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Saúde ocupacional

Trabalho como tormenta: suicídio e sua relação com o ambiente profissional

O trabalho é um ambiente onde colocamos as nossas energias, depositamos nossas inseguranças e construímos as relações que dão sentido às nossas vidas. Uma frustração pode tomar proporções amplas a ponto de nos desestabilizar

Públicado em 

15 set 2020 às 05:00
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão

Homem estressado no trabalho: pressão profissional pode levar até a suicídios
Homem estressado no trabalho: pressão profissional pode levar até a suicídios Crédito: Shivmirthyu/Pixabay
Texto escrito com Karina Uchôa*
Tabu em muitos ambientes organizacionais, o suicídio no trabalho é encarado como algo distante da realidade corporativa. Entretanto, as estatísticas demonstram justamente o contrário: existe um aumento significativo de casos a cada ano. As crises (políticas, econômicas, sociais e de saúde), como a pandemia que vivemos agora, tendem a agravar esta situação.
A cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida ao redor do mundo. Um tempo menor do que aquela parada para o café nos ambientes organizacionais. Este lapso de tempo é alarmante. Mas se considerarmos o fato de que muitos casos não são enquadrados como suicídio no trabalho, o intervalo de 40 segundos pode ser menor e o número de casos pode ser ainda maior.
Um dado que justifica a ligação suicídio-trabalho é que a maioria dos vínculos laborais representam 2/3 do tempo de nosso dia. Isso significa dizer que dedicamos a maioria do nosso tempo a execução de tarefas, deslocamentos e busca pela solução de demandas em casa ou por via remota. Por mais que a função desempenhada no trabalho seja gratificante, só restam 1/3 (um terço) do tempo para outras atividades, o que já justificaria um ato contra a própria vida.
O suicídio é um fenômeno multicausal e de interações complexas, em que muitas vezes o trabalho figura como motivação principal. Trata-se de um ambiente onde colocamos as nossas energias, depositamos nossas inseguranças e construímos as relações que dão sentido às nossas vidas. Como dedicamos a maior parte do tempo ao ambiente de trabalho, uma frustração pode tomar proporções amplas a ponto de desestabilizar as diversas dimensões da nossa vida social, familiar, financeira ou afetiva.
Entretanto, quando falamos sobre a relação do suicídio com o trabalho (execução e ambiente), alguns números são confirmados e outros não. Isso dar-se-á ao fato de que características como ambiente de trabalho tóxico, chefias avassaladoras, falta de políticas internas para a prevenção ao suicídio e, ainda, a fragilidade no sistema interno de apoio ao trabalhador contribuem para que os resultados sejam discrepantes.
Em muitos casos, a insatisfação e o conteúdo insignificativo da tarefa desdobram-se em situações de assédio moral ou sexual. Pode também gerar constrangimento, absenteísmo (quando a pessoa está trabalhando, mas é como se não estivesse) ou presenteísmo (quando mesmo doente vai trabalhar).
As tormentas geradas neste ambiente são aliados das patologias laborais, como lesão por esforço repetitivo (LER), distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORTs), dermatose ocupacional (DO), surdez temporária ou definitiva, problemas da visão, pulmonares e doenças ocupacionais psicossociais ou síndromes relacionadas ao trabalho (como Burnout ou Síndrome da Cabana). Tudo isso pode terminar em suicídio quando relacionado com a execução das atividades laborais ou do ambiente de trabalho.
A morte nem sempre é física, pode ser simbólica, quando o sujeito deixa de sentir prazer em sua vida e em seu trabalho. Entretanto, quando a pessoa chega ao ponto de tirar a própria vida, os fatores podem ser vários, mas o resultado é único: a inexistência física. E para quem fica - família, amigos e colegas de trabalho - restam dúvidas em relação à real motivação, mesmo que o ato esteja documentado (quando deixa algum registro).
É necessário uma ampliação nas ações que visem ao bem-estar dos(as) trabalhadores(as) com o objetivo de prevenirmos situações de suicídio, uma maior e melhor política pública no âmbito do trabalho, promoção da saúde por meio de órgãos como os Caps (Centro de Atenção Psicossocial) nos municípios. A efetivação da Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, (Lei 13.819/2019), que tem por objetivo prevenção desses eventos e condicionantes dele associadas, a ser aplicada no Espírito Santo e todos os municípios capixabas.
*A autora é pesquisadora e palestrante em Qualidade de Vida no Trabalho

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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