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Setembro amarelo

Suicídio não é falta de Deus, mas sobra de angústias

É tempo de tomar cuidado com os excessos e nos preocupar mais com o essencial. É tempo de termos pressa de sermos livres. Se preciso for, busque ajuda, faça terapia

Públicado em 

10 set 2020 às 05:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira

Setembro Amarelo: mês dedicado à prevenção do suicídio
Setembro Amarelo: mês dedicado à prevenção do suicídio Crédito: Pixabay
No mês de setembro, a cor amarela ganha relevância em marcas, em vários locais, e uma campanha se alarga pelos impressos e pelas redes a fim de chamar a nossa atenção para o suicídio. O tema que ainda é tabu surge com a necessidade de ser falado, especialmente para aqueles que estão passando por essa situação. Faço questão de escrever sobre o tema, não só pelo fato de estarmos em setembro, mês temático para o assunto, mas para refletirmos sobre a cultura da negação do suicida ou ainda o papel da religião ou da religiosidade nesse assunto.
Me recordo de quando menino, na pequena Iconha. Quando alguém se suicidava, nós crianças éramos impedidos de saber. Se soubéssemos, alguém já nos dizia: “Está vendo o que faz a falta de Deus?!”. Depois, mais crescidos um pouco, já tínhamos consciência, à luz do que ouvíamos, que quem se suicidava ia direto para o inferno. Na nossa mente adolescente, já imaginávamos aquele ser queimando na fornalha.
Quando mais jovem, em apenas seis meses, presenciamos cinco suicídios, de janeiro a julho, em Iconha. Acredito que esse tenha sido o pico, mas em um dos funerais ouvi um padre desmitificar o que eu havia aprendido na infância: ele não quis se matar, ele quis acabar com a dor. Fui embora pensativo com aquilo e todos aqueles que eu tinha "visto" queimando no inferno. De repente, consegui vê-los no céu, não porque o padre disse, mas pelo que ele me levou a pensar.
Hoje, já adulto, volta e meia resolvo ler um pouco mais sobre. Mais recentemente, acompanhei o filme “O vendedor de sonhos”, inspirado na obra do escritor e psiquiatra Augusto Cury, que mostra um anônimo sem reservas e sem teto, sendo capaz de salvar um letrado doutor. Com “falas”, o anônimo conseguiu desviar os rumos do pensamento daquele doutor que buscava o suicídio, o fez conviver com a miséria, mas resgatou seus pensamentos e revelou um mundo de menos excessos e mais essência.
Em um mundo extremamente volátil e com uma gama imensa de informações, afazeres, tempo escasso, uma diretriz própria do capitalismo nos instiga a apostar tudo para ter tudo, acumular tudo, nos levando à neurose de não viver, mas conviver com pensamentos, de fato, suicidas. Hoje, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. Detalhe: Uma pessoa se suicida no Brasil a cada 46 minutos. Assustador! Um outro detalhe que nos arrepia: Uma pesquisa do Ibope mostra que, uma em cada quatro pessoas já pensou em se matar durante a adolescência.
Suicídio não é falta de Deus, mas sobras de muitas coisas. É tempo de tomar cuidado com os excessos e nos preocupar mais com o essencial. É tempo de termos pressa de sermos livres. Se preciso for, busque ajuda, faça terapias. E outra: fale de suicídio sempre e sem preconceito. Pode ser que tenha alguém perto de você ou no seu ciclo de conversas que tenha vergonha ou medo de se abrir. Ouça- o ou conduza-o a quem tem condições de ouvi-lo. Falar salva, ouvir também. Mas saiba: “Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida”. (Augusto Cury)

Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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