Umas das características da gestão dos ministros do governo federal para as áreas sociais é o perfil religioso. E o governo se coloca como uma entidade acima do bem e do mal e seus ministros são como enviados do “Messias” para salvar e remir os pecadores. Isso explica a distribuição do auxílio emergencial de R$ 600. Um dos critérios de seleção só pode ser a frase bíblica preferida da teologia da prosperidade, “a quem tem será dado ainda mais”.
Claro que isso com base em uma interpretação que dá sustentação a esta visão religiosa na qual justificaria dar renda e benefícios para os que já têm posses e riquezas, pois o acúmulo os tornam mais ainda abençoados e dignos de salvação. Se não for isso, como explicar as milhares de pessoas que receberam o auxílio emergencial do governo sem se enquadrar na lista de beneficiários? Creio que é uma questão de fé.
Caso contrário, o governo terá que admitir que errou ao depositar na conta de militares da ativa, servidores públicos, empresários, traficantes, ladrões de bancos, a elite endinheirada, com viagens para paraísos turísticos, valores do auxílio emergencial. E também atendeu àqueles que “preferem não trabalhar” e, por isso, julgados como de “vida fácil”, os criminosos foragidos da justiça e presos do sistema carcerário. Ainda sem se importar muito, também mandou disparar R$ 600 para as contas de milhares de pessoas que nem pensavam em pedir o auxílio. Foi bênção pura!
Mas este mesmo governo negou o auxílio emergencial a quem considera falhos e pecadores. Estes formam uma fila interminável de milhares de desempregados, mães solo, informais e tantos outros que não têm onde arranjar dinheiro na pandemia e, de fato, precisam de uma renda mínima para sobreviver. É esta mesma lógica religiosa que separa os agraciados e lhes dão a condição de beneficiários, coloca outros tantos como amaldiçoados e, portanto, não dignos de receber as “esmolas” do governo.
Isso mesmo, “esmola”! Apesar de ser uma renda necessária para milhares pessoas e um direito social, este é o termo usual adotado pelo presidente da República quando se referiu ao auxilio de R$ 600. Na insistência da linha religiosa, o ministro Frias, atual da pasta da Cultura, dispara convicto de que auxilio emergencial é “esmola”.
Mas, afinal, o que significa “esmola”? Segundo o dicionário, é uma dádiva caridosa feita aos pobres, ato de auxiliar, de prestar ajuda, um socorro. Mas pode ser também uma pequena quantia em dinheiro dada a pedintes por caridade. Enfim, um ato caridoso aos necessitados. Por que, então, atender com “esmolas” a quem não precisa e deixar os que mais precisam sem amparo?
Dizem que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Só que, em se tratando de auxílio, por mais que “tenha certeza que cortesia com o chapéu alheio tem cheiro de maracutaia”, se nada for feito vai ficar no “disse-me-disse”, e quem precisa mesmo terá que “dar seus pulos”.
Entre “esmola” ou auxílio, como ficam os mais de 825 mil capixabas que estão abaixo da linha da pobreza no Espírito Santo (IBGE) e têm que sobreviver com até R$ 409 por mês? Todos eles receberam o auxílio emergencial? E os desempregados, informais, mães solo todos receberam o auxílio emergencial? Era importante uma ação conjunta do Ministério Público Federal em favor dos desfavorecidos, pobres “pecadores” que estão no “purgatório” do governo federal à espera de um “milagre”.