Nada mais oportuno do que um ano de eleições municipais para despertar a sociedade para fazer o debate sobre a cidade. Primeiro porque a maioria da população capixaba mora nas cidades, e a Grande Vitoria é a representação mais plural dessa vida urbana. A promessa de uma vida de acesso ao conhecimento, às oportunidades econômicas e financeiras, à liberdade de atuação e participação cidadã nas instâncias de poder, e o local perfeito para viver o sonho da felicidade. Tudo isso se torna algo cada vez mais distante da maioria da população capixaba que mora em nossas cidades.
Claro, não podemos negar que nos últimos anos assistimos a avanços em algumas cidades na Grande Vitoria. A construção de locais para lazer e prática do esporte, a melhoria das vias urbanas, a construção de ciclovias, de parques e praças públicas, aumento do número de equipamentos públicos, como unidade de saúde, centro de convivência para a terceira idade, investimentos em centros de formação e qualificação profissional, para os moradores poderem acessar os serviços públicos perto de sua casa.
A municipalização do trânsito e a guarda municipal, a melhoria da iluminação pública, a implantação de planos de regularização fundiária, no caso de Viana, se revela um grande passo para o acesso a uma vida urbana com mais qualidade.
Mas devido ao atraso nos investimentos necessários, falta de planejamento e uma gestão deficitária em melhorar a vida urbana, a maioria das nossas cidades se tornaram um espaço de vivência dos maiores dramas humanos. Invisíveis, muitas vezes, mas que escondem e revelam o sofrimento e a dor de seus citadinos em meio à falta de politicas públicas e oportunidades. As nossas cidades, ao longo dos anos, mostraram-se, apesar das iniciativas e tentativas de avançar em áreas importantes, um grau elevado de desigualdade e miséria. O que ficou muito evidente de forma dura e cruel, durante o período de pico da pandemia sanitária.
Para arquitetos e urbanistas, a complexidade que se tornou esta realidade urbana é algo que precisa ser pesquisado e analisado com mais precisão, pois ainda existe um profundo desconhecimento em torno do tema. Contudo, está estampado para todos verem que do jeito que está não dá para ficar. É preciso ter coragem, capacidade inventiva, criatividade e ousadia para avançar na construção de uma cidade mais humana, integrada e participativa. Ninguém tem a receita ideal, mas cada um de nós sabe muito bem o que é importante para termos mais condições de viver bem e com qualidade de vida em nossas cidades.
TRANSPORTE PÚBLICO
Com relação ao transporte, vimos com a pandemia o quanto é urgente priorizar o transporte coletivo na Grande Vitória. Com o foco na integração dos diversos modais possíveis, como o aquaviário, com as lanchas para passageiros, criar o VLT (veículo leve sobre trilhos) e o modal cicloviário com a rede de ciclovias na Grande Vitória. A ditadura do carro e do transporte rodoviário com ônibus, só traz dor e sofrimento para os capixabas que necessitam trabalhar longe de suas casas.
Sobre o direito e o acesso a alimentação, de modo especial entre os mais pobres. O debate esta na ordem do dia. Estamos com desabastecimento e o preço dos alimentos lá nas alturas, fruto de uma politica do governo federal que prioriza o agronegócio, em detrimento da perseguição e falta total de apoio ao pequeno produtor e a agricultura familiar. Um claro exemplo foram as liberações para uso de agrotóxico em larga escala e a ampliação da fronteira agrícola, com o ataque aos indígenas e as queimadas na Amazônia. Por isso a segurança alimentar, com projetos de agricultura urbana, é uma politica importante e necessária e deve ser priorizada em nossas cidades para as próximas gestões municipais.
Os desafios não são poucos. A especulação imobiliária, que continua a empurrar os mais pobres para as regiões mais distantes sem infraestrutura urbana, o que aumenta o número de favelas e moradias precárias, as dificuldades de acesso a bens e serviços, as enchentes e desmoronamentos, as epidemias causadas por mosquitos, a poluição dos cursos d'água, a degradação ambiental, o desemprego e o valor abusivo dos aluguéis e a população que é obrigada a viver na rua.
Esta cidade marcada pela divisão entre os que podem e têm poder aquisitivo e os que são obrigados a viver de qualquer jeito e na miséria. A cidade perfeita e ideal, dos sonhos, das possibilidades, das ilhas de casarões, e a cidade real, das periferias, dos morros e das favelas, com pouco ou quase nenhum investimento em política pública. Essas duas faces da mesma cidade precisam ser mais debatidas e não podem ser ignoradas. Esse debate é necessário e deveria ser a prioridade dos partidos e daqueles que pretendem se colocar como futuros gestores.