Afinal, para que lado estamos indo? Lockdown ou reabertura gradual?
Tá confuso!
Afinal, para que lado estamos indo? Lockdown ou reabertura gradual?
Na condução da crise sanitária, o governo estadual, ultimamente, tem manifestado algumas contradições e causado certa desorientação nos cidadãos em geral: ora indica endurecimento, ora sinaliza relaxamento
Notícias publicadas por A Gazeta, nesta ordem, na última sexta-feira (29), a partir de entrevistas coletivas concedidas por secretários de EstadoCrédito: Reprodução do site de A Gazeta
Na condução da crise sanitária do novo coronavírus, o governo estadual, ultimamente, tem manifestado algumas contradições e causado certa desorientação nos cidadãos em geral. Declarações e medidas recentes deixaram a impressão de falta de coordenação, além de aparente incoerência.
O governo estava indo bem, seguindo uma linha ao menos coerente, até o início de maio. Podia-se até não concordar com o conjunto de medidas, mas não se podia negar que elas tinham um norte bem definido: isolamento social horizontal. Mas, de algumas semanas para cá, sobretudo na semana passada, a equipe de Renato Casagrande (PSB) passou a apontar para direções diferentes, por vezes até conflitantes.
Os sinais emitidos por secretários têm sido trocados, às vezes contraditórios. Lá na ponta (os cidadãos), que no fim é o que mais importa, a mensagem não está chegando de maneira clara e uniforme, e o resultado se observa nas conversas privadas. As pessoas em geral estão cheias de dúvidas: afinal, estamos caminhando na direção de um lockdown ou de maior abertura? Em que ponto nos encontramos e qual é a tendência hoje? Restringir mais ou flexibilizar mais?
Ora o governo sinaliza uma tendência de endurecimento das regras de isolamento social; ora indica afrouxamento dessas regras. Num dia, determinado secretário aponta na direção do enrijecimento; no dia seguinte (ou até no mesmo dia), vem outro e aponta na direção contrária.
A propósito, parece não ser casual que essa confusão tenha se acentuado a partir do momento em que o próprio governador autoconfinou-se na residência oficial da Praia da Costa, para cumprir medida de isolamento domiciliar, desde que foi diagnosticado com a Covid-19, na última segunda-feira (25). O navio não está sem capitão, mas este está trancado em sua cabine, para não contagiar o resto da tripulação. Enquanto isso, cada um dos seus contra-almirantes parece querer virar o leme da embarcação para um lado.
CRONOLOGIA DOS FATOS (E DAS DÚVIDAS)
Até o início de maio, podia se falar em uma linha clara e coesa por parte do governo: isolamento horizontal, com fechamento total (e inflexível) dos estabelecimentos comerciais considerados não essenciais. A coisa começou a ficar turva justamente a partir do momento em que o governo começou a flexibilizar as restrições.
Mas aí, na última semana, emissários importantes do governo estadual na condução dessa crise começaram a acenar com a possibilidade não de maior flexibilização, mas de recrudescimento das regras de isolamento social. Passaram a tratar, inclusive, em entrevistas à imprensa, a decretação de um lockdown como hipótese plausível.
E, de repente, o anglicanismo entrou em todas as rodas virtuais de conversa (“Será que teremos mesmo um lockdown?”), acompanhado de outras interrogações: “Ué, mas não estávamos rumando para aquele outro lado? Se o governo admite que é possível decretar um lockdown, por que então estamos vendo a reabertura de lojas e até de academias de ginástica?”
1) Essa decisão, se viesse a ser tomada, seguiria critério técnicos, não políticos; 2) O principal desses critérios é a taxa de ocupação de leitos de UTI destinados exclusivamente a pacientes com a Covid-19: se esta ultrapassar os 90%, entraremos em sinal de alerta máximo, e o governo poderá, sim, determinar medidas mais rígidas, que podem incluir a decretação de lockdown na Grande Vitória.
Ora, na véspera daquela entrevista, essa taxa de ocupação havia beirado os 90% na Grande Vitória. Com base no critério apresentado pelo próprio governo, tínhamos motivo de sobra para crer que poderíamos mesmo estar perto desse enrijecimento das medidas.
Ora, se o governo planejava discutir diretamente com empresários sobre a possível necessidade de um lockdown, tínhamos aí mais um forte indicativo de que essa medida estava (ou está) mesmo no radar do Palácio Anchieta.
“Neste mês, amadurecemos o que deve acontecer nas cidades quando o risco extremo for adotado, com a possibilidade de lockdown, em que se fecha um conjunto grande de atividades econômicas e sociais, decretando um silêncio nas cidades para que as pessoas fiquem em casa.”
Então volta, pessoal: o lockdown voltou para a mesa!
Pessoa manifesta desorientação ao ler duas notícias em sequência, proporcionadas pelo governo Casagrande, na última sexta-feira (29)Crédito: Reprodução WhatsApp
Aí deu curto-circuito: “Ah, pronto: estamos indo pra cá ou pra lá?” Por que o governo estaria permitindo a reabertura até de shoppings se a ideia de um lockdown ainda estivesse na mesa? Que sentido faria relaxar ainda mais as regras agora para depois revogar tal medida e adotar regras ainda mais duras do que as que tínhamos em maio?
E essa não é uma impressão só minha. Tenho participado da cobertura da crise. Mas colegas que têm acompanhado as coletivas muito mais no detalhe me garantem: ficaram com a mesma sensação. E, se até jornalistas percebem certa confusão, que dirá o público em geral?
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.