esteve mil vezes mais perto de Bolsonaro do que, por exemplo, de Lula. Como eleitor, ninguém há de duvidar que seu voto tenha sido do capitão da reserva nas últimas duas eleições presidenciais. Mas ele nem sequer declarou isso em 2022, quando já era prefeito.
Naquele pleito presidencial, Pazolini não fez registro de apoio a Bolsonaro contra Lula. Manteve distância republicana da disputa nacional – inspirando críticas ferozes, ecoadas em 2024, dos mesmos bolsonaristas que agora passam a ladeá-lo e que então o acusaram de ser “falso representante da direita”, por não ter verdadeiro compromisso com Jair Bolsonaro.
Em suas duas exitosas campanhas a prefeito de Vitória (2020
e 2024), Pazolini tampouco declarou-se apoiador de Bolsonaro ou de quem quer
que fosse. Não se escorou nisso para se eleger. Em ambas as campanhas, aliás, o
partido de Bolsonaro lançou candidato contra ele (PSL em 2020; PL em 2024).
Enfim, a meu ver, o risco maior para Pazolini é o de,
instado a dar o check completo
naquela última casinha, acabar flertando com um radicalismo de que ele nunca se
valeu e que talvez nem precisasse adotar agora para ser competitivo o bastante...
Se isso ocorrer, os eleitores bolsonaristas mais fanatizados (como aqueles que
estavam no evento) vão chover no colo dele? Vão, certamente vão.
O risco, entretanto, é jogar no colo de Ricardo Ferraço (MDB) aquela outra
legião de eleitores de centro, centro-direita, centro moderado, independentes
etc. que não engolem esse discurso jungle
fight, no estilo MMA: Magno Malta Apoia.
Mas aí talvez seja Ricardo quem precise conter um pouco o próprio discurso, que também já anda flertando (até mais que o de Pazolini) com essa extrema-direita... o que é tema para outra coluna.
Magnum periculum: o risco
Magno
A aliança
com o PL também implica outro risco para Pazolini. Ao selar esse casamento, ele
traz para dentro de sua campanha não só Flávio Bolsonaro e boa parte dos votos
bolsonaristas. Traz o pacote completo, o que inclui todos os “pitbulls sem vacina” do PL (Gilvan,
Lucas Polese, Pastor Fabiano etc.), como costuma definir Magno Malta.
Está certo que bolsonaristas
fervorosos não sejam lá grandes fãs de vacinas... Mas cão não vacinado pega
raiva. Pazolini acaso há de querer aliados raivosos pedindo votos em seu nome?
Mas, acima de tudo, o “pacote
completo” do PL inclui o próprio Magno Malta.
É um aliado pesado.
Magno tem um nicho de eleitores fidelíssimos (uma base que parte de 600 mil pessoas no Espírito Santo) e já provou ser dotado de invejável resiliência política.
Em seu pior momento, foi rechaçado pelos eleitores capixabas em 2018, ano em que perdeu a reeleição. Ao estilo de Donald Trump, recolheu os cacos e, na eleição seguinte, em 2022, conseguiu voltar para o Senado. Mesmo após quatro anos na planície, aumentou sua votação de 611.284 para 821.189. É preciso respeitá-lo por isso.
Todavia, fora da sua bolha, Magno enfrenta uma
irrefutável rejeição, provada pela última pesquisa Quaest para a Rede Gazeta.
Se ele fosse candidato a governador, 55% dos 804 entrevistados jamais votariam
nele. Só 30% o conhecem e lhe dariam o voto.
Em que medida ter a seu lado um aliado tão “pesado” (além da filha dele como sua candidata ao Senado) pode prejudicar Pazolini e, por associação, sua imagem?
Ademais, Magno está aí na pista política há quase 40 anos. Em que medida isso
pode afetar o discurso de “renovação política” encarnado por Pazolini?
Em sua curta e meteórica
trajetória política, Pazolini sempre se caracterizou por não aceitar tutela de
nenhum político mais experiente. Sempre procurou se firmar como um self-made politician. Magno, como é
sabido, gosta de ter voz de comando. Em que medida o senador pode querer
influenciar os rumos da campanha do ex-prefeito de Vitória?
E mais: em caso de triunfo nas
urnas, Magno não há de querer espaços no governo Pazolini?
Lá nos primórdios da carreira política
do delegado, em 2018, seria um exagero dizer que Magno “impulsionou” Pazolini.
Mas é fato que tiveram proximidade, até por conta dos trabalhos de combate à
pedofilia – este como delegado, aquele como presidente da CPI dos Maus Tratos.
Nos meses iniciais do primeiro
mandato de Pazolini, em 2019, ele chegou a empregar uma das filhas de Magno,
Karla Malta, como sua assessora na Assembleia.
Depois os dois se distanciaram bastante. As administrações de Pazolini em Vitória
não tiveram participação nem de Magno nem do PL. Como será agora essa conversa
sobre eventual participação no governo?
Flávio não vive um bom momento
Por fim, um risco para Pazolini
que não se pode ignorar é que ele abraça Flávio justamente num momento em que
este está em viés de baixa, inclusive no Espírito Santo, captado pelas últimas
pesquisas eleitorais.
Pela premência do calendário
eleitoral, a hora era mesmo agora, mas... a pré-candidatura do senador tem
sofrido com uma série de abalos, incluindo suas ligações pregressas com Daniel
Vorcaro, os mais de R$ 100 milhões repassados pelo banqueiro a seu pedido no
caso “Dark Horse”, os desentendimentos públicos com a madrasta Michelle
Bolsonaro e as consequências, para sua imagem, do mais recente tarifaço
decretado por Trump.