Por que alguns países conseguem pagar salários elevados, investir em educação e saúde de qualidade, reduzir desigualdades e sustentar décadas de prosperidade, enquanto outros passam anos alternando pequenos ciclos de crescimento e longos períodos de estagnação? A resposta, em grande medida, está em uma única palavra: produtividade.
É a produtividade que determina quanto uma economia consegue produzir, quanto uma empresa consegue crescer, quanto um trabalhador pode ganhar e quanto um país é capaz de investir em seu futuro.
Produtividade não significa trabalhar mais horas. Significa transformar conhecimento, tecnologia, capital e talento em mais riqueza. É ela que explica por que dois países com recursos naturais semelhantes podem oferecer padrões de vida diferentes, que separa economias desenvolvidas daquelas que permanecem presas à chamada "armadilha da renda média”. Esse é um dos maiores desafios brasileiros.
Estudos do FGV IBRE, coordenados por pesquisadores como Fernando Veloso, mostram que a produtividade do trabalho praticamente estagnou desde os anos 1980, com breves períodos de recuperação incapazes de alterar essa trajetória.
Segundo a OCDE, a produtividade do trabalhador brasileiro permanece muito inferior à observada nas economias mais avançadas e representa apenas uma fração da registrada nos Estados Unidos.
Já a Conference Board mostra que o Brasil teve um dos desempenhos mais modestos entre as grandes economias emergentes no crescimento da produtividade desde os anos 1990. Em outras palavras: trabalhamos muito, mas transformamos pouco o esforço em valor.
Existe, porém, uma exceção notável: o agronegócio. Nas últimas cinco décadas, o campo brasileiro protagonizou uma das maiores revoluções de produtividade da história econômica contemporânea. De importador de alimentos, o Brasil tornou-se uma das maiores potências agroalimentares do planeta.
Essa transformação foi construída por uma combinação de pesquisa científica, inovação tecnológica, empreendedorismo, crédito, mecanização, biotecnologia, agricultura de precisão e instituições como a Embrapa, cuja capacidade de transformar ciência em soluções para o produtor rural tornou-se referência internacional.
O aumento da produção agrícola brasileira decorreu muito mais dos ganhos de produtividade do que da simples expansão da área cultivada.
Se fomos capazes de construir um dos agronegócios mais competitivos do mundo, por que ainda não conseguimos produzir uma revolução semelhante na indústria, nos serviços e na administração pública?
Nossa economia ainda convive com um ambiente regulatório complexo, baixa difusão tecnológica, deficiências logísticas, investimentos insuficientes em pesquisa e desenvolvimento, baixa integração entre universidades e empresas e um sistema educacional que ainda forma menos profissionais nas competências exigidas pela economia do conhecimento.
O setor de serviços, que responde por cerca de 70% do Produto Interno Bruto, permanece marcado por ganhos de produtividade modestos. É justamente aí que reside uma das maiores oportunidades de transformação do país. Podemos nos inspirar em vários exemplos pelo mundo.
A Coreia do Sul saiu de uma renda per capita semelhante à brasileira nos anos 1960 para se tornar uma das economias mais inovadoras do planeta graças a investimentos em educação, ciência e tecnologia. Hoje, está entre os países que mais investem em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB.
Israel transformou escassez de recursos naturais em abundância de conhecimento. Construiu um dos ecossistemas de inovação mais sofisticados do mundo apoiado em universidades, empreendedorismo, capital de risco e transferência tecnológica.
A Estônia reinventou o Estado por meio da digitalização. Praticamente todos os serviços públicos podem ser acessados on-line, reduzindo custos, burocracia e tempo para cidadãos e empresas.
A Irlanda apostou na qualificação da mão de obra, na abertura econômica e na atração de investimentos intensivos em tecnologia, tornando-se um dos casos mais emblemáticos de transformação produtiva na Europa.
Nenhum desses países encontrou uma fórmula mágica. Todos fizeram escolhas consistentes durante décadas. Para nós, será preciso investir em inteligência artificial, automação, infraestrutura, digitalização, educação de qualidade, pesquisa aplicada, inovação empresarial e formação de capital humano.
Criar um ambiente em que empreender seja mais simples, inovar seja mais rápido e competir globalmente seja uma consequência natural.
Essa reflexão também diz respeito ao Espírito Santo. Nosso estado reúne ativos importantes: equilíbrio institucional, localização estratégica, boa infraestrutura logística, empresas competitivas, universidades de excelência e um ambiente de negócios que vem se fortalecendo.
Se conseguir acelerar a incorporação de tecnologia e inovação em sua base produtiva, poderá posicionar-se entre os estados mais dinâmicos da economia brasileira nas próximas décadas.
Durante muito tempo, o debate nacional concentrou-se em como distribuir riqueza. A próxima geração precisará enfrentar uma pergunta anterior: como criar mais riqueza.
Nenhuma sociedade consegue repartir de forma sustentável aquilo que não produz, e nenhum país alcança o desenvolvimento sem colocar a produtividade no centro de seu projeto nacional.