A carta dos professores Laura Carvalho e Joseph Stiglitz enviada à revista The Economist, publicada na edição digital de 12 de maio, confronta o enquadramento adotado pela revista para as políticas industriais.
Enquanto a revista trata o tema com forte ceticismo, enfatizando riscos de distorções e ineficiências, os autores da carta argumentam que essa abordagem ignora avanços recentes na literatura econômica.
A revista possui uma visão liberal clássica, enquanto os autores da carta defendem uma leitura mais pragmática e empírica. The Economist associa as políticas industriais a formas de protecionismo, favorecimentos de grupos específicos e riscos de desperdício de recursos públicos.
Os acadêmicos respondem afirmando que essa equivalência simplória é conceitualmente equivocada e empiricamente frágil. Para os autores, políticas industriais contemporâneas são mais amplas e sofisticadas do que a caricatura liberal apresentada pela revista, pois elas mobilizam instrumentos que estão muito além de tarifas e subsídios.
The Economist argumenta que o Estado tende a falhar ao tentar “escolher vencedores”, sugerindo que intervenções desse tipo são inerentemente problemáticas. Os autores da carta lembram que há muitas experiências bem-sucedidas, inclusive em países desenvolvidos, revelando que o Estado pode desempenhar papel indutor e coordenador eficaz quando há instituições adequadas.
Outro ponto de contraste aparece na forma como cada lado enxerga a relação entre Estado e mercado. The Economist trata intervenção estatal e eficiência de mercado como polos opostos. Para os autores da carta, políticas industriais bem desenhadas funcionam como complemento ao mercado, reduzindo incertezas e viabilizando investimentos de longo prazo.
The Economist enfatiza os custos imediatos de subsídios e incentivos, argumentando que eles distorcem os preços e a alocação de recursos.
A carta critica essa abordagem como sendo excessivamente estática, pois as políticas industriais devem ser avaliadas por seus efeitos dinâmicos, como aprendizado tecnológico, formação de capacidades e mudanças estruturais.
Outro contraste diz respeito ao risco de captura por interesses privados. The Economist trata esse risco como inevitável. A carta reconhece o problema, porém argumenta que ele pode ser mitigado com governança adequada. Para os acadêmicos, o erro da revista é transformar um risco institucional em argumento estrutural contra a política industrial.
Há diferenças nas perspectivas históricas. The Economist analisa as políticas industriais como se elas fossem desvios recentes e a carta aponta que os países desenvolvidos recorreram amplamente a elas em fases anteriores do seu crescimento.
Outro ponto de divergência é a forma como cada lado trata as heterogeneidades das políticas industriais. The Economist tende a tratá-las como um bloco homogêneo, enquanto a carta insiste no fato de que existem múltiplas abordagens, instrumentos e objetivos possíveis.
Em síntese, a comparação mostra que a carta busca reposicionar o debate em bases mais amplas e atualizadas. The Economist, por sua vez, se apoia em pressupostos tradicionais do liberalismo econômico.
Nesse sentido, a carta critica a revista por apresentar uma análise incompleta e por não incorporar evidências recentes. O contraste entre as duas perspectivas revela visões distintas sobre o papel do Estado no desenvolvimento econômico.
O documento ‘Industrial Policy for Development’ (2026), elaborado no âmbito do Banco Mundial, trouxe novos elementos que nos ajudam a pensar políticas industrial para o século XXI.
A respectiva instituição reconhece atualmente que as políticas industriais são necessárias em um contexto de transição tecnológica, competição geopolítica e vulnerabilidades nas cadeias globais de valor.
Políticas industriais modernas devem responder a grandes desafios coletivos, como são os casos de descarbonização, digitalização e segurança energética. Tal argumento desloca o debate de “escolher setores” para “resolver problemas”, algo que gera mais legitimidade e foco. Quando há governança adequada, políticas industriais funcionam melhor quando são adaptadas ao contexto.
O interessante documento do Banco Mundial sugere que os países detentores de menores capacidades estatais devem começar com políticas industriais leves, ampliando a complexidade conforme aprendem.
O documento entende que algumas políticas industriais são replicáveis.Temos, entre nós, capacidades institucionais democráticas suficientes para planejar e executar políticas industriais eficazes, eficientes e efetivas?