Ao ser preso no último dia 10, um armeiro relatou à polícia em seu depoimento que não testa as armas de fogo caseiras que fabrica. O motivo: teme explosões que possam resultar em sua morte.
Foi o que ocorreu com um de seus clientes, um traficante de Vila Nova de Colares, na Serra, a quem vendeu uma calibre 12 caseira por R$ 600. O homem morreu ao fazer um disparo. “Explodiu no rosto dele”, contou.
E não era a única a oferecer riscos adicionais. Uma outra calibre .12 apreendida pela polícia trazia as iniciais do fabricante. Ela estava “pronta”, segundo ele, mas informou que “não sabia se ela iria lesionar alguém que a testasse”.
A produção clandestina e ilegal era realizada em um cômodo de uma casa em Feu Rosa, na Serra, onde vivia Tallys Henrique Rosa Gomes, de 23 anos. E resultava em equipamentos de baixa qualidade.
“Cada armeiro produz do jeito que quer, sem nenhum teste, sem seguir nenhum padrão. O resultado são armas perigosas, com alto risco de explosão”, avalia o delegado Guilherme Eugênio Rodrigues, titular da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme), que realizou a prisão em flagrante.
Segundo ele a munição apreendida no local também oferecia riscos maiores, considerando que teve a ponta original alterada com uma esfera de chumbo com camada de aço.
“Ele fabricava uma munição que aumenta as chances de atingir e matar pessoas inocentes”, observa.
Em depoimento, Tallys contou que produzia calibres .12, 9mm, .380, .38 e .40, além de realizar recarga de munições há cerca de um ano, e que no período fabricou oito armas, mas a polícia avalia que o número seja maior.
Com ele foram apreendidas munições, ferramentas e anotações com desenhos que o auxiliam na produção. Segundo o delegado, o armamento era destinado à venda ilegal.
Tallys foi indiciado por comércio ilegal de arma de fogo, como armeiro clandestino ou fabricação/montagem artesanal. Sua defesa não foi localizada, mas o espaço segue aberto à manifestação.
Estatísticas
No mês de janeiro houve um aumento na apreensão de armas caseiras de cano longo, segundo dados do Observatório da Segurança Pública. Foram 17, contra 4 no ano passado. Número que também foi maior do que o mês anterior, dezembro de 2025, quando a polícia retirou 7 delas das ruas.
O delegado avalia que é preciso acompanhar as estatísticas nos próximos meses, mas que um aumento das apreensões pode estar indicando uma busca, por parte da criminalidade, por armeiros clandestinos.
O que seria consequência de alguns fatores. Um deles vem do controle e fiscalização das atividades de caçadores, atiradores e colecionadores (CACs), que saiu das mãos do Exército e passou para a Polícia Federal. O que dificulta o desvio de armas para a criminalidade.
Outro ponto são as regras mais restritivas para a compra de armas de fogo no Brasil, mantidas em 2025, e que visam reduzir o acesso de civis a armamentos de maior calibre e limitar o número de armas por pessoa.
“Além das operações realizadas pela Polícia Civil no combate ao desvio ilegal de arma de fogo para os criminosos”, destacou Guilherme Eugênio Rodrigues.
LEIA MAIS COLUNAS DE VILMARA FERNANDES
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.
