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Nessa coluna, Nanda Perim fala de sua experiência como psicóloga e educadora parental, dando seu parecer sobre questões atuais da educação infantil, trazendo dicas, humor e muita novidade boa!

O Setembro Amarelo e a infância

A depressão é uma das principais causas do suicídio, inclusive entre as crianças. E a pandemia agravou o problema. Uma criança que teria uma professora com quem contar agora está trancada em casa com seus predadores

Publicado em 03/09/2020 às 16h36
Atualizado em 04/09/2020 às 10h03
Pais brigando com filho
Existe outro abuso que também é devastador: a violência corretiva, física e emocional, na educação parental. Crédito: Shutterstock

Essa semana começamos o mês de Setembro e com ele chega também a campanha de conscientização sobre suicídio. O chamado Setembro Amarelo é organizado nacionalmente desde 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, em parceria com o Conselho Federal de Medicina – CFM. O dia 10 deste mês é, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, que tem como objetivo abordar a prevenção e diminuir os mais de 12 mil casos anuais. Segundo o site da campanha, cerca de 96,8% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias.

O detalhe importante de notar é que a depressão lidera, sendo que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos últimos dez anos o número de pessoas com depressão aumentou 18,4%, isso corresponde a 322 milhões de indivíduos, ou 4,4% da população da Terra. No Brasil, 5,8% dos habitantes – a maior taxa do continente latino-americano – sofrem com o problema.

A pandemia é um agravante

E ainda temos o agravante pandemia que faz desse Setembro Amarelo especialmente importante. Segundo pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), os problemas de saúde mental estão aumentando em escala preocupante durante a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social. O estudo foi feito através de um questionário on-line durante os dias 20 de março e 20 de abril, que contou com a resposta de 1.460 pessoas de 23 estados. O levantamento aponta que os casos de depressão quase dobraram e os de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%. E o que mais me preocupa de todos esses dados é o que vem a seguir.

Crianças também estão depressivas e com tendências suicidas. Em verdade, isso sempre aconteceu no mundo, e agora com a pandemia, está se agravando ainda mais. Segundo dados do Manual de Prevenção do Suicídio para Professores e Educadores da Organização Mundial da Saúde (OMS), a maioria dos suicídios ocorre entre as crianças maiores de 14 anos, principalmente no início da adolescência. Porém, em alguns países há um aumento alarmante nos suicídios entre crianças menores de 15 anos, sendo suicídio a quinta principal causa de morte de crianças e adolescentes. Isso é muito preocupante. E sabe a informação que me chocou, mas não me surpreendeu? A grande maioria é de meninos, bem como homens.

Precisamos cuidar de nossas crianças!

E o que fazer com todas essas informações? A primeira coisa que fica clara pra mim é como estamos precisando urgentemente cuidar de nossas crianças muito mais e melhor. Os recentes casos de crianças grávidas de seus tios e padrastos deixam claro que a pandemia só veio agravar o que acontecia, tornando apenas tudo mais frequente e perverso pelo isolamento e falta de contato externo.

Uma criança que teria uma professora com quem contar agora está trancada em casa com seus predadores. E esses casos extremamente graves não são isolados, mas sim consequência grave da nossa cultura. Um dos aspectos que torna nossa cultura propensa à isso é a noção tradicional que ‘cada pai e mãe sabe como educar seu filho’ e a posição de submissão e violência que essas crianças naturalmente já sofrem. Já vamos falar sobre isso. Além de colocar essas crianças na posição de ‘posse’ desses pais e mães, que acreditam que podem fazer o que bem entenderem com os pequenos, ainda temos uma sociedade patriarcal machista, que coloca esse homem enquanto alguém que realmente pode fazer o que bem entender com as crianças, principalmente meninas, que eles bancam com seus trabalhos.

São homens que não aprenderem ao longo da vida a cuidar de alguém, que não puderam sentir amor e carinho porque era coisa de mulher, que não podiam chorar, e que objetificaram culturalmente meninas e mulheres enquanto objetos sexuais. Esse fato, ao que chamamos de cultura do estupro, faz com que essas crianças ainda sejam culpadas por esses abusos, como aconteceu com a menina de dez anos que sofria abusos desde os seis, e até um padre defendeu que era porque ela queria. Triste, né?

Educação sexual nas escolas já!

