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Afinal, para que lado estamos indo? Lockdown ou reabertura gradual?

Na condução da crise sanitária, o governo estadual, ultimamente, tem manifestado algumas contradições e causado certa desorientação nos cidadãos em geral: ora indica endurecimento, ora sinaliza relaxamento

Publicado em 01 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

01 jun 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Notícias publicadas por A Gazeta, nesta ordem, na última sexta-feira (29), a partir de entrevistas coletivas concedidas por secretários de Estado
Notícias publicadas por A Gazeta, nesta ordem, na última sexta-feira (29), a partir de entrevistas coletivas concedidas por secretários de Estado Crédito: Reprodução do site de A Gazeta
Na condução da crise sanitária do novo coronavírus, o governo estadual, ultimamente, tem manifestado algumas contradições e causado certa desorientação nos cidadãos em geral. Declarações e medidas recentes deixaram a impressão de falta de coordenação, além de aparente incoerência.
O governo estava indo bem, seguindo uma linha ao menos coerente, até o início de maio. Podia-se até não concordar com o conjunto de medidas, mas não se podia negar que elas tinham um norte bem definido: isolamento social horizontal. Mas, de algumas semanas para cá, sobretudo na semana passada, a equipe de Renato Casagrande (PSB) passou a apontar para direções diferentes, por vezes até conflitantes.
Os sinais emitidos por secretários têm sido trocados, às vezes contraditórios. Lá na ponta (os cidadãos), que no fim é o que mais importa, a mensagem não está chegando de maneira clara e uniforme, e o resultado se observa nas conversas privadas. As pessoas em geral estão cheias de dúvidas: afinal, estamos caminhando na direção de um lockdown ou de maior abertura? Em que ponto nos encontramos e qual é a tendência hoje? Restringir mais ou flexibilizar mais?
Ora o governo sinaliza uma tendência de endurecimento das regras de isolamento social; ora indica afrouxamento dessas regras. Num dia, determinado secretário aponta na direção do enrijecimento; no dia seguinte (ou até no mesmo dia), vem outro e aponta na direção contrária.
Afinal, para que lado está indo o navio???
A propósito, parece não ser casual que essa confusão tenha se acentuado a partir do momento em que o próprio governador autoconfinou-se na residência oficial da Praia da Costa, para cumprir medida de isolamento domiciliar, desde que foi diagnosticado com a Covid-19, na última segunda-feira (25). O navio não está sem capitão, mas este está trancado em sua cabine, para não contagiar o resto da tripulação. Enquanto isso, cada um dos seus contra-almirantes parece querer virar o leme da embarcação para um lado.

CRONOLOGIA DOS FATOS (E DAS DÚVIDAS)

Até o início de maio, podia se falar em uma linha clara e coesa por parte do governo: isolamento horizontal, com fechamento total (e inflexível) dos estabelecimentos comerciais considerados não essenciais. A coisa começou a ficar turva justamente a partir do momento em que o governo começou a flexibilizar as restrições.

DECRETO 1: RODÍZIO NO COMÉRCIO

Primeiro, veio o decreto de Casagrande que estabeleceu, desde o dia 11 de maio, o sistema de rodízio para funcionamento de lojas e serviços não essenciais, respeitadas algumas exigências relacionadas a cuidados sanitários e limitação de horários e do fluxo de clientes. Desse ponto em diante, com base nos sinais dados pelo próprio governo, pensou-se: “Ah, bem, então é para lá que estamos indo agora: rumo a uma reabertura progressiva”.

DECRETO 2: REABERTURA DE ACADEMIAS

Em 23 de maio, o governador baixou novo decreto, permitindo o retorno do funcionamento de academias de ginástica - novamente, desde que observado um conjunto de procedimentos sanitários. Essa medida reforçou aquela sensação geral: “É, definitivamente, é nessa direção que estamos indo: afrouxamento gradual dos limites à livre circulação”.

LOCKDOWN ENTRA EM ENTREVISTAS E CONVERSAS

Mas aí, na última semana, emissários importantes do governo estadual na condução dessa crise começaram a acenar com a possibilidade não de maior flexibilização, mas de recrudescimento das regras de isolamento social. Passaram a tratar, inclusive, em entrevistas à imprensa, a decretação de um lockdown como hipótese plausível.
E, de repente, o anglicanismo entrou em todas as rodas virtuais de conversa (“Será que teremos mesmo um lockdown?”), acompanhado de outras interrogações: “Ué, mas não estávamos rumando para aquele outro lado? Se o governo admite que é possível decretar um lockdown, por que então estamos vendo a reabertura de lojas e até de academias de ginástica?”

