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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

Oscar 2021: poucas surpresas e mais diversidade entre indicados

Em ano de salas de cinema fechadas, streaming domina indicações que tiveram maior representatividade e quase nenhuma surpresa verdadeira

Vitória
Publicado em 15/03/2021 às 12h48
Filmes indicados ao Oscar 2021
Filmes indicados ao Oscar 2021. Crédito: Divulgação

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou na manhã desta segunda (15) os indicados ao Oscar 2021, cuja cerimônia será realizada em 25 de abril. Em um atípico, há poucas surpresas na lista e uma perceptiva preocupação com a diversidade.

A lista não fugiu muito do que já era especulado há alguns meses. Para Melhor Filme, por exemplo, talvez a surpresa seja “Meu Pai”, de Florian Zeller, que vai concorrer com os já esperados “Mank”, “Judas e o Messias Negro”, “Nomadland”, “Minari”, “Bela Vingança”, “O Som do Silêncio” e “Os 7 de Chicago”. As ausências, neste caso, são de filmes até parecidos: “Uma Noite em Miami” e “A Voz Suprema do Blues”, duas obras que levam para as telas peças de teatro. Esnobados da categoria principal, os filmes concorrem a três e cinco Oscar, respectivamente.

Há um clamor pela não inclusão de “Destacamento Blood”, o que talvez ocorra muito em função de Chadwick Boseman ter morrido poucos meses depois da estreia do filme. A data de estreia do filme na Netflix, no entanto, já mostrava que o filme não era tratado pela empresa como um forte candidato - as apostas de produtoras normalmente estreiam mais para o fim do ano, para ficarem “frescos” na cabeça dos eleitores do Oscar. A não indicação de Delroy Lindo, para quem a Netflix fez campanha nos últimos meses, é mais notada do que a ausência do filme.

Uma boa surpresa é a presença do dinamarquês Thomas Vinterberg entre os indicados a Melhor Diretor, categoria que normalmente traz uma indicação não esperada como a do polonês Pawel Pawlikowski (“Guerra Fria”) em 2018. Surpreende também a ausência de Regina King (“Uma Noite em Miami”) e Aaron Sorkin (“Os 7 de Chicago”) na lista.

Na mesma categoria, pela primeira vez duas mulheres foram indicadas: Chloë Zao (“Nomadland”) e Emerald Fennel (“Bela Vingança”). Zao também é a primeira asiática indicada na categoria e a primeira mulher a ter quatro indicações no mesmo ano. Bem provavelmente, após 25 de abril, Kathryn Bigelow deixe de ser a única mulher vencedora do prêmio de Melhor Direção, por “Guerra ao Terror”, em 2010.

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Chadwick Boseman levou uma indicação póstuma de Melhor Ator por "A Voz Suprema do Blues", da Netflix. Crédito: David Lee/Netflix

Uma pequena estranheza é Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield concorrem ambos a Melhor Ator Coadjuvante por “Judas e o Messias Negro” - em outras premiações, Kaluuya (que levou o Globo de Ouro) concorreu como coadjuvante e Stanfield, como o protagonista que é. O Oscar foi a única premiação a entender o filme dessa forma. Sabe-se lá o porquê.

Vale ressaltar também a perseverança de Glenn Close, que topou fazer o péssimo “Era uma Vez Um Sonho” justamente por seu potencial de Oscar e agora consegue sua oitava indicação (mas provavelmente não ganhará).

Indicada por “A Voz Suprema do Blues” como Melhor Atriz, Viola Davis é a primeira mulher negra a ser indicada duas vezes na categoria. Ainda, com outras duas indicações a Atriz Coadjuvante, venceu por “Um Limite Entre Nós”, é a mulher negra com mais indicações da história da premiação, quatro.

As indicações a Melhor Ator também trazem um pouco da tão falada diversidade que não esteve presente, por exemplo, no Globo de Ouro. Riz Ahmed (“O Som do Silêncio”) é o primeiro muçulmano indicado na categoria. Concorrendo com ele, Steven Yeun (o Glenn de “The Walking Dead”), é o primeiro americano de origem asiática a ser indicado a Melhor Ator.

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Filme "Judas e o Messias Negro". Crédito: Warner/Divulgação

Outra surpresa é a indicação de “O Tigre Branco” a Melhor Roteiro Adaptado. O filme da Netflix certamente não tem chances ao prêmio, concorrendo contra favoritos aos prêmios principais como “Nomadland” e “Minari”, mas é interessante ver a Academia dando destaque ao filme que não foi um sucesso absoluto de cara.

Uma novidade este ano é a equivocada junção das duas categorias de áudio, ou seja, agora existe só Melhor Som ao invés de Edição de Som e mixagem de Som. Será uma surpresa muito, mas muito grande se “O Som do Silêncio” não levar na categoria, visto que o som é praticamente coprotagonista do filme ao lado de Riz Ahmed.

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Filme "Soul", da Pixar, disponível no Disney+. Crédito: Disney/Divulgação

Vale destacar a categoria de Melhor Animação justamente porque todos os filmes já se encontram disponíveis no streaming no Brasil: “Soul” e “Dois Irmãos”, no Disney+; “A Caminho da Lua” e "Shaun, o Carneiro: O Filme - A fazenda contra-ataca", na Netflix; e “Wolfwalkers” no AppleTV+.

É interessante, ainda, que muitos esperavam que o Oscar fosse abraçar mais o cinema independente em um ano de poucas grandes produções, mas não foi o que aconteceu. Havia expectativa de indicações aos ótimos “Never Rarely Sometimes Always”, drama sobre aborto de Eliza Hittman, e “Palm Springs”, comédia de Max Barbakow com Andy Samberg, mas a Academia preferiu ser mais convencional. 

Com cinemas fechados mundo a fora e filmes adiados, o streaming está super presente nas indicações. Apesar das 35 indicações, é bem provável que a Netflix não leve o prêmio principal para casa. A Amazon Studios, segundo estúdio com mais indicações, tem 12. Estúdios tradicionais como Warner (8) e Disney (7) comeram poeira este ano.

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