Na condução da crise sanitária do novo coronavírus, o governo estadual, ultimamente, tem manifestado algumas contradições e causado certa desorientação nos cidadãos em geral. Declarações e medidas recentes deixaram a impressão de falta de coordenação, além de aparente incoerência.
O governo estava indo bem, seguindo uma linha ao menos coerente, até o início de maio. Podia-se até não concordar com o conjunto de medidas, mas não se podia negar que elas tinham um norte bem definido: isolamento social horizontal. Mas, de algumas semanas para cá, sobretudo na semana passada, a equipe de Renato Casagrande (PSB) passou a apontar para direções diferentes, por vezes até conflitantes.
Os sinais emitidos por secretários têm sido trocados, às vezes contraditórios. Lá na ponta (os cidadãos), que no fim é o que mais importa, a mensagem não está chegando de maneira clara e uniforme, e o resultado se observa nas conversas privadas. As pessoas em geral estão cheias de dúvidas: afinal, estamos caminhando na direção de um lockdown ou de maior abertura? Em que ponto nos encontramos e qual é a tendência hoje? Restringir mais ou flexibilizar mais?
Ora o governo sinaliza uma tendência de endurecimento das regras de isolamento social; ora indica afrouxamento dessas regras. Num dia, determinado secretário aponta na direção do enrijecimento; no dia seguinte (ou até no mesmo dia), vem outro e aponta na direção contrária.
Foi assim, por exemplo, na última sexta-feira (29): o secretário de Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), voltou a abordar, como possibilidade real, a ideia de um lockdown (fechamento total de comércio e indústria e confinamento compulsório dos cidadãos em suas casas); quatro horas depois, a secretária de Gestão e Recursos Humanos, Lenise Loureiro (Cidadania), anunciou a reabertura dos shopping centers, não como "possibilidade real", mas como fato concreto: o governo tomou essa medida, válida a partir desta segunda-feira (1º).
Afinal, para que lado está indo o navio???
A propósito, parece não ser casual que essa confusão tenha se acentuado a partir do momento em que o próprio governador autoconfinou-se na residência oficial da Praia da Costa, para cumprir medida de isolamento domiciliar, desde que foi diagnosticado com a Covid-19, na última segunda-feira (25). O navio não está sem capitão, mas este está trancado em sua cabine, para não contagiar o resto da tripulação. Enquanto isso, cada um dos seus contra-almirantes parece querer virar o leme da embarcação para um lado.
CRONOLOGIA DOS FATOS (E DAS DÚVIDAS)
Até o início de maio, podia se falar em uma linha clara e coesa por parte do governo: isolamento horizontal, com fechamento total (e inflexível) dos estabelecimentos comerciais considerados não essenciais. A coisa começou a ficar turva justamente a partir do momento em que o governo começou a flexibilizar as restrições.
DECRETO 1: RODÍZIO NO COMÉRCIO
Primeiro, veio o decreto de Casagrande que estabeleceu, desde o dia 11 de maio, o sistema de rodízio para funcionamento de lojas e serviços não essenciais, respeitadas algumas exigências relacionadas a cuidados sanitários e limitação de horários e do fluxo de clientes. Desse ponto em diante, com base nos sinais dados pelo próprio governo, pensou-se: “Ah, bem, então é para lá que estamos indo agora: rumo a uma reabertura progressiva”.
DECRETO 2: REABERTURA DE ACADEMIAS
Em 23 de maio, o governador baixou novo decreto, permitindo o retorno do funcionamento de academias de ginástica - novamente, desde que observado um conjunto de procedimentos sanitários. Essa medida reforçou aquela sensação geral: “É, definitivamente, é nessa direção que estamos indo: afrouxamento gradual dos limites à livre circulação”.
LOCKDOWN ENTRA EM ENTREVISTAS E CONVERSAS
Mas aí, na última semana, emissários importantes do governo estadual na condução dessa crise começaram a acenar com a possibilidade não de maior flexibilização, mas de recrudescimento das regras de isolamento social. Passaram a tratar, inclusive, em entrevistas à imprensa, a decretação de um lockdown como hipótese plausível.
E, de repente, o anglicanismo entrou em todas as rodas virtuais de conversa (“Será que teremos mesmo um lockdown?”), acompanhado de outras interrogações: “Ué, mas não estávamos rumando para aquele outro lado? Se o governo admite que é possível decretar um lockdown, por que então estamos vendo a reabertura de lojas e até de academias de ginástica?”
