Estava hospedado na casa do Maurício, irmão da Rachel Martins, em Lisboa, pessoa de fino trato de quem gosto muito. Em uma dessas vezes, vamos os três – ele, ela e eu – receber o outro irmão, o Francisco, que mora em Paris e viajava para nos encontrar. Chegou lá o gajo ao aeroporto da cidade.
Na volta a casa, viemos conversando em brasileiro (os irmãos – nascidos e muito vividos em São Paulo), em paulistês. O chofer, alentejano, muito atento ao assunto, mas sem dizer uma só palavra. Chegamos, pagamos.
Quando abrimos a porta para sair, o motorista me escolheu e chamou:
- Doutor, faça um favor, que diabo de língua é essa que a gente compreende tudo e não entende nada?
Gostava de conversar, passeando à beira do Tejo, com João Martins, mago da pintura, pai deles. Eu contava muitas piadas de português, já que minha intenção era delicadamente espetá-lo, como dizem, e ele morria de rir
Um dia, cheio de remorso, pergunto se eles não contavam piadas de brasileiro.
- Não existe piada de brasileiro, é tudo verdade - respondeu e caiu na gargalhada, coisa rara.
João Ninguém, como se autonomeava, se foi, aqui mesmo em Vitória, segundo apurei, vítima de uma piada de brasileiro, dado à confusa técnica e displicência no seu atendimento.
Passou-se.
Uma vez, no avião, em viagem a Lisboa, ocorreu uma leve descompressão durante o voo, o suficiente para Rachel cobrir-se completamente com um cobertor e eu ficar surdo dos dois ouvidos. Ao aterrissarmos, corri para o ponto de táxi mais próximo e pedi que me levasse a uma farmácia, que eu precisava comprar um remédio, pois já passava da meia-noite.
- Vá a um médico.
- Não precisa, é só uma dorzinha.
- Então.
E o ouvido a latejar.
Procurei correndo outro ponto de táxi:
- Poderia me levar a uma farmácia. Preciso de um absorvente.
O motorista me olhou com uma expressão de espanto, mas me levou.
Foram as três gotas de anestésico auricular que me deram o maior prazer e calma durante minha vida.
Domingo de sol, decidimos ir a Cascais, uma praia deliciosa, bem pertinho. Simples: pegamos o bonde, minutos depois ele parou e esperou o outro cruzar, o que levou meia hora. Ao chegar na pracinha, no centro, devido ao exagero da parada, perdemos o autocarro para nosso destino.
Deu-se à melodia. Uma funcionária quis ajudar:
- Por que não contratam uma limusine? É o mesmo preço...
Imagina, pensei comigo.
Dei uma risadinha e caminhamos para dar um passeio, foi quando lembrei que estávamos em Portugal.
Voltamos.
Pois era o mesmo preço, com direito a carro de luxo, drinques, ar-condicionado, conforto e espaço. E lá fomos nós.
Dia desses, falei com o Mauricio por telefone. Estava no Catar, a trabalho. Ninguém está proibido de beber álcool, exceto todo mundo.
Passou-se.
A Seleção Brasileira vai iniciar contra a Sérvia e o reverendo Tite é sério e respeitado, ninguém pode negar, Santo Agostinho esteja com ele e com o povo brasileiro.
Espero que esteja correto, após ignorar os gols e os passes de Gabigol. Comecei a Copa tomando tenência no Richarlison, capixaba, cuja estrutura do nome é uma mistura do alfabeto inglês e de Nova Venécia.
Acabo de ouvir.
Os gênios da crítica colocaram o Pelé como quarto mais importante no mundo do futebol de todos os tempos. Sem comentários.
Torço esperançoso pela Seleção, mas não esqueço do sete a um. Eu fui ao banheiro por um minuto, quando voltei estava quatro a zero, parecia um pesadelo. Olhamos um para a cara do outro em silêncio sepulcral, que inconscientemente permanece até hoje.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, ameaça morder quem se aproximar das nossas traves.