Mas a cultura brasileira está mergulhada em valores e crenças que naturalizam essas atrocidades. Por isso, precisamos urgentemente de educação sexual nas escolas, para que possamos ensinar para as crianças o que é privacidade, quais os limites do carinho, o que é abuso e como fazer caso identifiquem isso em suas vidas. Não tenham dúvidas, abusos são sim uma das maiores causas de depressão na nossa sociedade, são muito mais comuns do que você imagina, e terrivelmente devastadoras.

E existe outro abuso que é também devastador e extremamente comum, que precisa de cuidado o quanto antes para podermos prevenir depressão e suicídio: a violência corretiva, física e emocional, na educação parental. Vou te explicar melhor: recentemente criei um perfil numa rede social de vídeos curtos e divertidos que tem, em sua maioria, crianças. E vejo diariamente nos comentários alguns pedidos de socorro.

Crianças me pedem socorro

Sim, as crianças todos os dias estão lá, nos comentários, dizendo: "por favor me ajuda a fazer meus pais pararem de me bater", "por favor, minha mãe não acredita em mim, que estou muito mal,  com depressão, ela fala que vai me dar uma surra se me vir chorando de novo", "por favor, meu pai me bate de cinto todo dia e eu nem sei o porquê", "como faço para minha mãe para de me xingar?  Isso me dói demais".  Ou: "Nanda, minha mãe não me deixa chorar. Se eu estou triste, preciso engolir o choro. Se me escondo pra chorar e ela me acha, briga comigo e manda eu engolir o choro, ameaça me bater".

Nanda Perim

psicóloga

"Além da dor física, tem todo o sofrimento de ter medo daquele que deveria te proteger. Tem o peso de não se sentir amado, aceito ou sequer visto por seus pais. Tem toda a negligência que isso traz, ao passo que essa criança vai buscar amor em outros braços, colocando-a em risco, vulnerável a predadores que, naquela mesma rede social, podem aparecer, a princípio, como socorro e suporte emocional."

Essas violências antigas causam muito sofrimento na infância e adolescência. Além da dor física, tem todo o sofrimento de ter medo daquele que deveria te proteger. Tem o peso de não se sentir amado, aceito ou sequer visto por seus pais. Tem toda a negligência que isso traz, ao passo que essa criança vai buscar amor em outros braços, colocando-a em risco, vulnerável a predadores que, naquela mesma rede social, podem aparecer a princípio como socorro e suporte emocional. Nossas crianças estão precisando de ajuda urgente, e não é de hoje. Sempre foi assim e a literatura da psicologia deixa isso muito claro.

A pandemia só tornou isso agressivamente pior com o convívio intenso e estresse dos pais. Bom, se queremos prevenir suicídio, e pra isso precisamos prevenir transtornos mentais, ao meu ver, o que precisamos fazer é cuidar de nossas crianças.

Lembro-me do meu intercâmbio que uma criança da escola faleceu, e durante meses a escola fez projeto de apoio emocional aos estudantes com psicólogos disponíveis todos os dias na escola. Lá, um relato de abuso por um aluno é levado com a maior seriedade possível. Aqui já ouvi histórias desesperadoras de crianças que buscaram ajuda e foram ignoradas por adultos dizendo que ela ‘só queria chamar atenção’.

Campanhas de conscientização são fundamentais

O mundo inteiro precisa cuidar melhor das crianças, mas o Brasil precisa urgentemente ter olhos pra isso. Campanhas nacionais de conscientização contra a violência educacional, campanhas escolares de prevenção de todos os tipos de abuso, conscientização de pais, professores e alunos.

Em resumo, não adianta querer prevenir suicídio num Setembro Amarelo querendo cuidar apenas do sintoma final, que é quando a pessoa já desistiu de viver. Precisamos olhar para a causa como a depressão,  por exemplo, e então fazer uma busca para a raiz coletiva dessa doença. Para mim, está na infância e nos cuidados com nossas crianças. Só quando enxergamos verdadeiramente a dor que os pequenos têm carregado nos seus dias é que entenderemos essas doenças que eles carregam na vida adulta. Como já diria a psicoterapeuta e autora best seller Laura Gutman, são os terapeutas dos adultos que sabem como sofrem nossas crianças. Cuidemos delas, e estaremos cuidando dos adultos do futuro!

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