Se para as pessoas fazer 60 anos significa um recorte na vida, uma nova etapa, na qual o indivíduo já se encontra maduro, ganha alguns direitos ou privilégios destinados àqueles que já deram uma grande contribuição laboral ao país, à família, no caso das cidades, porém, seis décadas é muito pouco, pelo menos quando pensamos que muitas cidades conhecidas possuem séculos ou até milênios de vida ininterrupta.
Tendo completado 60 anos de existência em 2020, Brasília, apesar de jovem, tem vivido tantas experiências radicais, intensas, contraditórias, que é bem provável que envelheça numa velocidade pouco recomendada pelos médicos.
Já no livro "Atlas of Cities" (ed. Paul Knox, 2014), Brasília ganhou a alcunha de “cidade instantânea”, em função do modo como foi concebida e construída, tudo em um pequeno período de tempo.
Ainda que sua gestação tivesse sido um processo debatido intensamente, e que visava possibilitar um desenvolvimento mais equilibrado do território brasileiro, até então estava muito concentrado no litoral; a decisão política de Juscelino Kubitschek; a escolha do arquiteto chefe a conduzir a construção das principais edificações (Oscar Niemeyer); o concurso que escolheu o projeto urbano do Plano Piloto, do qual se sagrou vencedor o arquiteto Lucio Costa; e a própria construção da cidade, tudo isto se deu de modo muito rápido, quase imediato, num daqueles arroubos típicos das decisões políticas que tanto vem marcando a história pública brasileira.
Se os projetos urbanístico e arquitetônico, inspirados nos preceitos modernistas de Le Corbusier, almejavam dar ao país uma imagem para o mundo do estágio civilizatório progressista brasileiro, os anos seguintes à inauguração da cidade viram Brasília sucumbir à ditadura militar, ao fechamento do Congresso, à perseguição política de muitos brasileiros, incluindo jornalistas, professores, estudantes etc.
E hoje, a despeito do retorno do país à democracia, vemos tentativas de determinados grupos organizados de perseguição política a muitos brasileiros, incluindo jornalistas, professores, estudantes...
Brasília foi pensada de modo cristalina para atender a uma elite, aquela que ocuparia o Plano Piloto, o avião pensado por Lucio Costa, e que ilustraria o tal “estágio civilizatório progressista brasileiro”. Só que os idealizadores da cidade simplesmente esqueceram-se do povo que construiria a nova capital, que foram alijados, abandonados à sorte tão logo as obras foram sendo finalizadas. Ocuparam as cidades satélites, que hoje possuem uma população bem maior que a daquela cidade planejada para ser a sede do governo brasileiro.
E hoje, aparentemente, vemos o governo federal, mais uma vez, dar sinais de abandono do povo à própria sorte... Quantos milhares precisarão morrer para que no lugar de um “e daí?” venha uma mensagem de solidariedade?
Detentora do título de Patrimônio da Humanidade concedido pela Unesco, a “cidade sem esquina”, pensada para o automóvel, cuja modernidade ignorou o passado colonial português, que deu voz explosiva a uma geração de roqueiros de onde saíram versos como “Ninguém respeita a Constituição / Mas todos acreditam no futuro da nação”, ou, ainda, “Piada no exterior / Mas o Brasil vai ficar rico / Vamos faturar um milhão / Quando vendermos todas as almas / Dos nossos índios num leilão” (Que país é este, Renato Russo), a capital que mirava um futuro glorioso vê a terceira década do século XXI chegar tendo um futuro incerto, um futuro que olha para um passado que imaginávamos que estava encerrado, mas insiste em querer puxar nossos pés para a cova.
Na verdade, Renato se mostrou de fato um profeta, pois “Piada no exterior” é algo que temos visto quase que diariamente na imprensa mundial ao falar do Brasil atual. Já há quem diga que viraremos párias, tal qual aquela imagem preconceituosa que se tinha dos leprosos, quando ninguém queria chegar perto deles.
Enquanto isso, a maioria dos brasileiros, aqueles que labutam diariamente, e que agora, mais do que nunca, sofrem, agonizam, esperando de Brasília uma mensagem que não seja para o exterior, mas para os cidadãos aqui de dentro que estão morrendo em casa, nas ruas, nos hospitais... A moderna e contraditória Brasília, ainda capital de um país com uma das maiores desigualdades sociais do mundo, que vê o povo num acirramento inédito, numa polaridade que aparenta não ter volta.
Que Brasília retome seu ambicioso projeto progressista!
E que os versos “Ninguém respeita a Constituição / Mas todos acreditam no futuro da nação” sejam meros devaneios...