ENTREVISTA DE HOFFMANN À CBN

1) Essa decisão, se viesse a ser tomada, seguiria critério técnicos, não políticos; 2) O principal desses critérios é a taxa de ocupação de leitos de UTI destinados exclusivamente a pacientes com a Covid-19: se esta ultrapassar os 90%, entraremos em sinal de alerta máximo, e o governo poderá, sim, determinar medidas mais rígidas, que podem incluir a decretação de lockdown na Grande Vitória.
Ora, na véspera daquela entrevista, essa taxa de ocupação havia beirado os 90% na Grande Vitória. Com base no critério apresentado pelo próprio governo, tínhamos motivo de sobra para crer que poderíamos mesmo estar perto desse enrijecimento das medidas.

REUNIÃO COM EMPRESÁRIOS

Ora, se o governo planejava discutir diretamente com empresários sobre a possível necessidade de um lockdown, tínhamos aí mais um forte indicativo de que essa medida estava (ou está) mesmo no radar do Palácio Anchieta.
À coluna, na quarta-feira (27), Hoffmann confirmou a intenção de realizar tal reunião. Já o presidente da Findes, Léo de Castro, confirmou ter sido convidado, mas declarou que não acreditava em necessidade de lockdown; ao contrário, em nome dos industriais, advogou por maior reabertura, inclusive de shoppings (desde que tomados os devidos cuidados).

HOFFMANN DESCARTA LOCKDOWN...

Aí, na quinta-feira (28), o secretário de Governo fez o que pode ser considerado um recuo em relação ao discurso anterior: descartou completamente lockdown para a semana seguinte (esta), com base em alguns dados técnicos - acima de tudo, a ampliação da oferta de leitos de UTI para Covid-19 na Grande Vitória, já nesta primeira semana de junho, proporcionada pela chegada do primeiro lote de respiradores adquiridos pelo governo de uma empresa italiana (60 aparelhos).

...MAS NÉSIO VOLTA A ADMITIR A MEDIDA

Para completar, na tarde de sexta-feira (29), em coletiva de imprensa, o secretário de Estado da Saúde, Nésio Medeiros, voltou a tratar o lockdown como possibilidade concreta: adiantou que o Mapa de Risco da pandemia no Espírito Santo seria atualizado nesse sábado (30) e que poderia trazer cidades classificadas como em “risco extremo” - o que poderia resultar, segundo ele, na decretação do lockdown:
“Neste mês, amadurecemos o que deve acontecer nas cidades quando o risco extremo for adotado, com a possibilidade de lockdown, em que se fecha um conjunto grande de atividades econômicas e sociais, decretando um silêncio nas cidades para que as pessoas fiquem em casa.”
Então volta, pessoal: o lockdown voltou para a mesa!
Pessoa manifesta desorientação ao ler duas notícias em sequência, proporcionadas pelo governo Casagrande, na última sexta-feira (29)
Pessoa manifesta desorientação ao ler duas notícias em sequência, proporcionadas pelo governo Casagrande, na última sexta-feira (29) Crédito: Reprodução WhatsApp

DECRETO 3: REABERTURA DE SHOPPINGS

Mas eis que, surpresa das surpresas, o governo convoca uma coletiva de imprensa para as 19h30, quatro horas após a do secretário da Saúde. E, para surpresa ainda maior, a secretária estadual de Gestão e Recursos Humanos, Lenise Loureiro, outra coadjuvante de peso nessas discussões, anuncia decreto de reabertura dos shoppings - de novo, com uma série de limitações, mas atendendo a um pleito forte do setor.
Aí deu curto-circuito: “Ah, pronto: estamos indo pra cá ou pra lá?” Por que o governo estaria permitindo a reabertura até de shoppings se a ideia de um lockdown ainda estivesse na mesa? Que sentido faria relaxar ainda mais as regras agora para depois revogar tal medida e adotar regras ainda mais duras do que as que tínhamos em maio?

NOVO MAPA DE RISCO

Aí ninguém entendeu mais nada.
E essa não é uma impressão só minha. Tenho participado da cobertura da crise. Mas colegas que têm acompanhado as coletivas muito mais no detalhe me garantem: ficaram com a mesma sensação. E, se até jornalistas percebem certa confusão, que dirá o público em geral?

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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