No Estado de barbárie, cada um pegava uma arma e decidia o que ia fazer diante de um conflito com o seu vizinho. Os grupos armados de soldados ou mercenários, sob o comando de alguém que tinha mais poder e dinheiro, saíam para tomar as terras ou posses do adversário e aumentar seus bens, logo usando força e poder. Isso era o que acontecia, e cada um teria que se virar para se defender. O que prevalecia era a lei do mais forte, do que tinha mais armas, do mais poderoso.
A tradição sociológica, por meio de seus diversos pensadores, mostrou que para haver civilidade foi preciso transferir ao Estado as armas e a função de resolver os conflitos de seus cidadãos. E este modelo, por mais que tenha vícios, é o que está presente em nossa sociedade na maioria das cidades ao redor do mundo. Para garantir a paz, a ordem e a civilidade, o Estado criou a burocracia e a segurança pública, com suas diversas forças para que os cidadãos pudessem ter a garantia, segundo a lei constitucional, de viver em uma sociedade com menos conflito, com lei e ordem.
Contudo, por mais tenhamos avançado ao longo do tempo, com conquistas importantes, que garanta a liberdade, o direito ao voto, o acesso a benefícios sociais e econômicos, quando um país é governado de costas para valores caros à instituição do Estado e à democracia, a coisa pública passa a ser menosprezada e a visão tacanha, que prega o Estado mínimo em todos os setores, é levado ao extremo. O público passa a ser colonizado pelo privado, domina e controla o interesse coletivo. E a nossa longa tradição cidadã democrática se esvai aos poucos com medidas que privilegiam somente o interesse pessoal e não mais do cidadão.
Esta realidade que ameaça a democracia e seus direitos está presente também aqui no ES. A tentativa de golpear a democracia soa evidente em discursos e atitudes de partidos e candidatos que pretendem se lançar ao pleito. Representantes que ocupam cargos públicos usam fake news, defendem o rompimento de normas, leis, e se colocam como anunciadores de um mundo a parte, como únicos detentores do poder.
Questionam as formas de governo e as próprias instituições que fazem parte, mas não são capazes de apresentar projetos e ações que possam modificar e melhorar a vida das pessoas. O fundamentalismo radical e mesquinho, com raiz profunda na alienação religiosa doentia, são suas causas, que transformadas em bandeiras os motivam a seguir em frente numa loucura desenfreada, que beira a bizarrice. Para eles, barbárie é sinônimo de civilização.
O discurso fácil desta direita raivosa, anticientífica, contra as instituições democráticas e de caráter fundamentalista, já está presente na ordem do dia e fará das eleições 2020 um palco de disputas polarizadas. Pelo menos é isso que os inimigos da democracia querem. Claro, para eles é mais fácil ficar neste jogo moralista, de significantes vazios, em que cada palavra não tem relação alguma com a vida das pessoas, ao invés de apresentar pautas com propostas importantes e necessárias para melhorar a vida dos moradores das nossas cidades.
Parece que não querem fazer compromisso com a vida real de milhões de pessoas, que sofrem em muitas das nossas periferias urbanas, de modo gritante com a saúde precária, sem moradia digna, falta de geração de emprego, renda e desigualdade.
Por mais que exista uma ameaça à democracia, este é o nosso modelo, implantado a custa de muitas batalhas e lutas. Mas sabemos que esta ideia de civilização está longe de ser perfeita e, portanto, não é algo estático e fixo. Mas para atender às reais necessidades dos cidadãos, que residem em nossas cidades, faz-se necessário que estes modelos sejam revisados, por meio da participação dos seus moradores.
Seja nas eleições, por meio do voto, em plenárias para discutir planos e propostas orçamentárias, ou por meio de segmentos organizados em bairros. O governo da cidade precisa, de tempos em tempos, passar pela avaliação dos que moram e vivem nela. Este modelo, por mais falho que possa ser, ainda é o que se aproxima de um ideal de construção de como podemos viver bem na cidade.
Diante de tantas incertezas e ameaças, temos que acreditar que ainda somos uma democracia. E todo governo democrático, para se livrar da barbárie promovida pelo autoritarismo nascente, tem como único remédio ser provedor e defensor do interesse coletivo, da transparência, do bem comum e da paz. E deve garantir aos seus cidadãos o direito de viver bem, o que fará de nós uma civilização e não uma barbárie.