ENTREVISTA DE HOFFMANN À CBN
Na segunda-feira passada (25), em entrevista à rádio CBN, o secretário de Estado de Governo, Tyago Hoffmann (PSB), um ator importante nesse processo, deixou claro que um lockdown na Grande Vitória não estava descartado pela Sala de Situação, ressalvando dois pontos:
1) Essa decisão, se viesse a ser tomada, seguiria critério técnicos, não políticos; 2) O principal desses critérios é a taxa de ocupação de leitos de UTI destinados exclusivamente a pacientes com a Covid-19: se esta ultrapassar os 90%, entraremos em sinal de alerta máximo, e o governo poderá, sim, determinar medidas mais rígidas, que podem incluir a decretação de lockdown na Grande Vitória.
Ora, na véspera daquela entrevista, essa taxa de ocupação havia beirado os 90% na Grande Vitória. Com base no critério apresentado pelo próprio governo, tínhamos motivo de sobra para crer que poderíamos mesmo estar perto desse enrijecimento das medidas.
REUNIÃO COM EMPRESÁRIOS
No dia seguinte (26), em entrevista à coluna, um representante do governo reforçou as assertivas de Hoffmann à CBN e acrescentou uma informação capital: até a sexta-feira (29), o governo pretendia reunir-se, por videoconferência, com representantes das federações das indústrias, comerciantes e outras entidades empresariais. Em pauta, precisamente, um plano para adoção de medidas mais rigorosas de isolamento, em caso de necessidade.
Ora, se o governo planejava discutir diretamente com empresários sobre a possível necessidade de um lockdown, tínhamos aí mais um forte indicativo de que essa medida estava (ou está) mesmo no radar do Palácio Anchieta.
À coluna, na quarta-feira (27), Hoffmann confirmou a intenção de realizar tal reunião. Já o presidente da Findes, Léo de Castro, confirmou ter sido convidado, mas declarou que não acreditava em necessidade de lockdown; ao contrário, em nome dos industriais, advogou por maior reabertura, inclusive de shoppings (desde que tomados os devidos cuidados).
HOFFMANN DESCARTA LOCKDOWN...
Aí, na quinta-feira (28), o secretário de Governo fez o que pode ser considerado um recuo em relação ao discurso anterior: descartou completamente lockdown para a semana seguinte (esta), com base em alguns dados técnicos - acima de tudo, a ampliação da oferta de leitos de UTI para Covid-19 na Grande Vitória, já nesta primeira semana de junho, proporcionada pela chegada do primeiro lote de respiradores adquiridos pelo governo de uma empresa italiana (60 aparelhos).
...MAS NÉSIO VOLTA A ADMITIR A MEDIDA
Para completar, na tarde de sexta-feira (29), em coletiva de imprensa, o secretário de Estado da Saúde, Nésio Medeiros, voltou a tratar o lockdown como possibilidade concreta: adiantou que o Mapa de Risco da pandemia no Espírito Santo seria atualizado nesse sábado (30) e que poderia trazer cidades classificadas como em “risco extremo” - o que poderia resultar, segundo ele, na decretação do lockdown:
“Neste mês, amadurecemos o que deve acontecer nas cidades quando o risco extremo for adotado, com a possibilidade de lockdown, em que se fecha um conjunto grande de atividades econômicas e sociais, decretando um silêncio nas cidades para que as pessoas fiquem em casa.”
Então volta, pessoal: o lockdown voltou para a mesa!
DECRETO 3: REABERTURA DE SHOPPINGS
Mas eis que, surpresa das surpresas, o governo convoca uma coletiva de imprensa para as 19h30, quatro horas após a do secretário da Saúde. E, para surpresa ainda maior, a secretária estadual de Gestão e Recursos Humanos, Lenise Loureiro, outra coadjuvante de peso nessas discussões, anuncia decreto de reabertura dos shoppings - de novo, com uma série de limitações, mas atendendo a um pleito forte do setor.
Aí deu curto-circuito: “Ah, pronto: estamos indo pra cá ou pra lá?” Por que o governo estaria permitindo a reabertura até de shoppings se a ideia de um lockdown ainda estivesse na mesa? Que sentido faria relaxar ainda mais as regras agora para depois revogar tal medida e adotar regras ainda mais duras do que as que tínhamos em maio?
NOVO MAPA DE RISCO
No sábado, o novo Mapa de Risco não trouxe nenhuma cidade efetivamente em “risco extremo”, segundo os critérios do governo, mas 12 em “risco alto”, incluindo as cinco da Grande Vitória.
Aí ninguém entendeu mais nada.
E essa não é uma impressão só minha. Tenho participado da cobertura da crise. Mas colegas que têm acompanhado as coletivas muito mais no detalhe me garantem: ficaram com a mesma sensação. E, se até jornalistas percebem certa confusão, que dirá o público em geral?