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Crítica

"Destacamento Blood", da Netflix, é atemporal ao discutir o racismo

Filme do premiado diretor Spike Lee ("Infiltrado na Klan") está disponível na Netflix e acompanha um grupo de ex-soldados de volta ao Vietnã quase meio século depois

Publicado em 13 de Junho de 2020 às 01:00

Públicado em 

13 jun 2020 às 01:00
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz Rafael Braz
Filme
Filme "Destacamento Blood", de Spike Lee, disponível na Netflix Crédito: David Lee/Netflix
Spike Lee é um dos grandes cineastas do nosso tempo, mas nem sempre tem o devido reconhecimento por isso. Desde o impecável “Faça a Coisa Certa” (1989), sua voz ecoa com precisão e força na sempre urgente questão racial. Pensando em um primeiro momento, “Destacamento Blood”, lançado nesta sexta (12) pela Netflix, parece ter sido feito especialmente para o momento em que vivemos, com o assassinato de George Floyd pelo agora ex-policial branco Derek Chauvin, mas o roteiro circula por Hollywood desde o início da década. É justamente isso que faz de Lee uma voz tão importante: mostrar para quem não sofre com a violência racial que ele sempre esteve presente.
“Destacamento Blood” é um passeio de Spike Lee pelo Vietnã, mas não aquele Vietnã que conhecemos de inúmeros filmes de guerra, com narrativas heróicas sobre bravos americanos que sobreviveram no país asiático; sob as lentes de Lee, o Vietnã ganha contornos menos romantizados. A trama gira em torno de quatro amigos veteranos de guerra, Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.), que retornam ao Vietnã quase 50 anos depois para buscar o corpo do antigo companheiro, Stormin’ Norman (Chadwick Boseman), e encontrar um tesouro deixado por lá durante o conflito.
O filme, a princípio, funciona como uma comédia, um reencontro cheio de lembranças e provocações entre antigos amigos, soldados, mas tudo logo muda. Antes mesmo de se aventurarem pela selva em busca de Norman, os amigos começam a se abrir, a mostrar as marcas que aquele conflito deixou neles.
Foi durante a Guerra do Vietnã que Martin Luther King Jr. foi assassinado, os EUA matavam seus líderes negros enquanto enviavam jovens negros para o Vietnã - apesar de representarem, à epoca, 11% da população americana, os negros eram um terço dos soldados enviados à guerra, a maioria deles servindo como “bucha de canhão”, na linha de frente das batalhas. Foi Norman, o amigo morto em batalha, quem colocou essa consciência social no resto do batalhão. Como é dito durante a projeção, "ele foi nosso Martin, nosso Malcolm".
Esse é um dos aspectos mais legais de “Destacamento Blood”, pois apesar de utilizar histórias de nomes como Martin Luther King Jr, Muhammad Ali. e Malcolm X para pontuar sua narrativa, o filme confere força ao discurso da voz de Norman, um sujeito comum, mas capaz de influenciar a vida de seus amigos. Spike Lee reforça, assim, o poder das micro-revoluções, tão importantes para ele quanto as macro. O texto o tempo todo reforça a importância do discurso do personagem e como ele afetou a vida dos ex-companheiros após o fim da guerra.
Apesar de se destacar pela força atemporal de sua mensagem, “Destacamento Blood” também é um filme pop. Aos poucos, a jornada de descobertas e revelações dos “Blood” ganha novos contornos, ares de filme de ação, e promove algumas surpresas interessantes no roteiro. A narrativa faz uso de alguns flashbacks, com destaque para as diferentes dimensões de tela, para explicar o que aconteceu durante a guerra e explicar os traumas de cada um. Em uma escolha ousada, Spike Lee não se incomoda em utilizar os mesmos atores nos dois períodos temporais, descartando a necessidade de explicar quem é quem na narrativa. É um pouco estranho, mas funciona.
Filme
Spike Lee e o elenco de "Destacamento Blood" durante as filmagens Crédito: David Lee/Netflix
O filme se sustenta em um conjunto de grandes atuações, mas é impossível não destacar Delroy Lindo, até porque seu personagem, Paul, acaba funcionando como o inesperado coração da trama. Paul nunca superou os acontecimentos da guerra, vive com transtorno de estresse pós-traumático e crises de ansiedade; não consegue se relacionar com os vietnamitas, pois qualquer um deles “pode ter matado Norman”.
Fazendo uso da Guerra do Vietnã, “Destacamento Blood” discute o lugar do negro na sociedade americana, mas também mostra quão dura a "Guerra Americana" foi para os vietnamitas. O país ficou dividido, com o Vietnã do Sul, ditadura apoiada pelos EUA, lutando contra soldados do Vietnã do Norte e as forças vietcongues a fim de “impedir a expansão comunista”.
Lee evoca “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola, no mergulho à insanidade à lá Coronel Kurtz - a referência também se faz presente na trilha sonora, com “A Cavalgada das Valquírias” sendo utilizada em certo momento. As músicas, valem ressaltar, são um capítulo a parte; elas parecem, em sua maioria, se encaixar nos épicos de guerra como “Platoon” (1986), de Oliver Stone, ou até mesmo o primeiro “Rambo” (1982), com uma pegada heróica, mas acompanham momentos simples, de pura construção de personagem.
Spike Lee sabe o que faz e demonstra total controle narrativo mesmo nos momentos que tornam o filme longo demais com seus 154 minutos. Há aqui ou acolá uma derrapada, uma obviedade, mas o diretor nova-iorquino é capaz de inserir relevância até mesmo em seus tropeços. “Destacamento Blood” é urgente, funcionando tanto como um drama sobre a guerra quanto como uma crítica ao governo Trump, um personagem quase onipresente no texto. O filme mostra o quanto o trabalho de Lee é atemporal em seu discurso e, mais grave, mostra quão atemporal é o racismo na sociedade.

Rafael Braz

Rafael Braz Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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