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Coronavírus

Pandemia: a falta de respeito e a decadência da esfera pública

Os capixabas estão cumprindo as normas estabelecidas para vencer a Covid-19?  Onde o respeito desaparece, a esfera pública desmorona. A falta de respeito, neste caso, está associada à decadência da esfera pública

Publicado em 14 de Julho de 2020 às 05:00

Públicado em 

14 jul 2020 às 05:00
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão

Movimento Negro realizou protesto e reivindicaram lockdown e hospital de campanha na frente do Palácio Anchieta, Sede do Governo do ES
Protesto em frente ao Palácio Anchieta: desrespeito às normas também faz aumentar os casos de coronavírus Crédito: Fernando Madeira
Qual é o objetivo da pandemia? Pra que servem as leis e decretos com as medidas para enfrentar a emergência de saúde pública surgidas com o coronavírus? A resposta a esta pergunta é óbvia e todos sabem de cor: proteger a coletividade. Em outras palavras, impedir que as pessoas peguem o vírus e fiquem doentes. Bem, pelo menos deveria ser assim!
Se existem erros, onde encontrá-los? A resposta a esta pergunta é um convite para refletir sobre nossa atitude e comportamento no dia a dia da pandemia. Para isso, apresento um debate que o filósofo coreano Byung-Chul Han traz em relação à falta de respeito na sociedade atual. Respeito significa um olhar para trás, um olhar de volta para algo ou para alguém que nos provoca e interpela.
Este olhar do respeito (respectare) é distanciado, porque ao mantermos distância controlamos o nosso observar curioso. Ao contrário, o espetáculo (spectare) é um olhar do vouyer, que não tem consideração distanciada e nem respeito (respectare). Han conclui que uma sociedade sem respeito, sem a distância necessária, leva à sociedade do escândalo, em que as pessoas podem se tornar pedra de tropeço para outras.
Neste sentido, em relação à pandemia, existe respeito por parte dos capixabas? Os exemplos e atitudes mostram os capixabas com olhar de respeito para o que estamos vivendo? Existe obediência e cumprimento das normas estabelecidas para vencer a Covid-19? Os acontecimentos das últimas semanas mostram que existe preocupação, atitudes sérias e comprometidas com a pandemia; mas existem, infelizmente, muita irresponsabilidade e falta de respeito.
Quando pais se mobilizam e rejeitam a volta das aulas, eles estão preocupados com a saúde de seus filhos. E esta decisão é um segundo olhar para a realidade que os cerca, é um respeito às normas vigentes. Eles sabem que não podem ter aglomeração neste momento. Existe aí uma preocupação e respeito com os seus e com os demais. Nesta atitude é possível ver um ato de respeito à sociedade capixaba.
Contudo, vemos abusos e gozações a membros do Corpo de Bombeiros - uma das instituições mais bem avaliadas -, por parte de banhistas na Praia de Camburi. Disso surge a consequente frustração do profissional no cumprimento de seu dever e do seu papel como cidadão responsável. Esta atitude e o sentimento do profissional apontam a total falta de respeito das pessoas com a corporação dos bombeiros e a sociedade que eles representam e defendem. E o pior: estas pessoas são pedras de tropeço para si mesmas e para toda a sociedade capixaba. Pois não se importam com a própria vida e nem com a dos demais.
Para Han, o respeito é a alicerce da esfera pública. Onde ele desaparece, a esfera pública desmorona. A falta de respeito, neste caso, está associada à decadência da esfera pública. Uma está relacionada a outra. As consequências desta perversidade é a total falta de distância, na qual o privado se torna público e o respeito acaba. Sem afastamento não é possível nenhum bom comportamento. E as pessoas tendem a confundir e zombar do público. Desta forma, não se cumpre a lei, as normas, pois cada um se acha na condição de fazer o que quiser.
Não é tarefa fácil vencer este desafio imposto pela modelo de sociedade atual, em que o privado se misturou ao publico, que se diluiu no privado. Para tanto, faz-se necessário usar o poder de intervenção da esfera pública em beneficio do coletivo. Isso exige intervenção e orientação dos agentes públicos de forma mais contundente e direta na sociedade, mas com o apoio de todos os atores positivos e líderes comprometidos com o respeito, valor e importância da vida.

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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