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República das Bananas - Parte 3

As bananas de Bolsonaro para as normas do decoro e da democracia

Além das bananas à vida humana, às reais prioridades do país, às responsabilidades do cargo e à transparência no poder público, o presidente tem ignorado regras básicas de educação e do nosso sistema democrático (o mesmo pelo qual chegou ao poder)

Publicado em 17 de Maio de 2020 às 06:00

Públicado em 

17 mai 2020 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Bolsonaro distribui bananas
Bolsonaro distribui bananas Crédito: Amarildo
O presidente Jair Bolsonaro está a distribuir bananas. Na série “República das Bananas”, já analisamos aquelas que ele tem dado para a vida humana, para as reais prioridades do país, para as funções e prerrogativas do cargo e para a transparência esperada pelos cidadãos dos seus representantes, sobretudo dos que, como ele, alegam não fazer parte da “velha política”. Neste domingo, continuando a série, analisamos outras duas grandes bananas que Bolsonaro tem distribuído por aí: ao decoro esperado de um presidente (e a normas básicas de civilidade esperadas de qualquer pessoa); e à democracia brasileira e suas instituições basilares.

BANANA PARA O DECORO

Nunca um presidente desceu tão baixo na falta de civilidade desde que subiu aquela rampa. É longa a lista de grosserias e vilezas. Lembremos somente fração dela. E fração dessa fração já seria suficiente para fazer corarem de vergonha povos do mundo inteiro, se houvessem tais declarações partido dos respectivos chefes de Estado. Bom lembrar que, durante a campanha de 2018, até Marie Le Pen, ícone da extrema-direita na França e na Europa, chegou a opinar que “ele diz coisas extremamente desagradáveis”. Aqui, há quem considere que é tudo normal, só “figura de linguagem”, só “força de expressão”.
Desde que chegou ao Planalto, Bolsonaro já fez a apologia do trabalho infantil e, implicitamente, do turismo sexual: “Quem quiser vir ao Brasil fazer sexo com mulher, fique à vontade”. Já negou que pessoas passem fome no Brasil. No departamento ambiental, a coleção de despautérios é vasta: vai de dizer que o meio ambiente “só interessa a veganos” a responder a um jornalista que, se ele se preocupa com a proteção ambiental, deveria defecar dia sim, dia não.
No relacionamento com a imprensa, o presidente se supera no repertório de baixarias e escatologias. Para citar exemplos recentes, no dia 5 de maio, mandou jornalistas, literalmente, “calarem a boca” (durante uma entrevista…). Em 18 de fevereiro, disparou que uma repórter da Folha de S. Paulo “queria muito dar o furo” contra ele, com pérfida conotação sexual e um risinho debochado no canto da boca.
E assim, dia após dia, as grosserias, agressões e insultos do próprio presidente vão se acumulando, diluindo-se em nosso cotidiano e entrando em um processo de “naturalização”: o risco é passarmos a encarar tudo isso como algo “normal”, “natural”, “só mais uma do Bolsonaro”. Isso não pode ocorrer.
Se fosse outro o presidente, será que nós, cidadãos brasileiros, aceitaríamos da parte dele alguma dessas grosserias, uma só que fosse, como algo “natural”? Não podemos deixar de nos indignar, dar de ombros, fechar os olhos e esperar que venha a próxima, “só porque é Bolsonaro” e porque “ele é assim mesmo”. Esse “assim mesmo”, com esses modos, não usa talheres. Nem se senta à mesa da família brasileira.
Bananas tupiniquins
Bananas tupiniquins Crédito: Amarildo

BANANA PARA A DEMOCRACIA E PARA A INSTITUCIONALIDADE

Ninguém deveria se surpreender com isso. A história de Jair Bolsonaro é marcada pelo seu louvor a ditaduras e ditadores, aqui e alhures. Em entrevista concedida em 1999, no início de seu terceiro mandato como deputado federal, declarou sem traço de embaraço que “o erro da ditadura foi não ter matado 30 mil” e que, se fosse presidente, “daria golpe” no mesmo dia e fecharia o Congresso Nacional, porque “não funciona”.
O presidente da República tem por ídolo declarado um dos maiores torturadores dos porões do Doi-Codi, o falecido Brilhante Ustra, perpetrador inveterado de crimes de lesa-humanidade. E se orgulha disso.
Durante a campanha, novas demonstrações de desprezo pelas regras do jogo democrático: só aceitaria o resultado das urnas se ele fosse vencedor. Mesmo agora, um ano e meio após ter sido eleito, insiste em pôr em xeque a lisura de um processo do qual saiu vitorioso e no qual seu então partido (PSL) fez a segunda maior bancada da Câmara Federal. Isso, é claro, sem apresentar nenhuma prova do que alega, o que não pode nem jamais vai fazer, pois não se pode provar o que não existe.
Agora, mais desinibido a cada dia, na condição de presidente da República, Bolsonaro tem transformado em passatempo dominical dar seu apoio pessoal a manifestações de grupelhos com pauta claramente antidemocrática. Legitima clamores por uma “intervenção militar” (leia-se golpe de Estado), por um “novo AI-5” (leia-se cassação de direitos políticos) e pelo “fechamento do Congresso e do STF” (leia-se o fim da separação de Poderes e, portanto, da própria democracia).
Aqui vale o mesmo raciocínio exposto no tópico anterior: não se pode admitir nada disso como “aceitável”, muito menos “normal”, só porque é Bolsonaro. É exatamente por ser ele que é preciso manter-se vigilante: pelo histórico lembrado acima, pelo cargo que ocupa e pelo poder que possui hoje em dia. O presidente da República, em pessoa, está a dar uma banana semanal para a Constituição que jurou defender, para a democracia pela qual chegou ao poder e para as instituições democráticas deste país. Isso é muito grave.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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