O presidente Bolsonaro não é louco. Mas revela grande confusão mental. Uma mente confusa e perturbada é o que ele mesmo oferece ao público no vídeo da reunião ministerial realizada no dia 22 de abril e trazida à tona em 22 de maio por decisão do ministro Celso de Mello. Longe dos gravadores, microfones e câmeras de TV, surge perante nossos olhos um Bolsonaro sem filtros, que se apresenta como realmente é e como realmente pensa.
O presidente coloca a nu sua mente. Põe seu cérebro na mesa, para exame. E, à parte o alto grau de paranoia, o que essa tomografia comprova é que alguns conceitos fundamentais, como “liberdade”, “democracia” e “ditadura”, sofrem grande distorção em sua cabeça. O presidente tem uma ideia muito própria e peculiar sobre cada um deles.
Decretar o isolamento social para frear a pandemia? Coisa de ditador. Defender desobediência civil? Normal. Chancelar movimentos que pregam o fechamento de Poderes e a hipertrofia do Executivo? Tudo normal, segue o jogo.
Um exemplo clamoroso do que afirmo é a argumentação de Bolsonaro, na reunião, a respeito do armamento civil. Facilitar ou não o porte e a posse de armas de fogo por civis é um debate que deveria ser travado estritamente no campo da segurança pública. Ora, essa é uma questão relacionada, essencialmente, ao tema da violência comum, sobretudo da violência urbana. Ponto. A discussão é (ou deveria ser): mais armas de fogo nas mãos de mais civis aumentam ou diminuem os índices de homicídios e de criminalidade em geral?
Mas, na mente de Bolsonaro, o cerne da questão é outro. Para o presidente, em um contorcionismo sofístico, o Estado precisa garantir que toda a população esteja armada até os dentes porque isso evitará a “implantação de uma ditadura” no país.
Em outras palavras, Bolsonaro consegue transformar até uma questão de segurança pública em uma discussão político-ideológica. E demonstra convicção sincera de que esse é mesmo o ponto central do debate sobre armas de fogo. “Legítima defesa”? Não. “Proteger-se de bandidos”? Tampouco. Armar a população, “no seu entender”, é uma questão estratégica para a "defesa da liberdade", da "democracia" etc.
Podemos perguntar: mas como é que encher a população civil de armas pode “impedir uma ditadura”? Se o Exército puser tanques nas ruas, marchando contra o Congresso ou contra o palácio de governadores, os cidadãos sairão armados para evitar o iminente golpe de Estado? Nada disso. É que a ideia de “ditadura” do presidente é outra. E aí tornamos à questão da confusão conceitual.
Na reunião com os ministros, Bolsonaro expressa o entendimento de que medidas relacionadas ao isolamento social, decretadas por prefeitos e governadores na luta inglória para conter a pandemia do novo coronavírus, são medidas ditatoriais. Como ele chega a sugerir, seria o início da implantação de uma ditadura no Brasil, o que precisaria ser contido.
"O que esses filha de uma égua quer, ô, Weintraub, é a nossa liberdade! Olha como é fácil impor uma ditadura no Brasil! Como é fácil! O povo está dentro de casa! Por isso é que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia de que não vai ter um filho da puta para aparecer e impor uma ditadura aqui. Que é fácil impor uma ditadura aqui, facílimo!"
Prossegue Bolsonaro: “Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema e deixa todo mundo dentro de casa. Se estivesse armado, ia pra rua! E, se eu fosse ditador, eu queria desarmar a população. [...] É escancarar a qüestão (sic) do armamento aqui. Eu quero todo mundo armado! Que povo armado jamais será escravizado”.
O mais grave não está no que é verbalizado, mas no que é insinuado pelo presidente. Ao afirmar que deseja a população inteira armada porque isso impediria a “imposição de uma ditadura”, Bolsonaro quer dizer que, se todos estivessem armados, prefeitos e governadores pensariam duas vezes antes de baixar decretos de isolamento social.
A lógica desse raciocínio é perversa: se armadas estivessem, as pessoas poderiam simplesmente desobedecer aos decretos e sairiam às ruas muito mais confiantes contra qualquer abordagem. Ai do guarda ou policial que ousasse tolher seu direito de ir e vir!
O que o presidente está pregando é desobediência civil. E com um agravante: no limite, essa “lógica” põe em risco até a integridade de agentes de segurança, os quais, por esse raciocínio, teriam que redobrar os cuidados ao abordar um cidadão que estivesse a violar, por exemplo, as regras de lockdown em determinada cidade.
Restrições à livre circulação de cidadãos, em caráter temporário e emergencial, numa situação extraordinária de calamidade pública, para frear o avanço da pandemia. Para Bolsonaro, a “ditadura” está aí.
Por outro lado, o mesmo Bolsonaro que trata isolamento social em um momento sui generis como inconcebível “risco à democracia” não vê o menor problema, trata até como algo banal em sua fala aos ministros, que o presidente da República em pessoa vá dar seu apoio, a cada dois domingos, a manifestações que pedem fechamento de Poderes, intervenção militar, novo AI-5 e outras pautas antidemocráticas e inconstitucionais.
Aí não tem problema algum: ele está defendendo a "democracia" e a "liberdade", "o poder do povo", como já discursou num desses atos. Como assim?!? Como é que ele pode estar a defender a democracia num ato cuja pauta vai exatamente contra a democracia???
E aí, quem está apoiando ditadura?
Continua amanhã.